ANTÓNIO HOMEM CARDOSO, 500 RETRATOS DA MINHA VIDA, 2021

Em véspera de Dia de Camões, de Portugal e das Comunidades Europeias.

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António Homem Cardoso

500 Retratos da Minha Vida

Fotografia: António Homem Cardoso / Texto: António Barreto, António Homem Cardoso

Lisboa: By the Book / Novembro . 2021

Português / 22,3 x 27,2 cm / 502 pp

Capa mole

ISBN:   9789895327706

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Nesta obra, António Homem Cardoso junta 500 pessoas que, na sua área de atividade e de ação, se destacaram. Que passam pela nossa vida. Que passaram pela sua objetiva. Da vida política, cultural, artística… Reis, presidentes, ministros, atores, artistas, poetas e escritores… As imagens que criou são, muitas vezes, a imagem, a memória que temos de cada um. O olhar, a expressão, a figura que reconhecemos. O retrato, a fotografia, tem essa particularidade.

Por outro lado, há rostos que reconhecemos como “jovens” – aqueles que, pela sua atividade, acompanhamos ao longo do tempo, nalguns casos muito depois do tempo da fotografia: pela televisão, pelos jornais e revistas, até presencialmente. A fotografia tem essa caraterística de congelar, conservar o momento. Estas fotografias estendem-se de 1980 a 2020. Guardam um tempo, mas o tempo continua a correr e a passar por cada um. E cada um não deixa de ser ele próprio.

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António Barreto escreve o ensaio:

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DE CARA A CARA

OS RETRATOS DE ANTÓNIO HOMEM CARDOSO

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“Fazer um retrato” foi, desde o início da fotografia. o grande desejo tanto dos fotógrafos como dos que pretendiam ser fotografados. O retrato serviria para muitos e variados fins. Era uma maneira de comunicar à distância, de guardar memórias, de conservar a imagem da pessoa amada e ausente, de lembrar quem desapareceu, de esperar que nos recordem, de prestar homenagem e até de convidar alguém a pensar em nós e a fazer reverência. Os finalistas de cursos universitários distribuíam os seus retratos dedicados aos colegas e amigos, como sinal de respeito, vaidade e apresentação. Os emigrantes enviavam, na correspondência com a família, retratos seus e pediam os dos parentes deixados para trás. Os viajantes e turistas de todos os tempos faziam retratos que fossem a prova de onde tinham passado e onde tinham estado. Os amantes exigiam retratos uns dos outros. Monarcas e presidentes descobriram na fotografia uma maneira de serem admirados pelos seus, como se dizia então, ou de estarem próximos dos cidadãos, como se dirá hoje. Sabe-se que a Rainha Vitória é uma das pessoas mais fotografadas na história: cortesãos, súbditos, fiéis e cidadãos todos tinham a sua imagem na parede de casa, em cima da mesa Camila, no álbum de família e de pessoas importantes ou simplesmente no bolso (com as famosas “cartes de visite”). Para já não falar das mil maneiras como as imagens de rosto podiam e podem ser reproduzidas em livro, espelho, quadro, gravura ou caneca. Ou notas de banco para os heróis e os chefes políticos ou pagelas para os santos e beatos. (…)

O retrato fotográfico sucedeu ao retrato pintado, desenhado, esculpido ou gravado. Foi o continuador democrático, mecânico, industrial, reprodutível e de massas. Até meados do século XIX, os meios técnicos e a capacidade aquisitiva limitavam a difusão da imagem e das fisionomias. A pintura e a gravura eram os meios mais acessíveis que permitiam os retratos. Mas, em ambos os casos, havia sempre a certeza de que um artista ou um técnico, alguém, tinha tido intervenção, tinha acrescentado ou retirado, embelezado ou apoucado. Sem falar nos custos: raros podiam mandar fazer os seus retratos a óleo ou parecido, poucos podiam oferecer a outros os seus próprios retratos, muito menos distribuí-los em quantidade. Com a gravura, o mercado alargou-se, mas mantinha-se exíguo. E raramente as gravuras eram difundidas em grandes quantidades. Com a fotografia, tudo mudou. Os que podiam mandar fazer passaram a ser numerosos. Os que queriam ter e receber retratos transformaram-se em multidões. Na verdade, quase toda a gente passou a poder fazer o seu retrato, divulgar ou distribuir a sua imagem, guardar e conservar os retratos dos seus ou dos que tal mereciam.

Mas também foi uma nova maneira de ver, olhar, ser visto e retratado. Na verdade, a fotografia não foi apenas um modo de fazer mais barato, em quantidades infinitas e acessível a toda a gente, o mesmo que se fazia por outros meios. O retrato fotográfico acrescentou qualquer coisa, do realismo à expressão, passando pela dimensão e pela utilização da luz, que as técnicas e as artes precedentes não conseguiam. Sobretudo. o retrato passou a ser a verdade. O que ali estava era o que era, sem intermediário. sem criatividade, sem transformação nem arranjo. Apesar de rapidamente se ter percebido que o estúdio e a câmara escura faziam prodígios e maravilhas, a verdade é que o mito da verdade fotográfica nunca morreu. A fotografia era a vida. A fotografia era o real. A fotografia não mente. A fotografia é a verdade. Sabemos que não é assim tão simples e que a fotografia pode ser o mais adequado modo de mostrar como “com a verdade me enganas”. Mas nada disso impediu que a verdade e o real ficassem para sempre ligados à fotografia, em detrimento de todos os outros meios, a começar pela palavra. E com a primeira sensação de verdade e de real, vem a certeza do retrato. Com o retrato, a fotografia nunca engana. Com a fotografia, o retrato atinge a verdade. Com o retrato, alcança-se a pureza da expressão. Com o retrato, chega-se à pessoa, ao âmago do humano, à verdade do ser.

Curiosamente, “fazer um retrato” é, em português, “tirar um retrato”. Há outras línguas em que tal é dito da mesma maneira, como em francês, por exemplo, fonte permanente de termos modernos portugueses no século XIX. Mas é uma especialidade. Muito interessante. Não se sabe a origem, mas há quem pense que a génese está num preconceito comum a vários povos: fazer o retrato de alguém implica tirar qualquer coisa, talvez a imagem, talvez mesmo mais. No Peru, há muitas décadas, fui agredido por um pequeno grupo de índios andinos porque, quando fazia algumas fotografias, lhes estava a “tirar a alma”, segundo me garantiram.

Verdade, verdade, é que quando se tira um retrato não se tira nada a ninguém. O melhor retrato é o que escolhe o que se quer de cada um, o que sublinha algo de especial, o que quer conferir a alguém um dote ou uma qualidade. Os melhores retratos não acrescentam, nem retiram. Vêem. Olham. Fixam. Reproduzem. Interpretam. António Homem Cardoso é um fotógrafo exímio, nada lhe é estranho. Tem uma rara capacidade de conhecer muito bem a técnica do ofício, sem nunca fazer dessa mesma técnica um fim ou um acrescento. A melhor técnica é a que não se vê, não se sente, não incomoda. António é isso mesmo: domina a técnica e a arte, nunca as exibe, nunca se deixa impressionar ou dominar. Tem-se a clara noção de que as únicas coisas que lhe interessam são as pessoas diante de si, as caras diante da sua, os olhos diante dos seus. O que lhe importa é o modo como dá aos outros o que vê, quem está na sua frente.

Não existe uma só tradição da arte do retrato. Mal começaram a actividade, mal tiveram acesso às primeiras máquinas, os fotógrafos pioneiros do século XIX logo tentaram o retrato. Todos os planos foram tentados, grande plano, plano americano, primeiro plano, plano médio ou curto, plano geral… Mesmo os fotógrafos especializados em paisagem, natureza, vida selvagem, reportagem, guerra ou “street photography”, querem sempre, uma ou várias vezes, fazer a experiência do retrato. É irresistível. Há quem diga que nada é mais expressivo do que um rosto humano. Nada é mais dramático, nada tem mais significado. É bem possível. António Homem Cardoso parece ter pensado isso. Ele, que fez tanta fotografia e que explorou todos os temas possíveis, inclinou-se para o retrato. Foi no retrato que ele fez uma vida, um nome e uma carreira. É um dos retratistas mais importantes e conhecidos do Portugal contemporâneo.

Olhando para estas fotografias que ele e a Joaninha seleccionaram e que representam dezenas de anos de retratos, longas caminhadas de andarilho, numerosas horas de estúdio e de câmara escura, vemos uma boa parte da história de Portugal, décadas de vida de nós todos. Os que aqui estão quase resumem um país, os seus dirigentes, os seus mais notáveis, os seus mais famosos. Olhando com atenção, vemos homens ou mulheres, ricos e pobres, novos e velhos, de esquerda ou de direita, gente do dinheiro e gente da arte, civis ou militares. E curioso ver como muitas destas pessoas notáveis aqui retratadas ficaram com o seu rosto marcado. Por outras palavras, é o retrato deles feito por Homem Cardoso que fica na nossa mente e na memória colectiva. Ao ver esta galeria, veremos, no nosso íntimo, como de certas pessoas diremos de imediato: “ele sempre foi assim!”. É este o talento do António.

O António pouco interfere, olha para o que é, fotografa o que está. Quando é encenador, mal se nota. Deixa as pessoas estar. Deixa-as ser. Procura o que elas são. Uma vez por outra, percebe-se a pose. Mas não se fica a saber se foi direcção dele ou escolha da pessoa. Estou convencido de que, em geral, foi orientação sua. Uma espécie de guia imperceptível, delicado, à procura, à espera… De modo justamente a dar a entender que foi o próprio que escolheu e não o encenador quem ditou. Não é obra fácil. Não é tarefa simples. Mas é quase uma quintessência do retratista. Orientar sem dirigir. Encenar sem forçar. Fazer crer ao retratado que é dele a pose, que é sua a realidade e que é espontânea a atitude. Há fotógrafos retratistas que, para o seu trabalho, se fazem acompanhar de verdadeiras equipas de trabalho, de assistentes e colaboradores, que, em conjunto, traçam cenários e criam cenas. Há retratos desses prodigiosos, mas nos quais se perde a inocência. O António pertence ao grupo dos artesãos, dos que observam sem forçar a vida nem a expressão.

Este livro é uma galeria. Literalmente. E uma verdadeira sala do capítulo, sem monges nem abades, mas com notáveis, presidentes e reis, políticos e empresários, artistas e escritores. São quarenta anos de história. Algumas centenas de pessoas que deixaram marcas ou memórias, que algo fizeram ou alguma coisa deram aos seus contemporâneos. Não estão aqui todos. Certamente. Faltam muitos. Seguramente. Estas listas nunca têm fim. Mas esta selecção mostra sobretudo que António Homem Cardoso esteve lá, esteve com eles, viu-os, não se esqueceu, quis guardar testemunho, quis manter a sua galeria. O que nos dá hoje, neste álbum encantador, é tanto a vida dele, como a nossa.

De uma coisa temos a certeza: foi uma vida longa e rica dedicada à fotografia. Começou nos anos 1960, ainda não tinha vinte anos. Teve uma actividade variada e recheada. Editou ou colaborou em dezenas de livros e álbuns, teve uma inesgotável produção. Sessenta anos depois, oferece-nos esta colecção. Continua, felizmente, a mostrar-nos o mundo e as pessoas. A olhar para nós. De cara a cara.

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António Homem Cardoso, 500 Retratos da Minha Vida, 2021

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António Bracons, António Homem Cardoso, Loures, Julho de 2022

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António Homem Cardoso

Nasce em São Pedro do Sul, a 11 de janeiro de 1945. Tira o Curso de Operador Foto-Ciner nos Serviços Cartográficos do Exército. Inicia a carreira de repórter fotográfico, com colaboração nos jornais diários e nas principais revistas portuguesas de informação. Fez várias reportagens em Africa e na Europa.

Inicia a sua carreira de fotógrafo profissional de publicidade, moda e editorial, montando o seu Estúdio no início dos anos 1970. Conhece o mestre Augusto Cabrita que influencia extraordinariamente a sua carreira e o convida para a realização em coautoria de diversos trabalhos. entre os quais o livro Cozinha Tradicional Portuguesa.

A partir de 1974, e até a atualidade participa como autor de retratos oficiais de muitas personalidades de diversas áreas: política, artes, ciências, entre outras. Em 1980 começa uma parceria com o arquiteto Hélder Carita, na defesa e mostra do património cultural português, com a publicação de diversos livros, entre os quais o Tratado da Grandeza dos Jardins em Portugal.

Realizou imagens que marcaram a discografia portuguesa, como Trovante. Madre deus, Rui Veloso, José Cid, Marco Paulo, Frei Hermano da Câmara. Em 1986, foi diretor das revistas Foto e Super Foto Prática e de diversas publicações de índole generalista. Escreveu textos de paixão sobre diversas personalidades com quem manteve relações excepcionais, como por exemplo Amália Rodrigues.

Responsável pelos melhores catálogos portugueses de Vinhos e Vidros: J. Portugal Ramos, Esporão, Malhadinha Nova, José Maria da Fonseca, Vista Alegre, Atlantis. Autor de coleçöes filatélicas sobre gastronomia e arquitetura tradicional portuguesa. Fotógrafo oficial da Casa Real Portuguesa.

Embaixador da Fujifilm Portugal.

Primeiro Diretor de Fotografia e Membro da SPA.

Presidente da AFIMPEP, vice-presidente da PIRAMIDE – Associação Internacional de Fotógrafos.

105 livros publicados.

Apoia diversas ações Humanitárias – Associação Abraço, Cadim-Síndrome de Down, Causa-Timor/Leste, Associação Sol, AMI, Associação portuguesa da Luta Contra a Sida, revista Cais, Associação Nariz Vermelho.

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Pode conhecer mais sobre António Homem Cardoso no FF, aqui.

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