JORGE LIMA ALVES E JOSÉ VIEIRA MENDES, I LOVE CAMPOLIDE, 2021
.
.
.
Jorge Lima Alves e José Vieira Mendes
I Love Campolide
Fotografia e textos: Jorge Lima Alves e José Vieira Mendes
Lisboa: Travessa 32 Produções / Agosto . 2021
Português e inglês / 21,7 x 29,2 cm / 96 pp.
Cartonado
.
.

.
.
The camera therefore is an eye capable of looking forward and backward at the same time. Forwards it does in fact ‘ shoot a picture backwards, it records a vague shadow, sort of an x-ray of the photographer’ s mind
Wim Wenders
.
.
Um passeio, melhor, uma vivência de Campolide, é o que nos mostra este livro.
Dois amigos, um aqui nascido e criado, o outro, aqui reside há vários anos. E é dessa cumplicidade – de olhares, de histórias, de lugares, de vida – que nos mostra este livro.
“Mais do que uma homenagem ao bairro, I [love] Campolide é uma história de amor e de amizade.”, como escreve Jorge Lima Alves.
Os textos abrem a obra e o olhar leva-nos pela cidade. No final, identificam-se os lugares e os autores.
Vale a pena conhecer a história de cada um.
.
.
José Vieira Mendes escreve:
.
CEM ANOS DE HISTÓRIA
.
A minha família chegou a Campolide há cerca de 100 anos. António, o meu avô materno, chegou nessa altura às barracas da Calçada do Baltasar, ainda adolescente, fugido de um orfanato no Porto numa daquelas histórias que quase dava um filme. Foi criado por uma senhora que o recolheu e o transformou no ardina (vendedor de jornais) mais conhecido do Bairro: ‘O Porto’, que tinha a venda ali na Cruz das Almas , mesmo em frente à Ermida com o mesmo nome. Foi ali que nasci no 1.º andar do n.º 171 da então Rua das Amoreiras, em frente à Escola 13. Os meus pais casaram-se por volta de 1955 e instalaram-se na Calçada dos Mestres, onde o meu pai (Agostinho) tinha uma loja no n.º 26: o ‘Vieira Mendes – Alfaiate Costureiro. Aos 6 anos fui viver para o outro lado da rua, num 6.º andar de um dos ‘prédios novos’, onde vivi até aos 25 anos , em 1985. Da longa varanda do arejado apartamento, conseguíamos – dizia o meu pai com orgulho – ver os aviões a aterrar no aeroporto. Aliás a passagem dos aviões são, ainda hoje, uma constante em Campolide. O Bairro mudou muito e tenho acompanhado essa evolução, pois tenho vivido sempre perto, entre as Amoreiras e Campo de Ourique. Entre 2911 e 2016 estive até mais presente e próximo, para acompanhar os últimos anos de vida dos meus pais.
Costumo fazer longas caminhadas e durante os dois períodos de confinamento por causa do COVID-19 – entre Março e Maio de 2020 e praticamente todo o inverno de 2020/21 – decidi voltar a explorar o Bairro, para fotografar os locais das minhas memórias de infância (registando as mudanças). Reuni assim cerca de mil fotografias de Campolide. Nas redes sociais vi que o meu amigo Jorge Lima Alves também fotografava muito o Bairro – ele vai aqui explicar as suas motivações – e decidi desafiá-lo para fazermos este livro, pois apesar das suas disparidades sociais e urbanas, Campolide é um Bairro muito fotogénico. O pressuposto é que eu selecionaria as fotografias do Jorge – residente há 15 anos no Bairro – e ele escolheria as fotografias de alguém que nasceu e se criou no Bairro, mas que já lá não reside. É curioso verificar como olhares bem diferentes se complementam e se reforçam.
.
.
Para Jorge Lima Alves é
.
O CHARME DISCRETO DE CAMPOLIDE
.
Para mim, a história deste livro começa em 2005, quando comprei uma casa na Rua de Campolide, que me encantou porque tem uma janela panorâmica de onde posso observar todo o vale com a estação de comboios em primeiro plano, o Bairro da Liberdade, o aqueduto e Monsanto ao fundo, acolhendo o céu. Nunca me canso desta paisagem e todas as tardes espero com expectativa o pôr do sol, sempre diferente e espectacular.
Rapidamente percebi que morar em Campolide é um privilégio. Primeiro pela sua localização fantástica. De minha casa posso facilmente ir a pé até Sete Rios, à Gulbenkian e ao Corte Inglês, às Amoreiras e até, se estiver bom tempo, até Campo de Ourique ou mesmo à baixa (o que já fiz muitas vezes). Isto para já não falar de Monsanto que fica aqui mesmo à mão. Outros preferirão Campo de Ourique ou a Lapa, sem dúvida bairros mais “sexy”, mas aos meus olhos o charme (discreto) de Campolide é inultrapassável, com a sua mistura bem doseada de prédios antigos e modernos, onde os condomínios de luxo convivem harmoniosamente com os pátios antigos e os prédios de traça vagamente pombalina.
Do ponto de vista das infra-estruturas, o bairro evoluiu muito favoravelmente nestes últimos quinze anos, mas não posso deixar de lamentar a ausência de uma biblioteca digna desse nome, para já não falar de uma piscina.
Uma das razões porque gosto tanto de passear no bairro com a minha máquina fotográfica é porque, aos meus olhos um prédio degradado, um muro em ruínas ou um par de velhinhos a conversar numa esquina, podem ser tão comoventes como um quadro de um mestre da Renascença ou mesmo uma catedral. Para mim, também as casas têm feridas, cicatrizes, rugas e tatuagens que contam a sua história, tal como acontece com as pessoas que já viveram muito. “Lisbon is a good City to get lost”, disse um dia Patti Smith, com toda a razão. Acho que ela ia gostar tanto de Campolide, como o José Vieira Mendes (cuja amizade é uma das coisas de que verdadeiramente me orgulho), e eu.
.
.
.
Jorge Lima Alves e José Vieira Mendes, I Love Campolide, 2021
.
.
.
Jorge Lima Alves Nasceu no ex -Congo Belga, em 1949, filho de emigrantes portugueses. Entre 1969 e 1976 viveu em França, onde estudou e publicou o seu primeiro livro (Selles, 1975). Jornalista desde sempre, colaborou com inúmeros jornais e revistas tanto em Portugal como no estrangeiro, sempre na área da Cultura. É tradutor e autor de livros de poesia, teatro, ficção e ensaio, tendo também publicado livros de viagem onde a fotografia ocupa um lugar destacado.
.
.
José Vieira Mendes Nasceu em Lisboa, 1960. Jornalista, critico e programador de cinema . Fotógrafo por intuição licenciado em Comunicação Social e pós-graduado em Produção de Televisão pelo ISCSP – Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa . Foi director-fundador da PREMIERE (revista de cinema). Realizou e continua a fazer reportagens escritas e fotográficas sobre festivais de cinema e rodagens de filmes. É comentador e crítico em programas de televisão sobre cinema, primeiro na TVI e de há uns anos para cá na RTP.
.
.
A Travessa 32 fundada em 2018 é uma produtora de conteúdos audiovisuais e jornalísticos. Produz conteúdos e linguagens que promovam olhares sobre o passado, a atualidade e as grandes e rápidas mudanças nas sociedades contemporâneas. Produz obras audiovisuais originais marcadas pelas tendências que vão da ficção ao documentário, em diferentes formatos: curtas, médias, longas-metragens e séries de televisão inclusive os dirigidos aos novos media e plataformas digitais trabalha ainda para a internacionalização e promoção dessas obras com abordagens globais em festivais e televisões e nas diversas formas de distribuição audiovisual, que vão das salas aos formatos streaming.
.
.
.
No FF, sobre a obra de Jorge Lima Alves, aqui e sobre o trabalho de José Vieira Mendes, aqui.
.
.
.













