JOÃO PENALVA, ARCADA, 2000 E PERSONAGENS E INTÉRPRETES, 1998

No âmbito da exposição “Personagens e Intérpretes” na Culturgest, em Lisboa, de 18 de abril a 19 de julho de 2026.

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Prossigo na exposição “Personagens e Intérpretes” de João Penalva. Falei já aqui sobre 4 dos 8 livros de fotografia expostos, hoje entro nas galerias onde se apresentam 13 projetos.

As obras de João Penalva (Lisboa, 1949) juntam imagem, pesquisa, reflexão. Fotografias, desenhos, documentos, recortes, notas manuscritas ou datilografas. A fotografia é, muitas vezes, um complemento, como um documento, embora em diversas obras assume o papel do fotográfico, essência da obra em si, como é o caso dos livros de artista apresentados, ou das séries Arcada ou Personagem e Intérprete – que dá o nome à exposição e resume a obra de Penalva, onde ele é, de alguma forma, personagem e intérprete. A estas, mais centradas na fotografia, debruço-me um pouco mais neste artigo.

Em “Arcada”, num extenso corredor, apresentam-se frente a frente um conjunto de fotografias, perto de duas centenas, muitas de relógios, a preto e rosa (uma tonalidade rosa cobre todas as imagens), em diferentes formatos, alinhadas inferiormente numa mesma linha, a que se complementa uma segunda moldura de igual dimensão da superior, como um reflexo, com uma folha branca com um texto mais ou menos extenso, manuscrito em português a preto e a vermelho em inglês.

Noutro projeto, o que dá o nome à exposição, “Personagens e Intérpretes” e que se encontra publicado em livro, uma projeção de imagem única de retratos femininos, que no conjunto lembram memórias familiares…

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Bruno Marchand, curador, escreve a propósito da exposição:

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Depois de um percurso inicial na dança contemporânea – durante o qual integrou companhias como a de Pina Bausch (1973/74) e Gerhard Bohner (1975) – e de ter fundado com Jean Pomares a The Moon Dance Company em 1976, João Penalva fixou residência em Londres nesse mesmo ano, cidade onde viveu e frequentou a Chelsea School of Art entre 1976 e 1981.

Em meados da década de 1990, e depois de anos concentrado na pintura, as suas obras começaram a ganhar escala e a compor-se de materiais diversos, como fotografias, vídeos, desenhos, documentos, diapositivos, cartas e todo o tipo de anotações e manuscritos. Os padrões, ornamentos e superfícies expressivas da sua produção pictórica deram lugar a um impulso narrativo insuspeito e transversal, fazendo de cada nova obra uma proposta espacializada, onde textos, imagens e objetos teciam histórias que íamos desvendando à medida das nossas curiosidade e imaginação associativa. Entre a realidade e a ficção, as propostas de Penalva tornavam-se experiências imersivas e fluidas, em cujos enredos, sempre plausíveis, desempenhávamos, à vez ou cumulativamente, o papel de testemunha, de agente ou de cúmplice.

Estas exposições comemoram os cinquenta anos da atividade de João Penalva como artista plástico e trinta anos desta vertente particular da sua obra, através da apresentação de uma dezena das suas peças mais emblemáticas na Culturgest e, fruto de uma colaboração com as Galerias Municipais de Lisboa, da reposição d’A Colecção Ormsson apresentada por João Penalva, no Pavilhão Branco, onde foi originalmente mostrada em 1997 (de 18 de abril a 28 de junho). A esta iniciativa junta-se ainda a Cinemateca Portuguesa que, nos dias 8 e 9 de junho, apresenta um ciclo dedicado aos filmes do artista.

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Sobre João Penalva, Nuno Crespo em «João Penalva a três vozes», no Público / Ípsilon de 20 de julho de 2011, escreve:

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João Penalva […] é um contador de histórias. Está-nos sempre a contar coisas sobre pessoas, objetos, cidades e paisagens. Entrar numa sua exposição é como entrar num filme: as suas obras, constituídas quase sempre por uma relação intensa e complexa entre imagem, objetos e texto, obrigam a movimentos de aproximação e afastamento, a fazer cortes, a focar pormenores, a ler as legendas, a percorrer como um «travelling» as linhas desenhadas pelos textos e imagens nas paredes. Neste universo todos os elementos são importantes e a linha de separação entre ficção e realidade é ténue e está sempre a ser transgredida pelo artista quando constrói as suas intensas e imensas alegorias. A transgressão de territórios é a sua mais frequente metodologia”, revelando um fascínio pelas questões do género artístico: “interessa-lhe questionar o que é a pintura, a escultura, o cinema. Um incessante colocar de questões possibilitado pelo seu imenso virtuosismo: Penalva pinta, esculpe, faz fotografia, escreve, foi cantor, ator, bailarino.

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Maria Beatriz Marquilhas, em «João Penalva», na Artecapital, acrescenta:

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A simbiose entre palavra e imagem é uma das marcas autorais de João Penalva, sendo esta uma união plenamente equilibrada, uma vez que, tal como a palavra não explica ou revela a imagem, a imagem não se limita a figurar uma mera ilustração da palavra. Estamos perante um universo textual e um outro universo imagético que, como que num acordo tácito, constituem a base de criação de obras que não podemos classificar de textuais ou de imagéticas, pois que ambos os universos se unem, dando origem a um novo, sendo este mais complexo e de uma vastidão que não conhece limites impostos pelos convencionalismos que contaminam o mundo da arte.

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António Bracons, Aspetos da exposição, 2026 – Viúva Simone (Entr’acte, 20 anos), 1996 – LM44/EB61, 1995 – Wallenda, 1997–1998 [2] – STANLEY, 2018

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Duas séries:

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Arcada, 2000

Provas fotográficas em gelatina de sais de prata coloridas, tinta sobre papel, molduras de madeira.

Coleção da Fundação Leal Rios, Lisboa, em depósito na Fundação de Serralves – Museu de Arte Contemporânea, Porto

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Arcada surgiu em 2000, em resposta a um convite para uma exposição comissariada por Pedro Lapa, intitulada More works about buildings and food. Aconteceu que os anos de 1999 e 2000 foram um período em que viajei muito por motivos de trabalho e, com este convite em mente, comecei a olhar para edifícios, a fotografá-los, a investigar alguns e a imaginar a história da maioria deles.

Por volta da mesma altura, em 1999, recebi como presente de Natal de um amigo o livro La vie mode d’emploi, de Perec, que certamente deixou a sua marca.

O trabalho encontrou a sua própria estrutura de forma cumulativa, através de ‘temas’ ou ‘repetições’ de motivos arquitetónicos, como pontes que ligam edifícios, edifícios com relógios, ou as muitas fotografias do lugar em Montreux onde Stravinsky escreveu A Sagração da Primavera — um pequeno quarto no último andar de um edifício de famílias burguesas, com uma vista magnífica sobre o Lago Léman — um local improvável para o nascimento de uma obra musical destinada a abalar o mundo da música do século XX.

A primeira impressão que quis transmitir foi a de que esta peça era interminável, que ninguém quereria ler centenas de textos e outras tantas fotografias, mesmo estando os textos à altura dos olhos e sendo eles curtos, na sua maioria.

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João Penalva

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António Bracons, Aspetos da exposição, 2026

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Personagem e Intérprete, 1998

Armário, dupla projeção programada de diapositivos, equipamento de som (som gerado em tempo real)

Coleção de Arte Contemporânea do Estado

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Sei de cor muitas das perguntas que me têm feito desde 1999. Ela era uma amiga sua? De onde vieram as fotografias? Foi ela quem lhas deu? Quem lhe deu essas fotografias? Usou o Photoshop? Onde comprou essas fotografias? Ela era atriz? Esta mulher viu o seu trabalho com as fotografias dela? Não se sentiu tentado a dar mais narrativa ao trabalho? Ela era uma pessoa feliz? Tinha fotografias dela que não incluiu? Ela tem um bom sentido de humor? Trabalhava na moda? Sabe algo pessoal sobre ela? Teve uma vida trágica? Era uma celebridade? As imagens são da vida real ou de filmes? Ela tem alguma ligação com uma família do teatro? Foi você quem recortou as imagens? São todas fotografias da mesma pessoa? Era bailarina? Sabe quem tirou as fotografias? Pode contar-me alguma coisa sobre esta mulher? E há muitas, muitas mais.

Em 1998, pensava — e continuo a pensar hoje — que, ao contrário de todas as minhas outras peças — sobre as quais faço questão de partilhar como surgiram e como se desenvolveram, e, em suma, revelar tudo sobre mim enquanto artista porque acredito que permitir que o espectador saiba mais sobre as peças contribuirá para o seu apreço –, quando se trata de responder a perguntas sobre esta mulher, isso não traria nada de bom à peça. Não devem saber nada sobre ela e não devem saber nada sobre o que eu sei sobre ela, se é que, de facto, sei alguma coisa sobre ela, o que também não vos vou contar. Ela é aquilo que acreditam que ela seja. São vocês que inventam a história dela. Ela pertence-vos. A vocês, enquanto pessoas com curiosidade, imaginação e criatividade. Desfrutem!

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João Penalva

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António Bracons, Aspetos da exposição, 2026

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A exposição de João Penalva, “Personagens e Intérpretes”, com curadoria de Bruno Marchand, está patente na Culturgest, ao Campo Pequeno, em Lisboa, de 18 de abril a 19 de julho de 2026.

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