ALBANO DA SILVA PEREIRA, NETSUKE
Exposição no Pavilhão Branco, no jardim do Palácio Pimenta, ao Campo Grande, de 24 de janeiro a 31 de março de 2024.
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Esta é a exposição de uma vida. São muitos afetos.
Albano da Silva Pereira
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Albano da Silva Pereira, da série Netsuke
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Um netsuke é uma escultura em miniatura, originária do Japão, do século XVII. Inicialmente, era um fixador tipo botão, esculpido, preso aos fios de uma caixa inr, servia para a fixar à peça de roupa usada; mais tarde netsuke desenvolveu-se como objetos artesanais ornamentados.
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Sara Antónia Matos, diretora das Galerias Municipais / EGEAC e curadora da exposição, escreve na folha de sala:
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A exposição NETSUKE conjuga e cruza a obra em suporte fotográfico e cinematográfico de Albano Silva Pereira, com a sua colecção de objetos e talismãs provenientes da cultura japonesa.
Como em períodos anteriores do seu percurso, a produção desta exposição decorre das viagens deste artista, neste caso ao Japão, ao longo das últimas duas décadas, permitindo ter um olhar muito singular sobre alguns rituais desta cultura milenar e misteriosa, fazendo uma alusão às referências principais do cinema japonês, da escrita e do ukiyo-e (estampa ou xilogravura japonesa).
A exposição e os diversos trabalhos nela expostos – imagens e objectos – convidam a uma experiência distendida no tempo, sempre contida, mas apelando aos sentidos de modo fulgurante.
Longe de se ousar discutir aqui uma língua tão complexa como a japonesa, fazer uma pequena nota sobre um dos seus termos ou partículas torna-se útil para compreender o carácter paradoxal da exposição. Embora revestida de múltiplas nuances, na linguagem nipónica a partícula Wa (que compõe inúmeras palavras) alude à essência japonesa e a uma ideia de harmonia ou equilíbrio nela contida. Porém, dependendo da construção da frase, envolve também a existência de uma contradição ou duplicidade. Traços largos, significa que a harmonia decorre de um equilíbrio ténue, jogado no fio da catana, entre a beleza e a fealdade, o erotismo e o obsceno, a luz e a sombra, o cheio e o vazio, o transparente e o opaco. Pode ainda referir-se a contrastes e, nesse aspecto, não há como não referir o contraste patente na sociedade japonesa, num enlaçamento incomum do mundo arcaico com o desenvolvimento tecnológico.
É neste aspecto do paradoxo que gostaria de me deter para abordar a complexidade do olhar do artista e da contemplação dos objectos presentes nesta exposição: caixas, taças de cerâmica, amuletos, panos, papéis inscritos de caracteres, gravuras, netsukes, etc.
O netsuke adquire neste conjunto de objectos uma relevância particular. Ele é uma pequena cavilha entalhada ou esculpida, criada no Japão no século XVII, para prender pequenas bolsas aos quimonos, que tradicionalmente não tinham qualquer bolso. Embora as mangas do quimono pudessem ser usadas para guardar pequenos itens, os homens ou samurais que usavam o quimono precisavam de recipientes para guardar pertences pessoais, como cachimbos, tabaco, dinheiro e selos, que eram pendurados por cordas, adornadas com contas, nas faixas das vestes. Qualquer que fosse o formato do recipiente, o fecho que prendia o cordão ao topo da faixa era um objecto entalhado em forma de botão chamado netsuke. O netsuke evoluiu ao longo do tempo, deixando de ser estritamente utilitário para se tornar um objecto artístico sofisticado e um talismã em si mesmo. Ora, nesta colecção e nesta exposição há mais que um netsuke, podendo dizer-se que este objecto condensa o cerne do projecto. Simbolicamente, ele guarda o segredo – e o destino – de uma civilização de guerreiros, samurais, altamente avançada, disciplinada e amante da precisão, mas que paradoxalmente se revestia de objectos da sorte e talismãs de protecção.
Este contraste entre a elementaridade dos objectos e a sua sofisticação estética, por vezes cenográfica, percorre toda a colecção. As imagens e os objectos são frágeis, mas relevam de uma resistência milenar. São belos e feios em simultâneo, reduzidos à sua singeleza extrema parecendo não suportar qualquer elemento suplementar. Aparentando estar nus, antes se revestem pela patine do tempo, tornam-se opacos à luz cortante, deixando, porém, ver-se na penumbra, devagar e através das sombras.
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A construção da exposição baseia-se em dois eixos, que se cruzam entre si: o coleccionador e o artista. Do primeiro resulta uma colecção de objectos, raros e preciosos, oriundos da cultura japonesa, e que Albano Silva Pereira junta há largos anos. Do segundo provém um conjunto de imagens em fotografia e filme que decorrem das viagens do autor ao Japão e do seu envolvimento efectivo com a realidade. É de lembrar que nas suas idas ao Japão ficou algumas noites hospedado no famoso hotel Imperial, em Tokyo, onde se cruzou com «samurais e gueixas», hotel que dá nome à série de fotografias que integram a exposição (Imperial Hotel, Tokyo, 2005-2023).
Às referências artísticas e culturais já se irá. Antes disso, e para compreender a construção e montagem da exposição propriamente dita, é preciso dizer que Albano Silva Pereira, enquanto coleccionador, mas também enquanto artista, tem a parede do atelier de André Breton (The Wall\Le Mur de L´Atelier, 1926-1966) e a sua estrutura cumulativa como imagem de referência. Composto por estelas, móveis, esculturas africanas, amuletos, desenhos e outros itens de geografias diversas, Albano Silva Pereira refere-se a esta composição de Breton como «altar».
É, pois, a imagem desse altar, de estrutura cumulativa e ramificada, que fornece a Albano Silva Pereira um modelo de disposição para as imagens, para os objectos e talismãs na exposição NETSUKE. Estes são sub-agrupados por secções, nas paredes e em vitrines ou móveis, deixando ver-se mais ou menos explicitamente, dizendo respeito a rituais como o chá ou o sexo, por exemplo, formando composições constelares que agregam um atlas de referências cruzadas para o autor.
Mas o protótipo de Breton não é exercitado apenas no display da exposição. Ele tornou-se um molde conceptual, ou seja, um modelo de pensamento que o autor aplica também na realização de determinadas fotografias que apresenta na exposição. Não podendo incorporar nela todos os itens da sua vasta colecção, o artista encenou ambientes para alguns dos objectos que posteriormente fotografou. Nesse caso, optou o artista por não expor os objectos em si mas antes a sua representação, de trazer à presença não a sua singeleza física mas o seu espectro. Trata-se de verter o olhar, não sobre o objecto concreto, mas de o dar a ver sobre a luz velada e encenada do seu estúdio e da sua lente fotográfica.
A relação entre luz e sombra, ou a revelação na sombra, abordou Junichiro Tanizaki na sua obra magistral Elogio da Sombra, uma referência literária para Albano Siva Pereira, cuja preocupação primeira passou por criar um ambiente contido na exposição.
Esta contenção marca todo o projecto, não sendo exagerado dizer que perpassa também toda a obra deste artista. Isso é visível nas imagens fotográficas, reflexos que o artista considera que fazem parte do seu atlas afectivo, das paisagens que o fascinaram, sejam elas uma taça imperial de saquê (prata do séc. XIX), uma taça com intervenção kintsugi para chá (séc. VII) ou as imagens das ruas de Tóquio, Kyoto ou Hiroshima.
Estas imagens de cidades japonesas onde o artista esteve e vagueou, paisagens urbanas sem ou com pessoas – onde por vezes houve a devolução de um olhar –, revelam a sua capacidade de penetração, respeitosa, próxima e distanciada, dos lugares, das ruelas, das esquinas, de vidas e culturas outras, por breves instantes desveladas à luz da lente para no instante seguinte se voltarem a encobrir.
Este binómio revelação-encobrimento, que constitui naturalmente o motor do erotismo, pode ser melhor compreendido através da figura da porta, trazida por George Bataille, em L´expérience intérieure e em O Erotismo. Aí, o autor refere-se ao desejo deixando entender que «o erótico não está na porta aberta», mas na «fenda» que separa a porta aberta da fechada. Deste modo, reforça a ideia de que o espaço erótico corresponde a uma antevisão, mais do que a uma possibilidade de visão. A porta, enquanto dispositivo do abrir e do fechar, enquanto limiar para passar além e, simultaneamente, para travar a passagem, assume assim uma carga ambivalente inerente à própria modalidade do visível. Ela é, de facto, a figura da abertura, mas da abertura e do acesso condicionados.
Se aqui se impunha uma longa discussão sobre a relação entre o desejo e a posse, entre o erótico e o obsceno, envolvida na captação de imagens em geral, talvez se possa resumir que à lente do artista o toque se dá sem devassa, sem invasão.
O conjunto das imagens revela um equilíbrio paradoxal, entre a sedução e o temor, o jogo do dar a ver e do ocultar, de resto devedor de um olhar fascinado pelo cinema japonês, com mestres incontornáveis como Mizoguchi, Ozu, Kurosawa, Oshima e que o artista também homenageia no filme apresentado. Embora o suporte desta obra não seja em película, para este artista continua a ser mais correcto falar de filme em vez de vídeo, dado que o seu know-how vem da prática cinematográfica – não esqueçamos que foi assistente de Manoel de Oliveira. Feito este parêntesis, voltemos ao filme. A cena distendida no tempo, para ser observada em plena reserva, no silêncio e na escuridão, alude à cena do barco de Os Amantes Crucificados de Mizoguchi, que é também uma tentativa de suicídio, de honra, decorrente de uma traição e culmina numa declaração de amor.
Albano Silva Pereira refere-se a este seu filme como uma homenagem ao cinema japonês. Eu julgo que toda a exposição constitui um hino, ou talvez uma rendição ao «império dos sentidos», à fatalidade de se ser tocado pela beleza, pelo erotismo, e se saber o quão efémeros, magnéticos e enigmáticos são.
Neste sentido, ousaria dizer que a exposição trata da ética do olhar. Esta passa, necessariamente, pelo tempo fecundo da observação. Nessa condição, abre-se espaço como se a imagem tivesse espessura ou profundidade para além da sua fina superfície.
Como tenho referido noutras ocasiões, a representação bidimensional não é apenas a materialização de uma visão numa superfície plana. Pelo contrário, ela arrasta consigo uma parte de trás, um corpo e um passado nele inscrito, que se abrem e trazem à superfície a espessura de que são feitos. Significa que a representação artística é portadora de vivências, desejos e sintomas, nas suas formas mais arrebatadoras do prazer e do sofrer.
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A exposição encerra, ou começa, com um auto-retrato do artista, na mesma sala em que apresenta a sua mota, de marca japonesa, na qual sofreu um acidente que quase lhe tirou a vida e sobretudo a capacidade de visão. O acidente ocorreu durante o período de pandemia, já o artista estava a produzir a exposição. As ruas e autoestradas do país estavam desertas, mas era preciso ao artista rasgar o vento, sentir a adrenalina nas veias e a luz rasante a entrar pela viseira do capacete.
As fotografias que compõem esse auto-retrato, de rosto desfigurado, a que o artista deu o título Still Alive, foram tiradas no hospital onde permaneceu longos dias. Na mesma sala da exposição, está também um bonsai, frágil, pequeno, que leva já centenas de anos de vida.
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Já depois da montagem totalmente concluída, Rui Chafes, que tem uma longa amizade com Albano Silva Pereira, pediu-me conivência para inserir pequenas esculturas suas nas vitrines das salas superiores, dissimulando-as entre os objectos japoneses, cumprindo desta forma o desejo do seu amigo de ter na exposição estas esculturas de mão.
Toda esta «acção secreta» se desenrolou sem o conhecimento do artista.
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António Bracons, Aspetos da exposição, 2024
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A exposição “Netsuke”, de Albano da Silva Pereira, curadoria de Sara Antónia Matos, encontra-se no Pavilhão Branco, no Jardim do Palácio Pimenta, ao Campo Grande, de 24 de janeiro a 31 de março de 2024, terça-feira a domingo, das 10h-13h e 14h-18h.
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Dia 26.03.2024, pelas 17:00, tem lugar uma conversa com Albano Silva Pereira, Anabela Mota Ribeiro e Sara Antónia Matos.
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Albano da Silva Pereira nasceu em 1950, em Tondela.
É diretor do Centro de Artes Visuais de Coimbra. Começou o seu percurso no cinema, chegando a ser assistente de Manoel de Oliveira. Hoje, algumas das suas obras fotográficas fazem parte da Coleção de Fotografia Contemporânea do NOVO BANCO e de Museum of Fine Arts Houston (MFAH), entre outras.
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Pode descarregar a folha de sala aqui.
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