O SILÊNCIO DA FOTOGRAFIA, ANTÓNIO BRACONS
Exposição “Sobre o Silêncio” no m|i|mo – Museu da Imagem em Movimento, em Leiria, de 20 de junho a 30 de agosto de 2026. E a 2.ª edição do livro.
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No próximo dia 20 de junho é apresentada a 2.ª edição do meu livro “Sobre o Silêncio”, reeditado por ocasião da exposição homónima que vai ter lugar no m|i|mo – Museu da Imagem em Movimento, de 20 de junho a 30 de agosto de 2026. A apresentação será feita pela fotógrafa Carla de Sousa.
O museu, que fica na Cerca do Castelo, em Leiria, cidade que me viu nascer, reabriu ao público no dia 6 de junho, depois de reparados os estragos causados pela tempestade Kristin, a 28 de janeiro.
O livro “Sobre o Silêncio” integra dois ensaios, trago hoje aqui “O Silêncio da Fotografia”.
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O SILÊNCIO DA FOTOGRAFIA
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Silêncio da fotografia. Uma das suas qualidades mais preciosas (…) Quaisquer que sejam os rumores ou a violência que a rodeiam, a fotografia restitui o objeto na imobilidade e em silêncio. Em plena confusão urbana, ela recria o equivalente do deserto, o isolamento total. A fotografia é o único modo de percorrer a cidade em silêncio, de atravessar o mundo em silêncio.
Jean Baudrillard[1]
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O fotógrafo é também uma pessoa de silêncio.
É o silêncio que o faz ver para além da mera imagem, que o faz procurar – e sobretudo, encontrar – o momento e o sentido da imagem. A fotografia. Pode-se falar ou conversar com quem se vai fotografar, mas o próprio ato de fotografar, em si, é, tantas vezes, um ato de silêncio. E o clic da câmara, um som mecânico, mas ‘natural’, não perturba. E por vezes a câmara é, também ela, silenciosa.
De facto, uma fotografia resulta de o fotógrafo estar na fotografia. O que é “importante é ter vontade de ver” (Paulo Nozolino[2]), e é com esta vontade que, “Onde quer que vamos, nós queremos encontrar o tema que carregamos dentro de nós mesmos” (Graciela Iturbe), embora a fotografia “tenha pouco que ver com o que se vê, tem tudo que ver com a forma como cada um vê” (Elliott Erwitt). (…)
É cada um, um todo que está no ato de fotografar.
O silêncio surge tantas vezes neste ato de fotografar: no enquadrar, quando o olhar se estende ao redor ou através do visor da câmara, concentrando-se naquilo que vai registar; no esperar pelo momento exato; no pressionar o obturador. Se é assim hoje, na fotografia digital, então na fotografia em daguerreótipo ou em chapa de vidro, no séc. XIX, ou ao longo do séc. XX, em filme de 35 mm ou em filme de médio ou grande formato, a câmara sobre o tripé e com um número limitado de imagens possível, aí o silêncio para a realização da fotografia é mais extenso, mais necessário, mais natural. Silêncio pessoal e interior, ainda que por breves instantes, como não havendo nada mais em redor, nada perturbando ou interferindo.
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Para além do fotografar, há o ato de revelar a fotografia.
Se este conceito é mais palpável na fotografia analógica, em que a película era revelada e a fotografia selecionada, impressa, revelada – trabalho feito em laboratório, tantas vezes pelo fotógrafo, tantas vezes em silêncio –, no digital este trabalho também é feito: é selecionada, é ‘revelada’ digitalmente, alterando-se luzes, tons, contrastes… – tantas vezes em silêncio, procurando escutar a luminosidade ‘correta’, a tonalidade ‘certa’, a imagem que quero.
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Por outro lado, há também o silêncio da imagem.
A fotografia, ao contrário do cinema ou da televisão, não produz qualquer rumor[3]. Uma fotografia é uma folha de papel, é uma imagem num ecrã. E tanto a folha de papel como o ecrã são mudos, silenciosos. A folha de papel pode ainda ter um som próprio, no pegar, no agitar, no pousar. Ao roçar outra folha ou objeto. Mas é um som do silêncio, próprio, que não perturba.
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“Não posso dizer o que faz uma fotografia”, refere Harry Callahan, “Não posso dizer. É misterioso.” É este mistério, este silêncio, que faz – ou é – a fotografia. Deixa a sua visibilidade ao silêncio de quem a vê, de quem a observa: “Há sempre pelo menos duas pessoas em cada fotografia: o fotógrafo e o espectador”, regista Ansel Adams.
É também, cada um, um todo que está no ato de ver a fotografia.
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Há silêncio quando se vê uma fotografia.
Olhamos imagens atrás de imagens. Quando caminhamos na rua, quando estamos na internet, quando folheamos um livro…
O ato de ver. Entre tantas imagens que nos passam pelos olhos, não nos apercebemos da maior parte, mas umas, poucas, tocam-nos: por alguma razão, ficam na memória, no coração. São essas imagens que nos dizem algo, que nos prendem, suscitam algum sentimento.[4]
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Há um silêncio que se gera quando vemos algumas imagens, algumas fotografias (e pinturas, desenhos, esculturas). Um silêncio interior que se abre para ver aquela imagem, para escutar a imagem.
“atentei, de chofre nas fotos (…). E que se fez silêncio em meu redor, isso recordo bem. Silêncio longo, espesso. Silêncio religioso, de devoto, diante das imagens (…) que desfilavam sob o meu olhar.”[5]
E, tantas vezes, o silêncio fica depois de ver uma imagem.
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[1] Jean Baudrillard, Patafisica e arte del vedere, Firenze/Milano, Giunti, 2006; citado em Gigliola Foschi, Le fotografie del silenzio, Sesto San Giovanni, Milano, Mimesis Edizione, 2015, p. 9.
[2] António Bracons, “Vontade (cit), Paulo Nozolino”, on-line: https://fasciniodafotografia .wordpress.com/2016/02/01/vontade-cit-paulo-nozolino/ . Todas as citações são retiradas do blog https://fasciniodafotografia.wordpress.com/.
[3] Jean Baudrillard, citado em Foschi, Gigliola (2015), op. cit, p. 10 e seg.
[4] Roland Barthes define o studium e o punctum, para explicar porque algumas fotografias o tocam. O studium “não significa, pelo menos imediatamente, o «estudo», mas a aplicação a uma coisa, o gosto por alguém, uma espécie de investimento geral, empolgado, evidentemente, mas sem acuidade particular.” Já o punctum “é também picada, pequeno orifício, pequena mancha, pequeno corte – e também lance de dados”, o “punctum de uma fotografia é esse acaso que nela me fere (mas também me mortifica, me apunhala).” Ora, o studium e o punctum são diferentes para cada um: dependem da sua história, dos seus interesses, mesmo até das suas emoções naquele momento: do mesmo modo que um fotógrafo num determinado espaço e num determinado momento vê uma fotografia e não a vê noutro momento nesse mesmo espaço. Ver: A câmara clara, Lisboa, Edições 70, 1981, p. 37-47. (…)
[5] António Filipe Pimentel, “O dom”, em prefácio ao livro de Jorge Bacelar, Ruralidades. Ruralities, Vila Nova de Famalicão: Centro Atlântico, 2019.
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António Bracons, da série “Sobre o Silêncio”
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“Sobre o Silêncio”, de António Bracons, vai estar em exposição no m|i|mo – Museu da Imagem em Movimento, no Largo de S. Pedro, na Cerca do Castelo, em Leiria, de 20 de junho a 30 de agosto de 2026, todos os dias, das 9:30 às 17:30.
O livro será apresentado pela fotógrafa Carla de Sousa, dia 20 de junho, às 16:00, no âmbito da inauguração da exposição.
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António Bracons, Sobre o Silêncio. 2026 (capa)
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A 2.ª edição do livro “Sobre o Silêncio”, de António Bracons, edição do autor, volume que integra fotografia e ensaios, tem as dimensões de 15,9 x 23,0 cm, é composto por 84 págs, míolo em papel Munken White 150 gr/m2 1.8 e capa em Conqueror Wove Oyster 280 gr/m2.
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Se está interessado em adquirir, contacte o autor, aqui (separador “Contactos” do FF).
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Pode ver sobre o livro “Sobre o Silêncio”, 1.ª edição (2020), no FF, aqui. Sobre a 2.ª edição, em breve.
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