GÉRARD CASTELLO-LOPES, FOTOGRAFIAS 1956-2005
101 anos do nascimento de Gérard Castello-Lopes (06.08.1925 – 06.08.2026)
Exposição no Arquivo Municipal de Lisboa – Fotográfico, de 23 de abril a 19 de setembro de 2026.
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Esta exposição não é apenas uma retrospetiva. É um reencontro. Ao abrirmos as portas do Arquivo Municipal de Lisboa | Fotográfico para acolher “Gérard Castello-Lopes – Fotografias 1956-2005”, a cidade de Lisboa não celebra apenas um dos seus maiores vultos da cultura visual, mas a própria memória da nossa identidade comum.
A importância de dar a conhecer esta obra é vital. Num mundo de imagens fugazes, a fotografia de Gérard convida-nos à pausa, à reflexão e ao reconhecimento de quem fomos, para melhor compreendermos quem somos. O que torna esta mostra única é a sua génese. A seleção de fotografias que aqui apresentamos carrega a marca do afeto e da intimidade, tendo sido realizada pelo seu filho. Este olhar filial sobre o olhar do pai acrescenta uma camada de sensibilidade que transcende a curadoria tradicional: é uma escolha guiada pela herança e pelo conhecimento profundo de quem viveu entre as luzes e as sombras que estas imagens projetam. Que este percurso entre 1956 e 2005 seja, para todos, um momento de descoberta e, acima de tudo, de afeto.
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Carlos Moedas, presidente da Câmara Municipal de Lisboa
Abril 2026
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O filho David Castello-Lopes, faz a curadoria da exposição. Regista:
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O meu pai era um homem de negócios contrariado. Chorava sempre que ouvia J’aurais aimé être un artiste, de Starmania, dizendo: “É a história da minha vida”. Com o seu irmão José Manuel assumiu, na década de 1950, a empresa de distribuição cinematográfica Filmes Castello-Lopes, fundada em 1916, em Lisboa, pelo pai de ambos.
O seu trabalho consistia em adquirir filmes junto das grandes produtoras internacionais e distribuí-los por salas de cinema, entre as quais o Condes, em Lisboa, que era a mais emblemática. Mas aquilo que sempre quis, na verdade, era ser artista.
Começou por estudar música, como a sua mãe, Marie-Antoinette Lévêque, pianista de concerto. Sob a influência do seu avô materno, Émile, maestro no exército francês e pintor de domingo, dedicou-se depois ao desenho, antes de “desistir por falta de talento”, segundo as suas próprias palavras.
Por fim, no início da década de 1950, descobriu numa livraria parisiense, Images à la sauvette, de Henri Cartier-Bresson e desenvolveu uma paixão intensa pela fotografia. Durante cerca de dez anos, entre meados das décadas de 1950-1960, paralelamente à sua atividade como distribuidor de filmes, saiu para a rua – em Lisboa, Bruxelas, Roma e Praga, e fotografou aquilo que via.
Em 1966 interrompeu bruscamente a sua atividade, porque, segundo as suas próprias palavras, já não suportava “ouvir gritos de pessoas que não queriam ser fotografadas”. Só voltou a dedicar-se seriamente à fotografia em 1982, por ocasião da exposição organizada por António Sena, na Galeria Ether.
Sou o seu filho mais novo, nascido em 1981, quando ele já tinha 56 anos, e o meu nascimento coincidiu, assim – por acaso – com o seu renascimento fotográfico. Ao longo de toda a minha vida vi-o fotografar e encontrar, nesse reconhecimento tardio da sua criatividade, a consolação por não ter sido artista mais cedo.
Em 2001, ano em que completei 20 anos, organizou aqui mesmo, no Arquivo Fotográfico, uma exposição intitulada “David”, composta exclusivamente por fotografias que me tinha tirado desde a infância até à idade adulta. É uma memória, tanto mais marcante para mim, por ser uma das últimas que guardo dele ainda com saúde.
Um ano mais tarde surgiram os primeiros sintomas da doença de Alzheimer, de que viria a falecer a 12 de fevereiro de 2011, aos 85 anos. A sua mulher, Danièle, a quem sempre chamou “o amor da sua vida”, viria também a falecer, da mesma doença, em 2023. No âmbito da celebração do nascimento do meu pai estou profundamente emocionado por o Arquivo Fotográfico, sob o impulso de Carlos Moedas, ter aceite acolher esta exposição. É composta por trinta e sete fotografias que selecionei como uma espécie de “best of” pessoal.
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A exposição integra uma legenda junto de cada uma das 37 fotografias, uma memória ou reflexão escrita pelo filho do fotógrafo. A folha de sala reproduz estas legendas e transcrevo-as, pois permitem conhecer um pouco melhor o fotógrafo. As fotografias de Castello-Lopes são conhecidas, apresento algumas gentilmente cedidas pelo Arquivo Municipal, outras poderão reconhecer-se a partir dos aspetos da exposição que mostro. Quem conhece a obra do Gérard, ou tem alguns dos seus livros, encontrará facilmente várias…
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Cascais, 1987
O meu pai disse muitas vezes que, na sua segunda fase fotográfica (a partir de 1982), se tinha dedicado a “revelar o paradoxo das aparências”, paradoxo que considerava particularmente evidente nesta fotografia. Nunca compreendi verdadeiramente o que queria dizer com isso. Em contrapartida, muitas imagens da sua segunda fase – em particular esta – revelam, a meu ver, o paradoxo da fotografia: tirando partido do carácter mecânico do registo da luz, que confere às imagens um selo de verdade, a fotografia tem, na realidade, o poder de trair subtilmente a confiança que inspira. O objeto desta fotografia é uma realidade objetiva: um rochedo que emerge do mar.
A impressão que transmite é uma mentira: três mil toneladas de pedra que parecem voar sobre a água.
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Verdun, 2000
A partir dos 17 anos, quis ser fotógrafo, como o meu pai. Houve, portanto, um breve período em que tirámos fotografias juntos. Nesse dia, visitávamos o cemitério de Douaumont, onde estão enterrados muitos dos soldados mortos durante a Batalha de Verdun. Toda a força desta fotografia reside no facto de que – completamente absorvidos pela massa tranquila do tronco cortado e pela pureza dessa silhueta surpreendente, cuja natureza vegetal é apenas evocada por um ramo que se projeta à esquerda – demoramos algum tempo a reparar nas cruzes. A sua multiplicidade surge então discretamente e confere, ao mesmo tempo, ao tronco cortado e à silhueta do arbusto um carácter absurdo e ligeiramente engraçado. A fotografia que eu tirei é muito inferior.
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Lisboa, 1998
Era o ano da Exposição Universal de Lisboa. Barcos turísticos navegavam na bruma. Tudo é belo nesta fotografia. Esta vaga estranha parece colada à superfície da água. O efeito poeticamente cómico deste barco cortado a meio. Como se a fotografia tivesse sido tirada um pouco tarde demais.
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Carcavelos, 1958
O mar é um dos elementos mais representados no mundo. Parece impossível extrair dele algo que não seja, pelo menos, um pouco cliché. E, no entanto: que suavidade, que elegância leve e melancólica emana desta onda que parece assustar as gaivotas, como quando, em crianças, nos divertíamos nos parques a correr na direção de um grupo de pombos para os ver levantar voo!
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Paris, 1985
Nesse ano, Christo tinha embrulhado a Pont Neuf. Fomos visitá-la com a minha família. Um sem-abrigo dormia num dos nichos da ponte. Gostaria de saber o que terá sido feito dele.
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Paris, 1989
No inverno, o meu pai jogava ténis no “Club des cheminots de Paris”: um espaço instalado junto à Petite Ceinture, no décimo quinto arrondissement. Os campos estavam cobertos por uma gigantesca cúpula insuflável na qual, naquele dia, o meu pai detetou a imagem de um babuíno. Mas são outras razões que me fazem gostar desta fotografia. A parte superior assemelha-se a uma pele doente e ressequida, salpicada de minúsculas verrugas. É repugnante, inquietante e ininteligível. Tão repugnante, inquietante e ininteligível que, perdidos por um instante nessa superfície seca e fétida, reencontramos com júbilo a matéria evidente e familiar dessa lona de plástico, cujos reflexos crus nos fazem imaginar perfeitamente o que sentiríamos ao passar a mão por ela.
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Nuno Bragança
Não conheci Nuno Bragança, mas ouvi sempre o meu pai falar dele como de um amigo muito querido. Citava frequentemente uma frase sua que nunca esqueci e que eu próprio cito muitas vezes: “Criado embora entre hálitos de faisão, cedo me especializei na arte de estender os braços”, uma referência às suas origens nobres, que coexistiam com uma preocupação com a justiça social.
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Chambord, 1984
É sempre uma alegria ver, no mundo que nos rodeia, formas elementares. A curva de uma torre, o triângulo de um pedaço de relvado, o retângulo de um tanque. Deve haver algo que nos reconduz à simplicidade dos jogos educativos da primeira infância, em que é preciso encaixar os círculos nos círculos e os quadrados nos quadrados. E como não gostar destas duas personagens minúsculas, que dão a escala monumental da paisagem que as rodeia.
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Dafundo, 1956
Quando começou a fotografar, o meu pai organizava concursos semanais de fotografia com os seus amigos. Todas as semanas era imposto um tema. E, na semana seguinte, muitas vezes em casa do meu pai, na Rua Direita, em Cascais, cada um apresentava os seus trabalhos. Nessa semana, em 1956, o tema era “Reflexos”. E o meu pai venceu o concurso com esta fotografia. O prazer que sentimos ao vê-la deve-se, a meu ver, ao facto de ela representar uma espécie de yin e yang. Há uma alegria sensorial em ver coexistirem tão de perto essa roupa imaculada, que parece cheirar a detergente, e essa água suja e lamacenta, que devolve um reflexo turvo e fantasmático. Como se um exército de anjos, de cabeça para baixo, enfrentasse um exército de zombies, de braços no ar. E depois há um gato, o que não é irrelevante: o meu pai dizia de certas fotografias que considerava boas, mas não excelentes: “Não está mal, mas falta um gato”.
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França, 2004
Henri Cartier-Bresson foi o mestre do meu pai, o artista que lhe despertou o desejo de fotografar e o ideal de talento que procurava alcançar. Conheceram-se fugazmente, durante uma inauguração em Paris, no início dos anos 2000. Cartier-Bresson morreu no verão de 2004, pouco antes de completar 96 anos. Está sepultado em Monjustin, no Luberon. O meu pai, que por acaso estava de férias na região, tirou esta fotografia alguns dias depois do seu funeral.
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Paris, anos cinquenta
O meu pai só expôs esta fotografia muito mais tarde, porque via nela um artifício fácil de composição. Isso não é totalmente falso. Mas, ainda assim, que equilíbrio! E que prazer ver estas pessoas reduzidas a pequenos berlindes pousados na relva.
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Algarve, 1957
Três gerações de mulheres (avó, mãe e filha), captadas de passagem através de uma janela. O meu pai falava muitas vezes da doçura com que a jovem lhe tinha sorrido.
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Lisboa, 1956
Esta coluna de silhuetas que desfila sem ter consciência de si própria é uma obra-prima do instante decisivo, conceito que o meu pai tinha descoberto, como toda a gente, com a obra de Henri Cartier-Bresson. Se tivesse premido o botão um quarto de segundo antes ou depois, a fotografia teria sido muito menos conseguida.
O meu pai soube captar, no fluxo ininterrupto da realidade, um momento de harmonia visual inesquecível.
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Lisboa, 1957
O meu pai dizia sempre que as pessoas realmente pobres e as pessoas realmente ricas aceitam facilmente ser fotografadas de passagem. Quem realmente não gosta são os pequenos burgueses. E isso vê-se. Há armas de fogo nos olhos desta senhora.
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Roma, 1958
Nos anos 50 e 60, a Itália era um dos principais produtores de cinema do mundo. O meu pai, que era distribuidor de filmes, deslocava-se frequentemente para lá em trabalho. Dos quatro padres, um está prestes a repreender o meu pai, outro esconde o rosto. Os dois únicos que parecem serenos ainda não viram que o meu pai os está a fotografar.
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Lisboa, 1957
É uma cena sempiterna nas cidades do sul da Europa: velhos desocupados, mas joviais, que passam o dia em bancos públicos, por vezes sem falar. Já os vimos cem vezes, mas que alegria parar diante deste grupo! Imagino os heróis reformados de um filme de ação muito antigo, cuja velhice teria esbatido as diferenças.
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Algarve, 1957
Para onde olham?
Não sabemos. E, se o soubéssemos, talvez fosse um pouco menos interessante.
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França, 1992
Todos os verões, íamos de carro para Portugal. E, como toda a gente, parávamos nas áreas de serviço das autoestradas, na companhia dos muitos camionistas portugueses que faziam o mesmo percurso que nós. Adoro esta fotografia, pelo seu lado documental (percebe-se que os camiões possuem uma espécie de mini-restaurantes individuais), pelo seu carácter datado (há um número de telex, uma tecnologia hoje esquecida), pela sua geometria e pela sua tranquila poesia.
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Nazaré, 1958
É um contraponto a outra fotografia do meu pai, mais conhecida e provavelmente melhor, que também representa jovens a jogar futebol na rua. A outra é mais gráfica, mais pura e mais exuberante. Esta é mais documental. Vêem-se os pés descalços das crianças, a terra batida no chão e aquele minúsculo rapaz à esquerda, numa postura que parece não ser da sua idade. E, de repente, recordamo-nos da felicidade da infância, em que uma rua enlameada pode tornar-se o estádio do SL Benfica.
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Óbidos, 1957
O sol abrasador português de meio da tarde. Está demasiado calor para sair. Por isso, ficamos em casa, atrás das paredes espessas de casas com 200 anos. Parece uma cena de western. Alguém está prestes a morrer sob o sol. Voltei lá em 2021.
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Óbidos, 1958
A fotografia foi tirada na mesma pequena vila que a anterior, no mesmo ano. Mas no outono. O tempo é mais ameno. E os homens usam capas. A silhueta da personagem em segundo plano assemelha-se, aliás, muito à do logótipo da Sandeman. Os meus pais chamavam-lhe, entre si, “Mister Sandeman”.
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Lisboa, 1957
O meu pai nunca dava título às suas fotografias. Apenas um lugar e uma data, para que o espectador não procurasse ver nelas nada de particular. Preferia deixar pairar o mistério. Mas, em casa, longe dos olhares, as suas fotografias tinham todas um título que lhe permitia distingui-las. Esta chamava-se “O faia””.
O lugar onde tirou esta fotografia ainda existe.
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Évora, 1957
Há fotografias do meu pai que, além de serem belas, são também divertidas. Aqui, um polícia sinaleiro em Évora, mas que, visivelmente, não tem nenhum carro para fazer circular. Faz-me pena. Dá-me vontade de passar por lá só para que ele tenha alguma coisa para fazer.
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Lagos, 1957
Há, naturalmente, a alegria de contemplar estes trajes, que nos transportam para um mundo desaparecido. Mas, mesmo que não estivessem lá, permaneceria o doce surrealismo da cena: um balcão de bar empoleirado a quatro metros de altura, como se o barman e os clientes fossem liliputianos num cenário de gigantes.
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Lisboa, 1957
Nada há de misterioso nesta fotografia e, no entanto, tudo é perfeito. O equilíbrio das sombras e das luzes, do branco e do preto, das curvas do homem e das linhas retas do edifício e, claro, as suavidades justapostas dessas texturas de outro tempo – o papel do cartaz, a madeira da moldura, a pedra suja da estação, o pequeno saco de pano, testemunho de um tempo em que o plástico ainda não tinha invadido tudo, e o feltro do sempiterno chapéu preto dos homens de outrora.
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Paris, 1983
Trata-se de uma das trintas provas fotográficas que integraram a exposição David, patente no Arquivo Fotográfico, de 21 de junho a 14 de julho 2001, com a curadoria de Luísa Costa Dias.
[…] “No que toca a esta exposição chamada David, a dita escadaria viu-se acrescida dum degrau suplementar: a afetividade. É que esta mostra pretende ser uma forma de narrativa em imagens, da vida do nosso filho David, desde os seus primeiros titubeantes passos em direcção à mãe Danièle, em Paris, até ao fim da sua Adolescência, com dezoito anos, barba, bigode e cabelo comprido.” […]
Gérard Castello Lopes, 2001
Prova fotográfica doada ao Arquivo Municipal de Lisboa, pelo autor, em 2001
EXP000070
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Figueira do Guincho, 1988
Era na nossa casa de campo, a 40 km a noroeste de Lisboa. Havia uma espécie de pequeno pátio, coberto por uma espécie de tapete feito de canas de bambu, que servia de teto. Essas canas não eram regulares e deixavam, por isso, passar a luz do sol. O meu pai disse-me: “Não te mexas” e foi buscar a máquina fotográfica para imortalizar esse boomerang de sol na minha nuca. Eu tinha seis anos e meio.
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Paris, 1999
Sou eu em segundo plano, com a minha T-shirt Nike Air. Esta fotografia foi uma ideia minha: um retrato duplicado por um autorretrato no espelho do armário de casa de banho do nosso apartamento. Tirei uma fotografia segundo esse princípio e o meu pai disse: “Sim, boa ideia, vou fazer o mesmo.” E fez. Melhor. E isso irritou-me.
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Lisboa, 1998
O milagre da fotografia manifesta-se sempre quando uma imagem fixa o movimento complexo e desordenado da água a correr. Com ela, o véu desta cascata artificial da Expo 98 torna-se como uma renda de açúcar que nos separa do mundo misterioso e inquietante das silhuetas que se agitam do outro lado.
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Paris, 1990
Em 1991, teve lugar, na Bélgica, a exposição “Europália”, na qual um fotógrafo era convidado a dialogar com a obra de um escritor. O meu pai trabalhou sobre a obra do seu amigo Vasco Graça Moura. No conjunto de fotografias que realizou para essa ocasião encontrava-se esta, que representa (encarnada pela minha irmã Diane) uma versão moderna e deliberadamente desfocada da Vénus de Botticelli.
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Lisboa, 1998
Trata-se da fila de espera em frente ao Oceanário de Lisboa, que foi uma das principais atrações da Exposição Universal de Lisboa desse ano. A mistura estranha entre o primeiro plano em contraluz e o segundo, distante, a pureza geométrica das linhas que enquadram o emaranhado da multidão, e esse dedo minúsculo, claro – a que o meu pai chamava “o dedo do E.T.” – em torno do qual toda a fotografia se organiza, tudo isso ainda hoje me impressiona.
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Açores, 1998
A bruma é geralmente amiga dos fotógrafos e dos cineastas, porque permite destacar os planos uns dos outros. É por isso que a maioria dos realizadores contemporâneos utiliza fumo artificial nas cenas de interior. Além disso, a bruma tem a vantagem de tornar as atmosferas mais misteriosas. Esta fotografia, tirada nos Açores durante a viagem que os meus pais ali fizeram para celebrar os 30 anos de casamento, foi sempre uma das minhas preferidas. Pela sua geometria e pelo seu mistério, uma vez mais (o que fazem estas pessoas? para onde vão? para onde olha a figura à esquerda?), mas também pela sensualidade com que torna percetível a fronteira entre a familiaridade acolhedora do interior de um carro e a estranheza vagamente hostil do mundo exterior, exposto aos elementos.
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Ilha do Pico, 1998
Em 1998, os meus pais celebraram o seu 30.º aniversário de casamento visitando o seu amigo Toé (António Sena), na ilha do Pico, nos Açores. À primeira vista, esta fotografia pode parecer falhada. Dir-se-ia que esta mão se intrometeu num retrato do vulcão. Mas é precisamente isso: há uma ressonância estranha entre o carácter prosaico desta mão, tão próxima que surge desfocada, e a majestade da montanha, tão distante que aparece velada por essa bruma invisível de que o ar está carregado.
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Cascais, 2004
Em 2004, o escultor Júlio Pomar pediu ao meu pai que fotografasse as suas esculturas para uma exposição. O meu pai já estava um pouco doente, mas aceitou a encomenda. Ajudei-o muito, nomeadamente para esta fotografia. A concha, que contém um pequeno macaco de bronze, foi suspensa por um fio invisível. Ao fundo, é o Guincho.
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Bruxelas, 1958
Tratava-se da Exposição Universal de Bruxelas, que teve lugar nesse ano (e da qual o famoso Atomium é um dos vestígios). É uma das minhas fotografias preferidas do meu pai, porque apresenta algumas das mesmas qualidades que “Derrière la gare Saint-Lazare” de Henri Cartier-Bresson, em particular a geometria muito gráfica do caminhante. Desde Cartier–Bresson, e provavelmente até antes, os fotógrafos sabem que, quando se quer fotografar alguém a andar ou a saltar, é preciso esperar pelo instante preciso em que as suas pernas formam com o solo um triângulo isósceles o mais puro possível.
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Bruxelas, 1958
Demorei algum tempo a perceber o que me agradava nesta fotografia. Mas creio que acabei por encontrar a resposta: é que este casal de meia-idade típico da pequena burguesia parece ser o oposto do Atomium, ultramoderno e futurista, sendo ao mesmo tempo quase tão geométrico quanto ele: a senhora é um retângulo, o homem um triângulo, ambos com uma esfera no topo.
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Paris, 2005
Em 2005, o meu pai, cada vez mais doente, falava cada vez menos e saía raramente com a sua Leica. Mas continuava a fotografar, muitas vezes com a máquina fotográfica da minha mãe. Como aqui, este amontoado curioso de sacos de roupa suja, fotografado com flash, algo muito raro para ele.
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António Bracons, Aspetos da exposição. Inauguração da exposição: a diretora do AML-F, Isabel Corda, David Castello-Lopes e o presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Carlos Moedas, 23.04.2026
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António Bracons, David Castello-Lopes, 23.04.2026
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A exposição de Gérard Castello-Lopes, “Fotografias 1956-2005”, integrada nas comemorações do centenário do nascimento do fotógrafo (06.08.1925 – 2025), com curadoria de David Castello-Lopes, está patente no Arquivo Municipal de Lisboa – Fotográfico, na Rua da Palma, 246, de 23 de abril a 19 de setembro de 2026.
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Gérard Castello-Lopes nasceu emVichy, França a 06 de agosto de1925. Cresceu num ambiente profundamente ligado às artes. Autodidata na fotografia, desenvolveu uma linguagem visual singular, marcada pela tradição humanista europeia. Lisboa — com os seus contrastes, ritmos urbanos e expressões do quotidiano — tornou-se um dos seus temas centrais, revelado através de um olhar simultaneamente atento, sensível e rigoroso.
A sua inquietação criativa manifestou-se em múltiplas áreas. Foi escritor, músico e pintor, sempre movido por um impulso de liberdade e por uma atitude inconformista perante normas e convenções. Como foi recordado, o que considerava ser a “quintessência da fotografia” — a instantaneidade — marcou profundamente a sua obra.
No cinema, teve um papel determinante na renovação artística e intelectual da segunda metade do século XX. Em 1969, participou na fundação do Centro Português de Cinema, promovendo a produção independente e a formação de novos realizadores. Enquanto responsável pela Filmes Castello Lopes, contribuiu para que Lisboa recebesse estreias de grandes autores internacionais, ampliando o acesso do público a cinematografias de referência.
A sua intervenção cultural estendeu-se ainda ao universo musical. Em 1948, foi um dos fundadores do Hot Clube de Portugal, espaço emblemático do jazz em Lisboa e o clube mais antigo do género em atividade contínua na Europa.
Gérard Castello-Lopes iniciou-se na fotografia em 1955, fascinado com as paisagens submarinas que o seu interesse pelo mergulho o levou a contemplar. Entre 1956 e 1966, munido de uma máquina Leica, inventariou a preto e branco o povo e a realidade portuguesa do tempo da ditadura salazarista, numa perspetiva testemunhal e humanista, marcada pela obra e técnica do fotógrafo francês Henri Cartier-Bresson (1908-2004).
Em 1961, publicou no Photography Yearbook e, em 1970, expôs no Pavilhão de Portugal na Exposição Internacional de Osaka, a convite de Daciano da Costa. Alguma “timidez” e o desanimador contexto cultural e profissional da fotografia nesse período inviabilizaram a sua profissionalização. Tornar-se-ia nos anos seguintes um “fotógrafo de domingo”, dedicado à fotografia privada e familiar.
O regresso consistente à atividade fotográfica deu-se a partir de 1982, com a exposição “Fotografias – 1956/1982”, na Galeria Ether — Vale tudo menos tirar olhos, local onde António Sena pretendeu recuperar e apresentar a “geração esquecida” de fotógrafos portugueses dos anos de 1950, alheios ao salonismo, em voga naquela época, e integrá-los definitivamente no património fotográfico português.
Foi, então, o início de uma segunda vida na obra fotográfica de Gérard Castello-Lopes, onde revisitou as primeiras fotografias e lhes fez novas leituras. Segundo o autor, a natureza do seu olhar seria a mesma; o que mudava era o seu objeto.
Começou a refletir sobre a fotografia (a escala, a cor, as ilusões do olhar) e a fotografar o que lhe parecia registável no mundo das coisas e da natureza. Tinha a intenção última de transmitir, através das imagens, a “exaltante charada das aparências”, procurando ir ao encontro do destino da fotografia que, no seu entender, mais não é senão “desencadear uma emoção estética, um prazer da evocação, um misterioso reencontro com os arquétipos”.
A par com o seu trabalho fotográfico, Gérard Castello-Lopes licenciou-se em Economia, foi profissional de cinema, gestor, crítico e fundador do Centro Português de Cinema, como já referido. Membro do Corpo Diplomático no Conselho da Europa, viveu entre Lisboa, Estrasburgo e Paris, onde fixou residência. A partir da década de 1980 expôs e participou em diferentes exposições e publicações fotográficas, nacionais e internacionais, e tem a sua vasta obra representada em diversas coleções públicas e privadas.
Gérard Castello-Lopes faleceu em Paris a 12 de fevereiro de 2011, deixando um legado artístico e cultural cuja relevância atravessa gerações e disciplinas.
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Sobre Gérard Castello-Lopes no FF, aqui.
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Cortesia: Arquivo Municipal de Lisboa – Fotográfico.
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Ao visitar esta exposição, também pode visitar as exposições “Lisboa para ti” de Georges Dussaud, no FF, aqui e “Hyperosmia”, de Rita Barros, no FF, aqui.
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