TERESA RIBEIRO, QUEM TEM DIREITO A OLHAR O RIO

Exposição no Solar dos Zagallos, em Sobreda, Almada, de 1 de agosto a 12 de setembro de 2026.

.

.

.

Susana Paiva, apoia a curadoria da exposição, escreve:

.

OLHAR O RIO

.

Há lugares que desaparecem lentamente sem que nos apercebamos. Não porque deixem de existir, mas porque deixam de ser vistos.

O Cais de Palença é um desses lugares. Situado na margem sul do Tejo, entre ruínas industriais, vestígios de antigas actividades piscatórias e caminhos que parecem interrompidos pelo tempo, este território permanece suspenso entre memória e esquecimento. O rio continua ali, a mesma linha de água que durante gerações sustentou trabalho, encontros, deslocações e formas de vida. Mas aquilo que foi um espaço habitado e partilhado tornou-se, progressivamente, invisível. Este projecto nasce do desejo de olhar para essa invisibilidade.

Percorrer Palença é atravessar uma paisagem feita de camadas. Nas chaminés abandonadas, nos restos de cerâmica espalhados pelo areal, nas pequenas casas de pescadores, nas hortas improvisadas nas encostas ou nas estruturas de pedra do antigo cais, permanecem inscritas histórias de trabalho, resistência e pertença. São vestígios que testemunham a forma como diferentes comunidades habitaram este lugar e construíram uma relação íntima com o rio. Mas esta obra não se limita a convocar o passado. Interroga também o presente.

Quem tem hoje direito a olhar o rio? Quem pode aceder às margens, percorrer os seus caminhos e reconhecer-se na paisagem? À medida que muitas frentes ribeirinhas se transformam em objectos de valorização económica e imobiliária, o acesso ao horizonte torna-se, cada vez mais, um privilégio. Aquilo que deveria constituir um bem comum corre o risco de se converter em mercadoria.

O trabalho apresentado propõe uma reflexão sobre essa transformação. Sobre aquilo que desaparece quando um território deixa de pertencer a todos. Sobre as memórias que se apagam quando a paisagem é reduzida à sua capacidade de gerar valor. E sobre a necessidade de imaginar outras formas de relação com os lugares que habitamos.

Entre a ruína e a possibilidade, entre o abandono e a expectativa, Palença surge aqui como metáfora de muitas outras margens. Um espaço onde se cruzam questões de memória, justiça territorial, ecologia e cidadania.

Porque a paisagem não é apenas aquilo que vemos, é também aquilo que herdamos, aquilo que partilhamos e aquilo que decidimos proteger.

Talvez olhar um lugar seja já uma forma de o defender.

.

.

.

Teresa Ribeiro, Quem tem direito a olhar o rio

.

.

.

Teresa Ribeiro escreve sobre o seu projeto:

.

CAIS DE PALENÇA

QUEM TEM DIREITO A OLHAR O RIO

.

O acesso à paisagem por parte das comunidades

Em Portugal, a partir de meados do século XX, muitas margens ribeirinhas, outrora industriais ou portuárias, com forte uso produtivo e comunitário (estaleiros, portos, cais, casas de pasto, espaços de sociabilidade popular) tornaram-se devolutas. A desindustrialização abriu vazios urbanos que os municípios passaram a encarar como oportunidades de valorização económica, promovendo sucessivas operações de requalificação e reconversão.

Estes processos são frequentemente apresentados como revitalização urbana, prometendo regeneração. Contudo, muitas vezes produzem exclusão. Desde os anos 1990/2000, intensificou-se a ideia de que os waterfronts “vendem” a cidade: a vista, a centralidade e o apelo turístico transformaram estas áreas em alvo de investimento privado.

A lógica dominante tem sido a valorização imobiliária: hotéis, condomínios, marinas, restaurantes de luxo, turismo. A proximidade da água e o horizonte convertem-se em capital, originando espaços de consumo dirigidos a poucos.

Como sintetiza Delgado (2018, pág. 17), “as frentes marítimas urbanas, sendo espaços de contacto entre a cidade e a água, detêm um elevado potencial paisagístico, cultural e económico, mas estão frequentemente sujeitas a pressões de mercado que condicionam o seu carácter público”.

Planos de pormenor, estudos estratégicos e concessões, moldam o desenho final das intervenções. Instrumentos públicos, ao invés de salvaguardar o bem comum, muitas vezes abrem caminho a parcerias público-privadas que transferem o usufruto da paisagem para projectos de alto valor económico. A paisagem, que deveria ser colectiva, converte-se em mercadoria.

Os antigos moradores e visitantes veem-se afastados ou limitados no acesso: praias cercadas, cais interditos, miradouros transformados em negócios exclusivos. A vista e a proximidade da água passam a ser bens de consumo, restringindo os usos comunitários. As razões são sobretudo económicas: os custos de reabilitação e de protecção ambiental levam autarquias e investidores a privilegiar projectos de elevado retorno. Assim, o valor de uso da paisagem é substituído pelo valor de troca.

O espaço deixa de ser vivido como encontro e memória, tornando-se espectáculo e distinção social. A valorização do edificado e da frente ribeirinha acaba frequentemente por se impor à preservação da memória colectiva e ao usufruto comunitário do espaço.

No entanto, a paisagem é sempre mais do que aquilo que o olhar alcança. É feita de camadas de tempo, de trabalho humano, de vínculos afectivos e de memórias sedimentadas no território. Cada margem de rio ou recorte de mar carrega não apenas uma dimensão estética, mas também uma dimensão política e ética.

No encalce do que Anne Cauquelin (2005) defende, a paisagem é uma maneira de compreender e organizar o mundo, porque cria um olhar verdadeiro sobre as propriedades da natureza e fixa os quadros da nossa percepção temporal e espacial.

A paisagem é bem comum: é memória colectiva, espaço de trabalho, lazer, rituais e afectos. Tal como Henri Lefebvre (1996) assinalava para a cidade, o direito à paisagem deve ser entendido como direito colectivo de usufruto e transformação. Mudar o espaço invoca também a possibilidade de nos transformarmos: negar o acesso livre à paisagem é negar às comunidades a possibilidade de se reinventarem em relação a ela.

Se a política urbana segue a lógica do mercado, cabe à cidadania e ao activismo afirmar a lógica do comum. Reivindicar a paisagem como bem colectivo não é nostalgia, mas resistência contra a transformação do espaço. A paisagem só é plena quando garante a todos a possibilidade de ver, viver e transformar o espaço partilhado.

A privatização da paisagem não apaga apenas o acesso físico, mas também o simbólico: o que não se vê deixa de existir para a maioria. Produz-se, assim, uma “gentrificação do olhar”, em que apenas alguns podem comprar o privilégio da vista.

Comunidades ribeirinhas, agrícolas, urbanas ou periféricas têm o mesmo direito de contemplar, usar e habitar o território sem exclusão. A paisagem não pertence a ninguém porque pertence a todos os que nela imprimem marcas, passos e vozes. Quando reapropriada, volta a ser lugar de encontro, memória e cuidado.

.

O direito à margem: porque devemos proteger o acesso comum à orla de Almada

O estuário do Tejo, a frente ribeirinha de Almada, é identificado no concelho como zona de paisagem privilegiada, com potencial turístico, paisagístico e estratégico, dada a proximidade a Lisboa. O Tejo, em particular, moldou não apenas a geografia, mas também a história social e económica da Margem Sul.

A faixa ribeirinha norte, com cerca de 10 km, voltada para Lisboa e ligada ao território por vales da arriba, é considerada crucial tanto do ponto de vista paisagístico quanto dos acessos urbanos.

Durante séculos, a frente ribeirinha de Almada foi motor económico e palco de intensa vida laboral e residencial. O Ginjal concentrou armazéns, cais de descarga e comércio ligado ao porto de Lisboa e era habitação de muitas famílias e pessoas que frequentavam o lugar. O Olho de Boi acolheu indústrias, mas também casas ligadas à vida operária, que se mantêm habitadas. A Quinta da Arealva foi inicialmente fortaleza marítima, depois quinta produtora de vinho, onde também viveram famílias que trabalhavam a terra e o comércio. Palença foi cais de embarque e desembarque de pescado e mercadorias, mas igualmente zona habitada por comunidades ribeirinhas.

Estes lugares eram mais do que áreas de produção: eram territórios de sociabilidade e de vida quotidiana, onde pescadores, operários, comerciantes e famílias habitavam e trabalhavam lado a lado. A proximidade com o Tejo moldava ritmos de vida, hábitos alimentares, tradições culturais e formas de habitar o território. A geografia do rio foi transformada por práticas humanas que, por sua vez, criaram identidades colectivas.

Hoje, estes locais enfrentam um dilema crucial: ou são revitalizados permanecendo espaços públicos de memória e fruição colectiva, ou cedem à lógica da privatização imobiliária, transformando-se em enclaves de acesso restrito.

A pertinência de proteger estes espaços, garantir o acesso comum e defendê-los como bens colectivos corresponde a uma urgência cultural, ecológica e social. A privatização em massa ameaça não só o usufruto da paisagem, mas também a continuidade de uma herança comum que pertence a Almada, ao Tejo e a todos os que habitam ou visitam a cidade.

O Estudo de Enquadramento Estratégico – Frente Ribeirinha do Concelho de  Almada (2015) já identificava pressões fortes de uso e ocupação: crescimento urbano desordenado, degradação de edifícios industriais e habitações, infraestruturas em ruína, acessos deficientes entre cidade e rio, barreiras físicas e topográficas.

Esse estudo enfatiza a paisagem, a identidade e a memória colectiva: as antigas actividades industriais e marítimas são parte da história urbana de Almada, devendo ser conservadas como valor público. Reconhece também a necessidade de um planeamento integrado, capaz de conciliar protecção ambiental, melhoria dos acessos (físicos e visuais) e usos que beneficiem as comunidades locais.

.

Razão da escolha do Cais de Palença para o projecto em causa

Ao mostrar a realidade do Cais de Palença pretende-se não apenas alertar para uma situação concreta, que merece a nossa atenção, mas também alavancar a discussão sobre o acesso público a zonas do nosso território actualmente ameaçadas e cobiçadas pelo sector privado.

O Cais de Palença, também conhecido como Cais das Colunas, designação justificada pela presença de estruturas em pedra que ainda resistem e evocam solidez e monumentalidade, remonta ao século XIX/início do século XX. Nessa época, a margem sul do Tejo era intensamente activa na pesca e no transporte fluvial. O cais funcionava como ponto de embarque e desembarque de pescado e mercadorias provenientes das duas fábricas instaladas na zona, mas também como ligação entre Almada e Lisboa, para o transporte de pessoas e bens.

Foi igualmente um espaço essencial às comunidades piscatórias de Almada, que dele dependiam para a sua subsistência. Servia de apoio às canoas tradicionais e a outros barcos de pesca, funcionando como ponto de encontro de homens do rio.

Nessa época existiam na área duas fábricas, uma de cerâmica e outra de sabão/óleos que empregavam cerca de uma centena de trabalhadores e dinamizavam o tecido económico da cidade, num quotidiano de vidas árduas. Após um incêndio e com a introdução de novas rotas viárias, ambas encerraram, iniciando-se então o declínio da zona.

Ao longo desta faixa ribeirinha subsistem modestas casas de pescadores que aqui se fixaram, outrora dedicados sobretudo a uma pesca de subsistência. Com o declínio da actividade piscatória, assiste-se agora à ocupação dos terrenos envolventes para fins de cultivo. Nas encostas, onde subsiste o acesso à água de poços, começaram a ser cultivadas novas culturas, introduzidas por comunidades afrodescendentes, como bananeiras e cana-de-açúcar.

O que resta hoje é um conjunto industrial abandonado, de que se destacam as chaminés. A regeneração espontânea da vegetação torna o edificado praticamente inacessível. Junto ao rio, permanecem pequenos percursos pavimentados e muretes forrados a lajes de cerâmica, um areal salpicado de restos de barro, sinais do abandono humano, silêncio e ruína.

O futuro do Cais de Palença apresenta-se ainda mais delicado: a ausência de projectos específicos, as ruínas sem manutenção e os acessos limitados transformam o lugar num território invisível. É precisamente neste vazio que o risco de privatização total se torna mais real. Sem planos públicos claros para a salvaguarda, a margem permanece vulnerável a ser entregue ao investimento privado, sem garantias de usufruto comum.

A questão impõe-se: é possível reinventar o Cais de Palença sem o apagar, integrando cultura, ecologia e comunidade?

.

.

Referências Bibliográficas:

Cauquelin, A. (2005). A invenção da paisagem. Lisboa: Almedina, Edições 70.

Delgado, M. (2018). Paisagem e exclusão urbana. Revista de Estudos Urbanos, 12(2), 45–67. A revitalização das frentes marítimas e fluviais: caso de estudo de um espaço ribeirinho em Almada. Dissertação de Mestrado, Instituto Superior de Agronomia, Universidade de Lisboa.

Lefebvre, H. (2008). O Direito à Cidade. S.Paulo; Centauro. https://monoskop.org/images/f/fc/Lefebvre_Henri_O_direito_a_cidade.pdf

Estudo de Enquadramento Estratégico – Frente Ribeirinha do Concelho de Almada [Documento técnico]. Almada: Câmara Municipal de Almada. Consultado em 26 Setembro 2025 em: https://www.cm-almada.pt/planeamento-urbanistico/estudos-estrategicos/estudo-estrategico-de-almadapoente-cidade-aberta

.

.

.

Teresa Ribeiro, Aspetos da exposição, 2026

.

.

.

A exposição de Teresa Ribeiro “Quem tem direito a olhar o rio”, com curadoria (apoio) de Susana Paiva, está patente no Solar dos Zagallos, Largo António Piano Júnior, na Sobreda, em Almada, de 1 de agosto a 12 de setembro de 2026 (terça-feira a sábado: 10H00 – 13H00 e 14H00 – 18H00).

.

.

.

Teresa Ribeiro (Lisboa)

Formação avançada em Fotografia no Instituto Português de Fotografia (1983–1984), no Ar.Co – Centro de Arte e Comunicação Visual (1994) e no curso de Retrato Avançado, orientado por Paulo Roberto (2002).

Destaca-se a instalação individual Abrigo para Sem-Abrigo (2010).

Participou em diversas exposições coletivas, entre as quais Espaços e Fronteiras (2017), Movimento em Defesa da Vida (2020), Narrativas do Intendente (2021) e a exposição dos finalistas da Masterclass Narrativa (2023).

Em 2020, autoeditou a publicação Oficinas do Intendente.

Finalista prémio CC11 de fotografia (2026).

.

.

.

Sobre a obra de Teresa Ribeiro no FF, aqui.

.

Cortesia: Teresa Ribeiro

.

.

.