SOFIA SILVA, A FALA DO TRONCO
Dia Mundial da Fotografia.
Com a colaboração de Alexandre de Magalhães. Exposição no Centro de Artes Villa Portela, em Leiria, de 30 de maio a 30 de agosto de 2026.
.
.
.
Este projeto é desenvolvido por processos fotográficos: processos que utilizam a luz para sensibilizar materiais e superfícies. Cromatografias, cianotipias, luminogramas, quimigramas, antotipias de clorofila, entre outros processos, impressos sobre papel de arroz, papel de gelatina e prata expirado… 2 fotografias de Alexandre de Magalhães e “Oráculo”, um “diário gráfico”, que inclui negativos, fotografias, material de pesquisa, registo de trabalho de todo o processo…
.
.
Na folha de sala, lemos sobre a génese e desenvolvimento deste projeto:
.
A FALA DE TRONCO é um projecto que nasce na sequência da tempestade Kristin, que afectou com especial impacto o distrito onde cresci e resido, Leiria, na madrugada do dia 28 de Janeiro de 2026. Em resposta ao desafio lançado pelo Centro de Artes Villa Portela, para que se honrasse a memória dos dois Cedros-do-Atlas (Cedrus atlantica) centenários, que viram as suas vidas interrompidas nessa noite sombria, iniciei uma residência artística nos Laboratórios Criativos da Instituição, que se prolongou durante quatro meses.
Inicialmente assoberbada pela premissa, bem como pelo cenário catastrófico, juntei-me à restante equipa no trabalho de recolha de matéria-prima e comecei a experimentar com diferentes técnicas e processos de fotografia-sem-câmara, lenta e sustentável. À medida que as árvores se iam levantando no jardim, esse gesto repetitivo e frenético dos primeiros testes foi revelando a dimensão estética do ecossistema das árvores, tendo daí resultado a primeira obra — Fazer o tronco — um Quimigrama de grande escala feito com as primeiras recolhas, numa tentativa de representar o Cedro-do-Atlas.
À medida que a angústia ia dando espaço à catarse, foi nascendo um projecto de criação de imagens e objectos que respondem, quase na totalidade, aos materiais recolhidos no espaço, quer no que diz respeito a questões relacionadas com a representação imagética, quer no que diz respeito à potência dessa matéria orgânica para fabrico de soluções de trabalho (fotossensíveis ou não). O solo, as raízes, os troncos, os ramos, o musgo, os líquenes, os fungos, as flores, os frutos, os animais, a serradura, a relva, as cinzas… tudo foi utilizado para criar uma instalação que, longe de conseguir investigar a memória do espaço que me acolheu, tenta contar a história de vidas subterrâneas e invisíveis, criando um ambiente onde se espera ser possível imaginar novas simbioses.
Nos primeiros tempos, encontrei na Cromatografia do Solo a técnica de eleição para criar imagens, em torno das quais começaram a gravitar as restantes obras. A Cromatografia do Solo é uma técnica que permite avaliar e analisar o microbioma do solo. Para criar estas cromatografias, precisamos de uma pequena quantidade de nitrato de prata e de amostras do solo a analisar, que passam por um processo de decantação. A interacção das duas soluções cria imagens efémeras, em constante transformação, onde encontramos diferentes padrões e colorações, resultado da formação de diversos compostos.
O potencial experimental da Cromatografia assinalou novas redes de comunicação invisíveis, nomeadamente o reino dos fungos, bem como de outros sistemas radiculares através dos quais árvores e outras plantas comunicam, construindo um sistema de informação que confere resiliência, memória e capacidade de adaptação à natureza. Desta investigação nasceu um núcleo dedicado à semiótica das árvores, onde se encontram painéis com elementos botânicos e pigmentos naturais, bem como um conjunto de imagens impressas em papel de gelatina e prata expirado, usando fungos, troncos, ramos e reveladores botânicos feitos com os restos do Cedro.
Paralelamente ao trabalho que desenvolvo em processos fotográficos, gráficos e artesanais, desde 2022 que me dedico à criação de biomateriais, que utilizo como suportes alternativos, aprofundando o meu interesse pela criação de imagens sustentáveis e efémeras. A partir de uma cultura caseira de celulose bacteriana, que conta já com mais de uma centena de litros de Kombucha, foram surgindo interacções entre a celulose e a madeira que visaram desenvolver novas sinergias, criando condições para que outras vidas continuassem a crescer. Nesta instalação, a presença da celulose bacteriana ganha particular destaque com A Pele do Tronco, resultado do decalque da celulose sobre o tronco de um dos Cedrus atlantica.
A transformação de materiais está também presente no Gabinete de Curiosidades, obra que reúne uma vasta quantidade de elementos recolhidos no jardim, na sequência da tempestade, por toda a equipa de trabalhadores da Instituição, em especial a sua Directora Artística, Ana David Mendes, a quem muito agradeço o gesto, a atenção e o entusiasmo. Abrigados em caixas feitas com papel reciclado e plantas, este foi talvez o processo que mais acompanhou a residência, com as caixas a serem feitas à medida que novos elementos iam sendo encontrados no meio dos destroços.
O advento da Primavera marcou outro momento de viragem. Para além da chegada de uma nova árvore ao jardim da Villa Portela, simbolicamente plantada no dia 21 de Março, o solo foi-se enchendo de texturas e cor. Para celebrar essa renovação, foram colhidas plantas que, depois de prensadas, deram origem a um outro núcleo, composto por Antotipias feitas a partir de clorofila extraída de urtigas, uma Cianotipia com viragem de louro colhido no jardim, entre outros elementos. Neste núcleo é bem presente a fragilidade das saquetas de chá, excedentes da minha cultura de Kombucha, que pretende acentuar a efemeridade do processo e das temáticas em questão.
Desse processo de catarse, purificação e regenerescência, que foi sendo acompanhado por uma investigação com referências mais e menos óbvias, surgiu a vontade de homenagear uma das personagens mais famosas da obra de David Lynch: a Log Lady. Na série Twin Peaks, essa figura, viúva de um lenhador, carrega consigo um tronco com dons de profecia. Utilizando a casca de ramos caídos da Melaleuca quinquenenervia do jardim da Villa Portela, nasceu um objecto. Para ajudar a dar vida a essa personagem, convidei o artista Alexandre de Magalhães, que colabora nesta exposição com uma instalação de duas fotografias de grande-formato.
A logística de encenação necessária para criar esse momento foi também um ritual, do qual resultou o carvão com o qual foi feito pigmento para mapear o tronco dos Cedros-do-Atlas. Para essa obra foram impressos três anéis com pigmento de carvão sobre papel de arroz. De seguida foi feita uma exposição em Cianotipia, utilizando os ramos do Cedro, e uma viragem com folhas de Louro colhidas no jardim.
A natureza liberta-nos da supremacia da visão, se a escutarmos, mas apreender o espírito das árvores e a sua consciência social, implica também reconhecer que o Todo está para além da soma das partes e daquilo que os nossos sentidos são capazes de sintetizar. A fotografia, bem como uma grande fatia do mapa contemporâneo das artes visuais, escolhe dar primazia à visão. Talvez essa seja a sua primeira falência. i.e., a de criar dependência de uma metodologia de significação que, à partida, exclui tudo o que antecede a linguagem. É também por isso que a instalação se conclui com um Oráculo, que pretende celebrar outra dimensão do subterrâneo, do indizível e do invisível, subtilmente homenageando figuras reais e mitológicas com dons de profecia.
O compromisso com práticas fotográficas sustentáveis implica não só uma consciencialização do papel que desempenhamos nos ciclos de produção, mas sobretudo uma reflexão sobre aquela que tem sido a herança colonialista da fotografia, bem patente na violência implicada na obtenção das matérias-primas de eleição da fotografia, nomeadamente a prata e a gelatina animal. Procurar conhecer a origem daquilo que consumimos é um processo de aprendizagem que nos torna mais eco-conscientes. No entanto, praticar uma fotografia sustentável só é verdadeiramente possível se optarmos por nos conectar com a natureza, fazendo por compreender as suas dinâmicas.
A observação do fenómeno da câmara obscura, num primeiro momento, e o desenvolvimento de processos fotográficos permanentes, nas primeiras décadas do século XIX, estão intrinsecamente relacionados com uma ideia de fotografia lenta, i.e., uma fotografia que remete, indubitavelmente, para o invisível e para a efemeridade, e cuja vitalidade depende de um diálogo inquieto entre as etapas de observação, experimentação e produção (não necessariamente por esta ordem). Hoje, na intersecção das várias disciplinas dedicadas à investigação artística no campo da fotografia lenta e sustentável, a efemeridade reaparece como temática incontornável e como gesto de resistência ao imediatismo da tecnologia e das vidas industrializadas.
Sei como esta exposição começa, mas não sei como acabará. Dada a quantidade de matéria e imagens vivas e efémeras presentes, espera-se que daqui a três meses o próprio processo de transformação consiga desvelar a potência daquilo que a catástrofe parece ter levado.
.
Sofia Silva, Maio de 2026
.
.
.
António Bracons, Aspetos da exposição, 20.06.2026
.
.
.
A exposição “A Fala do Tronco”, de Sofia Silva com a colaboração do artista convidado Alexandre de Magalhães e co-curadoria de Ana David Mendes, pode ser vista nos Laboratórios Criativos do Centro de Artes Villa Portela, Largo da República, em Leiria, de 30 de maio a 30 de agosto de 2026.
.

.

Folha de sala (detalhe)
.
.
.

























