ANDRÉ CEPEDA, SÃO JOÃO DE DEUS, 2019
.
.
.
André Cepeda
São João de Deus
Fotografia: André Cepeda / Texto: Pedro Levi Bismarck, Sérgio Mah e Nuno Brandão Costa
Porto: Dafne Editora / Março . 2019
Português / 21,5 x 26,6 cm / 200 pp
Cartonado
ISBN: 9789898217479
.
.

.
.
São João de Deus é um lugar que parece ter nascido sob o signo da violência. Com a construção do Bairro de Rebordões, entre 1941 e 1944, este lugar marginal da cidade do Porto foi palco das mais profundas oscilações das políticas públicas de habitação, e da instabilidade da vida pública e privada de quem ali habitou.
Apesar disso, São João de Deus nunca perdeu a sua luz mágica.”
.
Esta obra surge quando se conclui uma obra de renovação e ampliação das habitações, cujo projeto de arquitectura, de Nuno Brandão Costa, procura trazer nova esperança ao lugar. Desde 2006 que “o fotógrafo André Cepeda acompanhou a vida de São João de Deus, numa relação de proximidade entre o olhar, o espaço, a sua natureza e as suas vivências.”
.
Nuno Brandão Costa escreve um ensaio sobre a génese, a evolução e a sua intervenção no Bairro, com algumas fotografias de arquivo e desenhos de arquitetura.
.
Sérgio Mah, escreve sobre a fotografia de Cepeda e a sua relação com o Bairro, “Reencontrar o lugar”:
.
A obra fotográfica de André Cepeda tem estado profundamente ligada ao Porto, a cidade para onde foi viver em 1996, e a partir de onde constituiu e consolidou a sua carreira profissional e artística. Percorrer a cidade, explorar territórios, aferir as suas conotações históricas, semânticas e estéticas têm sido tópicos privilegiados no imaginário de André Cepeda. É igualmente recorrente o seu interesse por territórios de fronteira, habitados por gente pobre e excluída, zonas onde abundam edifícios e casas abandonadas, terrenos baldios, traseiras, construções precárias, representados pelo artista na sua especificidade espacial e material, mas também como indícios e sintomas de urna geografia fragmentada por fenómenos e categorias sociais, políticos e morais.
Em trabalhos como Ontem (2010), Rien (2012) e Depois (2015) títulos que apontam para um programa estético e crítico —, deparamo-nos com uma cidade descentrada, estratificada e desigual onde escasseia a salubridade. Somos assim confrontados com a natureza autodestrutiva da cidade vemos os efeitos devastadores da disfuncionalização e posterior abandono dos espaços e dos edifícios. As imagens mostram o que sobra: fragmentos e vestígios materiais, detritos, escombros, restos, assuntos e aspectos parciais, micrologias de uma realidade urbana. Em certas imagens, tomamos consciência de que a arquitectura não é imune à força da sua matéria e que, como sugeriu Georg Simmel num texto célebre, nela é fatal a deterioração, o lento caminho para a ruína. «O que ergueu o edifício para o alto foi a vontade humana, o que lhe dá a sua aparência actual é a força natural mecânica que puxa para baixo, corrói e leva à destruição.» Um dos lugares que Cepeda mais fotografou nas últimas duas décadas foi precisamente São João de Deus, onde agora se opera uma renovação urbanística e arquitectónica concebida pelo arquitecto Nuno Brandão Costa. É uma nova etapa da colaboração cúmplice que o arquitecto vem desenvolvendo com o fotógrafo, iniciada em 2015, quando Nuno Brandão Costa convidou pela primeira vez André Cepeda para fotografar os seus vários projectos já concluídos ou em fase de construção.
André Cepeda teve um primeiro contacto com a zona de São João de Deus em meados da década de 1990, quando foi assistente do fotógrafo norte-americano Bruce Gilden, que se encontrava a realizar um trabalho sobre a comunidade cigana. Anos mais tarde, em 2006, começou também a fotografar neste lugar. A partir desse momento, imagens de São João de Deus foram sendo incluídas em praticamente todos os seus projectos artísticos (Ontem, Rien, Fade e Depois) e algumas delas são aqui recuperadas.
Neste livro, as fotografias antigas e recentes de André Cepeda combinam-se com a apresentação da proposta arquitectónica de Nuno Brandão Costa e uma aproximação à história da «questão da habitação» na qual São João de Deus se insere. A conjugação entre estas três componentes permite configurar um entendimento multifacetado e consistente sobre um processo de transformação, como também suscitar questões sobre a prática e o género da fotografia da arquitectura, designadamente sobre o papel e o alcance que a imagem tem e pode ter na representação da arquitectura e do planeamento urbano, bem como das suas ressonâncias históricas, sociais e antropológicas.
Há duas opções, ou duas qualidades, que distinguem e justificam a direcção editorial e conceptual deste livro: em primeiro lugar, o facto de São João de Deus ser abordado e examinado enquanto lugar, enquanto realidade que entrecruza as características físicas e espaciais com os seus sedimentos históricos e vivenciais, que lhe conferem uma configuração singular (características que os arquitectos normalmente valorizam no trabalho de concepção dos seus projectos, mas que frequentemente subvalorizam ou dispensam quando se passa ao momento de documentar e divulgar a obra finalizada). Em segundo lugar, é de considerar que o imaginário fotográfico que o livro exibe é tão mais justo e eficaz, por ser realizado por um fotógrafo com uma percepção consolidada da história do lugar, mas sobretudo por Cepeda ser um artista, alguém que assume que a fotografia deve ser pensada e exercida num horizonte expandido e dialéctico, que deve ter um papel simultaneamente descritivo e especulativo, factual e subjectivo, visual e material. Estas duas qualidades são decisivas para instaurar uma perspectiva mais complexa e projectiva da arquitectura, em radical dissonância com a visão publicitária e idílica, espectacular e monumentalizadora da arquitectura, banalizada pelas revistas especializadas e que atrai a maioria dos arquitectos.
Com o livro em perspectiva, André Cepeda recomeçou a fotografar São João de Deus em Novembro de 2016, tendo entretanto realizado mais de duzentas imagens. No contexto actual de produção desenfreada de imagens, pode não parecer muito, porém, Cepeda é um fotógrafo cuja práxis artística está fortemente vinculada a uma exigência de observação e a um domínio proficiente dos dispositivos da fotografia, o que implica procedimentos ponderados e gestos sensíveis às contingências da experiência da atenção. O fotógrafo percorre as várias zonas do bairro de manhã, à tarde e à noite. O conjunto de imagens sugere um percurso físico, urna narrativa segmentada sobre vários sítios de uma zona limite da cidade. Nesse percurso, nessa deambulação, André Cepeda fotografa os mais variados assuntos, entre os quais caminhos e ruas, fachadas das casas (antigas, demolidas, novas), terrenos baldios, objectos abandonados, estaleiros, interiores, contentores, mas também retratos de pessoas e vistas panorâmicas.
Neste processo, também há uma sugestiva diversidade de géneros fotográficos: paisagens, retratos, naturezas-mortas e naturalmente fotografia de arquitectura. Coexistem imagens a preto-e-branco e a cores. A maioria das fotografias foi feita com uma câmara de grande formato; as outras, com uma câmara de 35 mm. Daí ser possível encontrar imagens mais preparadas, estáveis e compostas, e outras que denotam uma vertente mais instintiva e corporal de reagir (fotograficamente) às coisas que o fotógrafo vai encontrando. Esta diversidade de géneros e procedimentos práticos é indiciadora do esforço de Cepeda em adequar a sua experiência à realidade multiforme do bairro.
Tal como na maior parte da sua obra anterior, estas imagens não se enquadram numa fotografia que procura a representação genérica e distante, fria e abstractizante, da arquitectura e do espaço urbano. Pelo contrário, há na fotografia de André Cepeda uma motivação muito clara em trabalhar segundo um princípio de intimidade territorial, recorrendo à feliz expressão de Jean-François Chevriera, como abordagem que se sustenta numa conjugação produtiva entre uma relação (espacial, vivencial e ética) com o assunto e as possibilidades analíticas e especulativas que a imagem pode assumir na abordagem a um lugar.
[…]
Ao seleccionar imagens antigas e recentes, os vestígios de uma realidade anterior e as evidências de uma transformação em curso, este conjunto de imagens de Cepeda proporciona uma abordagem trans-histórica que se acentua pela adopção de uma ordem que mistura imagens do passado e do presente, isto é, que não segue uma cronologia sequencial e linear, preferindo cruzar temporalidades. Por conseguinte, o passado interfere na consciência do presente do mesmo modo que as imagens actuais alteram a observação das imagens antigas. Se nas séries Ontem e Rien estas imagens estavam submetidas a um imaginário de desolação e abandono, agora vemo-las noutro contexto. O carácter desolador é mitigado, a ideia de abandono surge como um estado transitivo, o efeito de pathos é reduzido, porque sabemos que o bairro está a ser transformado (para melhor).
[…]
André Cepeda dispensa as imagens panorâmicas e distantes, genéricas e grandiloquentes. A opção tende para a perspectiva mais particular e parcial. Os enquadramentos e a atenção ao pormenor sugerem uma relação mais corpo-a-corpo do fotógrafo com os seus temas. Ele está presente e visível, O fotógrafo vê os seus assuntos fotográficos de um modo similar ao modo como os habitantes vêem o lugar onde vivem, Prova disso são os retratos. Existem alguns (poucos) casos de pessoas fotografadas em situações espontâneas e inesperadas, como o de duas mulheres sentadas na relva ou o do casal a arrumar um frigorífico na bagageira de um carro. Instantes que são raros neste trabalho mas que têm o valor de quadros vivos, apontam para gestos prosaicos da vida quotidiana. […]
Não obstante, numa análise mais exigente e prolongada apercebemo-nos de que as fotografias de André Cepeda não são plenamente documentais nem muito menos objectivas, em virtude da sua retórica articular a competência descritiva com o potencial especulativo, estético e reconfigurador da imagem. Podemos então simplesmente afirmar que o fotógrafo parte das convenções da imagem objectiva para procurar a mais ampla e profícua subjectividade. E que as suas imagens são instáveis e impermanentes, o que é certamente uma qualidade, porque se trata de assegurar uma das expectativas que mais anima a prática artística, o ensejo de um olhar alternativo, um olhar passível de mobilizar no espectador aquilo que tem de mais subjectivo, intuitivo e projectivo. Por outras palavras, são imagens que ambicionam ser operações, relações entre o visível e o dizível, maneiras de jogar com o antes e o depois, com a identidade e alteridade territorial. Todo este modo de fazer e pensar a fotografia permite situar o trabalho de André Cepeda no quadro de uma tendência clara na fotografia artística que pende para o exercício especulativo e ficcional, para a expressão plástica e poética, para o valor de indeterminação das obras, enquanto formas e meios legítimos (e necessários) de representar e interpelar a nossa experiência da realidade.
.
.
.
André Cepeda, São João de Deus, 2019
.
.
.
André Cepeda (n. 1976, Coimbra), fotógrafo. Tem construído um corpo de trabalho particularmente intenso na relação que estabelece com o que fotografa. Em livros como Depois (2015), Rua Stan Getz (2014), Rien (2012), Ontem (2010), a arquitectura aparece como figura e receptáculo sensível de um estado de espírito e de uma condição humana. O seu trabalho encontra-se representado em colecções como: Faulconer Gallery (Iowa), Casa da Fotografia (Hamburgo), Kasseler Fotoforum (Kassel), The Mews Project Space (Londres), MASP (São Paulo), Museu de Serralves (Porto), Fundação Calouste Gulbenkian (Lisboa), Le Bal (Paris, França). Esteve na shortlist do Paul Huf Award, Foam Fotografiemuseum Amsterdão (2011), no Prémio BESPhoto (2010) e no Prémio Novos Artistas EDP (2007). O seu trabalho é representado pela galeria de arte contemporânea Cristina Guerra (Lisboa), Galeria Pedro Oliveira (Porto) e Benrubi Gallery (New York).
.
.
.
Pode conhecer melhor a obra de André Cepeda no Fascínio da Fotografia, aqui.
.
.
.














