JOÃO PENALVA, OITO LIVROS DE ARTISTA

Integra a exposição de João Penalva, “Personagens e Intérpretes”, na Culturgest, em Lisboa, de 18 de abril a 19 de julho de 2026.

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Visitei há dias, na Culturgest, a exposição “Personagens e Intérpretes” de João Penalva. Numa pequena sala, um pouco ‘ao lado’ da exposição (o antigo espaço da livraria), oito livros de artista estão disponíveis para consulta. Ocupando todo o espaço das galerias, apresentam-se 13 projetos.

Hoje, vou ficar por esta pequena sala e mostrar um pouco de alguns destes livros. Na próxima publicação, passarei por alguns dos projetos que se podem ver nas salas da galeria.

Estes são “Livros de artista não encadernados, impressos com Epson Micro Piezo TFP e tintas UltraChrome K3 em papel Moab Legion Entrada Rag Natural de 300 g., 39,5 × 31 cm cada. Ed. 3 + 1 p.a. Manusear sem luvas.”, como lemos na folha de sala.

Esta dimensão dos livros, 39,5 × 31 cm, 39,5 x 62 cm aberto, e o papel de 300 gr, confere-lhes uma expressão e um toque especial, que o facto de não serem encadernados, isto é, as folhas estão dobradas, umas dentro das outras, mas sem qualquer costura ou fixação. As imagens, algumas com origem em negativos ou outras imagens apropriadas, apresentam na impressão poeiras e pelos que integram as imagens (ou os negativos base) e lhes conferem uma expressão própria, como algo ‘antigo’ ou memória, arquivo.

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Estes livros fazem parte de uma série iniciada por João Penalva em 2007. (…)

No que respeita à sua condição estrutural, estas talvez sejam as obras mais íntimas de João Penalva. Não só porque lhes podemos tocar, sentir o seu peso e a sua textura, mas também porque o formato livro e a natureza frequentemente fragmentária do que apresentam exigem uma atenção concentrada, minuciosa, quase forense. O que esta atenção nos revela são sequências de imagens que remetem quase sempre para um fora-de-campo: para algo que faz parte delas, mas que o artista deixou implícito, apenas indiciado. Como quem constrói narrativas elípticas com o olhar.

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António Bracons, Aspeto da exposição, 2026

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Sobre a exposição, escreve o curador, Bruno Marchand:

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Depois de um percurso inicial na dança contemporânea – durante o qual integrou companhias como a de Pina Bausch (1973/74) e Gerhard Bohner (1975) – e de ter fundado com Jean Pomares a The Moon Dance Company em 1976, João Penalva fixou residência em Londres nesse mesmo ano, cidade onde viveu e frequentou a Chelsea School of Art entre 1976 e 1981.

Em meados da década de 1990, e depois de anos concentrado na pintura, as suas obras começaram a ganhar escala e a compor-se de materiais diversos, como fotografias, vídeos, desenhos, documentos, diapositivos, cartas e todo o tipo de anotações e manuscritos. Os padrões, ornamentos e superfícies expressivas da sua produção pictórica deram lugar a um impulso narrativo insuspeito e transversal, fazendo de cada nova obra uma proposta espacializada, onde textos, imagens e objetos teciam histórias que íamos desvendando à medida das nossas curiosidade e imaginação associativa. Entre a realidade e a ficção, as propostas de Penalva tornavam-se experiências imersivas e fluidas, em cujos enredos, sempre plausíveis, desempenhávamos, à vez ou cumulativamente, o papel de testemunha, de agente ou de cúmplice.

Estas exposições comemoram os cinquenta anos da atividade de João Penalva como artista plástico e trinta anos desta vertente particular da sua obra, através da apresentação de uma dezena das suas peças mais emblemáticas na Culturgest e, fruto de uma colaboração com as Galerias Municipais de Lisboa, da reposição d’A Colecção Ormsson apresentada por João Penalva, no Pavilhão Branco, onde foi originalmente mostrada em 1997 (de 18 de abril a 28 de junho). A esta iniciativa junta-se ainda a Cinemateca Portuguesa que, nos dias 8 e 9 de junho, apresenta um ciclo dedicado aos filmes do artista.

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Michio Harada, 2017

48 pp

Michio Harada distingue-se de outros livros de João Penalva por incluir páginas de texto sobre o fotógrafo que dá nome ao título, e um índice dos vários locais onde foram tiradas as fotografias nele reunidas.

Não é claro se este fotógrafo existiu realmente ou se é uma personagem fictícia, mas as suas fotografias existem de facto.

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João Penalva, Michio Harada, 2017

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I Was a Spy, 2007

64 pp

Um livro criado a partir de uma única fotografia de imprensa do filme de 1933, I Was a Spy, do realizador britânico Victor Saville, dramatizado numa sequência narrativa de detalhes semelhante a um filme.

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João Penalva, I Was a Spy, 2007

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Boro, 2017

36 pp

Boro documenta um grande pedaço de tecido japonês tingido com índigo, cuidadosamente remendado e cosido. Os padrões resultantes podem ser fruto apenas dos remendos ou de uma composição criativa.

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João Penalva, Boro, 2017

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Taipei Story, 2007

64 pp

A narrativa começa com um homem a fazer um telefonema de uma cabine telefónica, interpretado por um insuspeito transeunte em Taipé e, mais tarde, por um actor amador que faz de seu sósia.

Ao mesmo tempo, um grupo de pessoas num estacionamento reorganiza-se em diferentes disposições, como se estivesse à espera de alguma coisa ou de alguém.

Todas as imagens foram captadas com uma câmara analógica, utilizando filme KODAK Recording de alta velocidade, 1200 ASA, que já não é fabricado. Este filme foi utilizado nas décadas de 1960 e 1970, principalmente pela polícia, para registos de rua rápidos.

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João Penalva, Taipei Story, 2007

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A exposição de João Penalva, “Personagens e Intérpretes”, com curadoria de Bruno Marchand, está patente na Culturgest, ao Campo Pequeno, em Lisboa, de 18 de abril a 19 de julho de 2026.

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Além dos livros apresentados, podem ser vistos: Small Artificial Pond, Koishikawa, 2009, 32 pp; Portraits (Machines and Kabuki Wigs), 2009, 32 pp; In a Swedish Office, 2007, 64 pp e Hello? Are You There?, 2009, 64 pp.

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