ANTÓNIO ALVES MARTINS, MONTE ABRAÃO, FRAGMENTOS DOS CADERNOS DE DUARTE BELO, 2021
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António Alves Martins, Duarte Belo
Monte Abraão, Fragmentos dos Cadernos de Duarte Belo
Fotografia: Duarte Belo / Texto: António Alves Martins / Concepção, desenho de página e produção: António Alves Martins / Poema: Ruy Belo
Coimbra: Artes Breves edições / Setembro . 2021
Artes Breves edições, n.º 3
Português / / 64págs.
Capa mole, Swissbinding / Integra uma folha (4 págs.), com o texto “Os lugares da pedra que espera dar flor” / 150 ex. + 10 ex. extra-série, todos numerados e assinados
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FUI MORAR para aquela cidade de grandes avenidas sombrias e árvores rumorosas mal pressenti que se aproximava a velhice a velhice do mundo e do meu corpo. Definitivamente seria abolida toda uma idade de aves e árvores. Eu há tanto que fora que jamais houvesse sido um sincero sonâmbulo do sol sob o sempre seguro cerimonial dos sempre certos céus. Pudesse alguém morrer mais do que morrer pensava então eu desconhecendo quanto com palavras um poeta pode.
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Ruy Belo, «Canto Vesperal» (fragmento). In: Monte Abraão, Fragmentos dos Cadernos de Duarte Belo.
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Monte Abraão, Fragmentos dos Cadernos de Duarte Belo, o terceiro título do selo artes breves edições, inclui uma selecção de fotografias dos Cadernos de Duarte Belo, intercaladas com palavras do poema «Canto Vesperal», de Ruy Belo.
É acompanhado por uma folha, 4 páginas, que faz parte do livro, na qual António Alves Martins fala sobre o projeto e cujo título cita Raul Brandão:
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OS LUGARES DA PEDRA QUE ESPERA DAR FLOR
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VISITEI MONTE ABRAÃO (O LUGAR) apenas uma vez, nocturna, levado pela participação no velório de um amigo. Se a memória não me falha — e a minha memória é muito dançarina —, estávamos nos inícios da década de 1990.
Conheci Duarte Belo, por mero acaso, aquando de uma visita que fez às Edições Cotovia, em Lisboa, também no início da década de 1990. Passaram cerca de trinta anos até que nos voltássemos a encontrar, em Santa Comba Dão, para que pudesse apreciar uma prova completa do livro que agora se publica. Entre estas datas, e além dos e-mails trocados durante a preparação do projecto, apenas por uma vez trocámos algumas palavras numa sessão zoom de 25 de janeiro, no âmbito da edição de 2021 da Escola Informal de Fotografia (coordenada pela fotógrafa Susana Paiva) e para a qual Duarte Belo tinha sido convidado. Foi esta sessão, junto com o que é referido abaixo, que me levou a revisitar os arquivos digitais do autor e a dar mais atenção a uns cadernos que não esquecera: os Cadernos de Monte Abraão (datados entre 1990 e 1993).
Por razões que não vêm ao caso, a continuação do projecto editorial em 2020 com o livro Na Cidade Exposta: Coimbra e continuado em 2021 com a publicação de um outro livro — Suspensão, Ecos de Silêncio na Cidade Exposta —, ambos com fotografias da minha autoria, começava a exigir abertura, isto é, tornava-se urgente pensar as publicações previstas (num total de sete) a partir da obra de outros fotógrafos. Não demorou a que Monte Abraão deixasse de ser uma mera referência geográfica, topográfica e digital para começar a ser a ideia de uma série de imagens em forma de livro. Sabia, também, da existência de um conjunto de poemas de Ruy Belo cujo título — Monte Abraão — criava uma ligação quase umbilical à ideia de um livro inserido num projecto editorial que pretende dar primazia à relação dinâmica — visceral — entre a imagem fotográfica e a tipografia das imagens que habitam as palavras escritas.
Mas então, qual o sentido de publicar, em 2021, um livro que apresenta uma pequena selecção de fotografias alheias de um lugar da Grande Lisboa que praticamente nada me diz, ainda para mais tratando-se de imagens a preto-e-branco com uma matriz que as remete para tempos muito antigos, arcaicos, quase míticos?
Penso poder responder com alguma certeza agora, no momento em que toco a primeira prova do livro, impressa no papel e no formato finais: por um lado, a vontade de dar continuidade à experiência venturosa que constitui o tempo da edição (da arquitectura) de um livro, desta vez a partir de um arquivo — de uma matéria — que não nos pertence mas que, misteriosamente, nos desafia sem piedade; por outro, a memória cruzada que fui recuperando dos tempos vividos para lá dos limites da cidade de Lisboa, numa urbanização com uma tipologia de prédios muito próxima dade Monte Abraão, situada na freguesia da Brandoa, concelho da Amadora, entre os anos de 1986 e 1998: a vida suspensa nos limiares da cidade.
Contudo, mais que a revisitação das minhas memórias de uma certa periferia, mais que o registo documental de um lugar enquanto território específico, o que o trabalho de edição deste livro oferece é a possibilidade de experimentar o lugar que as fotografias de Duarte Belo mostram (dos inícios de 1990) segundo as linhas de um olhar que traça um movimento essencial — entre exterior e interior (a casa como mundo interior, onde os prédios são estantes e os livros casas), o dia e a noite, a luz e o negro — numa paisagem habitada, sempre, por um imenso silêncio vibrante de tudo. Este lugar que agora se vê — na sequência intercalada com as palavras do poema — é um lugar-imagem em liberdade, cuja força advém da natureza mágica presente, também, nas narrativas trágicas nascidas da potência criadora do mito. Monte Abraão? Quem sabe!…
Talvez possamos intuir estes espaços — os das periferias das cidades — como os lugares da «pedra que espera dar flor»; aqueles lugares que, embora marcados pela voragem alucinada dos tempos modernos, continuam a guardar, nas suas entranhas, vestígios dessa memória-matéria intemporal que os constitui. A essa matéria plástica e dramática pertencem (pertencemos), e a ela sempre regressam, mesmo como novas ruínas, sempre em pedra, esperando.
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Antonio Alves Martins, Monte Abraão, 2021
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António Alves Martins (Lisboa, 1959)
Foi professor de filosofia no ensino secundário público. Editou e publicou livros de alguns poetas: Gil de Carvalho, Alberto Pimenta, Jorge de Sousa Braga, António Ramos Rosa, Jorge Fazenda Lourenço, Constantin Cavafy, Philip Larkin [Centelha/Fora do Texto (Coimbra) e Kairos (Lisboa)] — e ainda Em silêncio, fotografias e texto de Ana Márquez [amedições (Lisboa)]. Colaborou com Edições Cotovia (Lisboa), coordenou a edição de catálogos de exposições em Lisboa, Madrid e Frankfurt.
Edita e revê textos que lhe confiam.
Tem uma colectânea de crónicas urbanas — Cidades Materiais – publicada pela Deriva Editores (Porto, 2016). No campo da fotografia (impressa), realizou a exposição «Na Cidade Exposta: Coimbra» (Liquidâmbar, Coimbra, 2019).
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Duarte Belo (Lisboa, 1968). Licenciado em Arquitectura (1991). Paralelamente à actividade inicial em Arquitectura, desenvolve projectos em Fotografia. Expõe individualmente desde 1989, tendo já participado em numerosas exposições individuais. Está representado em diversas colecções públicas e privadas, em Portugal e no estrangeiro. Já desenvolveu a actividade de docência e participa regularmente em seminários, congressos e mesas redondas.
Da obra publicada poderíamos destacar Orlando Ribeiro — Seguido de uma viagem breve à Serra da Estrela (1999); Ruy Belo — Coisas de Silêncio (2000); O Vento Sobre a Terra — apontamentos de viagens (2002); À Superfície do Tempo — Viagem à Amazónia (2002); Território em Espera (2005); Geografia do Caos (2005); Terras Templárias de Idanha (2006); Olívia e Joaquim – Doces de Santa Clara em Vila do Conde (2007); Fogo Frio – O Vulcão dos Capelinhos (2008); Comboios de Livros (2009); Desenha, produz e fotografa as ilustrações do conto O Príncipe-Urso Doce de Laranja (2009); Cidade do Mais Antigo Nome (2010).
De uma obra documental extensa, centrada no levantamento fotográfico da paisagem e das formas de ocupação do território, são de destacar as obras Portugal — O Sabor da Terra (1997) e Portugal Património (2007-2008).
Este trabalho sobre Portugal deu origem a um arquivo fotográfico pessoal de mais de novecentas mil fotografias.
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Sobre António Alves Martins, no FF, aqui e o seu blogue Artes Breves Edições, aqui.
Sobre Duarte Belo, no FF, aqui e o seu site, aqui.
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