JORGE LIMA ALVES, O CADERNO SICILIANO, 2020

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Jorge Lima Alves

O caderno siciliano

Fotografia e texto: Jorge Lima Alves

Edição do Autor / 2020

Português / 13,3 x 19,9 cm / 44 pp.

Brochura / 50 ex.

ISBN: nd

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Jorge Lima Alves é um viajante (gosta de se chamar turista), gosta de fotografar e de escrever.

As fotografias retratam quer o horizonte amplo da cidade ou da paisagem, o detalhe dos mosaicos, as ruas, as pessoas, momentos. Está para além da fotografia de ‘turista’, do ‘bilhete postal’. É um olhar vivencial, atento.

Acompanha as imagens com alguns textos, testemunhando momentos e sensações.

No Preâmbulo, escreve:

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0 meu desejo de visitar a Sicilia nasceu quando vi Palermo Shooting, um filme do Wim Wenders realizado em 2008. A vontade de lá ir consolidou-se quando li, alguns anos mais tarde, a Viagem a Itália do Goethe (…).

Johann Wolfgang Goethe tinha 37 anos quando, em 1786, decide percorrer a Itália. Já famoso em toda a Europa, devido ao sucesso d ‘Os Sofrimentos do Jovem Werther (publicado 12 anos antes), pensou que o contacto directo com a cultura italiana possibilitariam o despertar para novas ideias e formas de ver o mundo.

Depois de ter percorrido uma boa parte da península (vale imensamente a pena ler o livro), Goethe chega finalmente à Sicília, onde, mal desembarcou, escreveu: “… se existe algo decisivo para mim nesta longa viagem pelo território italiano foi ter chegado até a Sicília, a rainha das ilhas. Quem nunca se viu rodeado pelo mar não tem ideia do que seja o mundo e sua relação com ele”. Meses mais tarde, quando iniciou a sua viagem de regresso ao continente, anotou: “Não sou, afinal, senão um antepassado dos que virão com o futuro, quer na vida, quer nesta viagem. A Itália sem a Sicília não forma em meu espírito um quadro completo. Somente aqui encontrei a chave para o todo”.

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Partilha algumas memórias de viagem:

Depois de termos visitado o templo dórico de Segesta, onde se apossou de mim o deslumbramento que não me largou mais durante 14 dias seguidos, chegámos a Erice, um verdadeiro ninho de águia, a 751 metros de altitude, construído sobre as ruínas de um templo dedicado a Afrodite (e mais tarde, a Vénus). Consta que, na antiguidade, templo abrigava sacerdotisas que acolhiam com favores sexuais os peregrinos que traziam oferendas para a deusa da beleza e do amor.

Em Segesta, para além do templo em si, merece destaque o largo anfiteatro de onde se pode ver todo o vale em redor. Lá de cima, o templo, ou o que resta dele, parece um teatrinho de brincar, ali deixado, no meio da planície, por gigantes.

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Entre Modica, a capital do chocolate italiano, e Noto, descobri uma paisagem de sonho. 0 campo florido encheu-me os olhos de cores berrantes: amarelos, vermelhos, roxos, que se destacavam do verde vivíssimo das árvores e do azul perfeito do céu. A certa altura, parei para tirar fotografias a umas vacas deitadas num imenso tapete de flores roxas e elas ficaram a olhar para mim com uma curiosidade tão serena e relaxada que voltei para o carro com um sorriso a bailar nos lábios.

É um mistério que não procuro resolver: de vez em quando, quando ando por aí, de súbito, uma paisagem parece-me a mais bela do mundo. Não precisa de ser grandiosa (embora o possa ser), nem ter nada de invulgar; precisa apenas de estar envolta de uma certa luz e encantar-me. Sim, certas paisagens têm sobre mim um efeito tremendo, inacreditável. 0 que me fazem sentir ultrapassa o que é possível exprimir, pois nem sequer consigo pensá-lo. Permitam-me que acrescente: na verdade, qualquer paisagem fica mais bonita quando olhamos para ela com olhos de ver.

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Fotografar, como escrever, é uma forma de abrir novos caminhos. Salvador Dali dizia que “saber olhar é saber inventar”. Na verdade, não fotografamos a realidade, seja isso o que for, mas apenas a sua (nossa) ilusão. Ou seja, viajamos sempre num território de algum modo ficcionado.

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Alves regista na contracapa, a propósito de “viagem”:

Viajamos, portanto, entre expectativa e emoção, em direcção ao mistério, sabendo como é aventurosa e precária a experiência. Viajar, como o faço, significa contemplar não apenas o que está à vista mas também o que se esconde, nomeadamente dentro de mim próprio, porque aquilo que em nós se oculta pode vir à superfície a qualquer momento, como acontece nos sonhos. É através do olhar, e portanto também das fotografias que vou tirando, que os pensamentos entram em mim e o que me interessa, hoje em dia, seja em viagem ou em casa, é reflectir sobre o modo como vivo e quero viver.

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Jorge Lima Alves, O caderno siciliano, 2020

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Jorge Lima Alves

Comprou a sua primeira câmara, uma Nikon FM preta com uma objetiva de 50 mm f1:4, em França, onde estava exilado há cinco anos, quando soube da Revolução de 1974, para vir de férias a Lisboa. Regressou definitivamente em 1976.

Foi jornalista na área da cultura (escrevendo sobre literatura, teatro, música) e durante 20 anos pertenceu aos quadros do semanário Expresso, onde foi editor da Cultura. Actualmente está reformado e, de vez em quando — cada vez mais raramente —, faz traduções literárias e escreve prefácios para livros.

A primeira grande viagem que fiz foi no ano 2000. Passei um mês inesquecível na Índia e desde aí, todos os anos, a minha mulher e eu, temos viajado imenso: China, Japão, Tailândia, Estados Unidos, Canadá, etc. Não sendo ricos, longe disso, poupamos no dia-a-dia para fazer estas viagens que se tornaram absolutamente essenciais para nós. Quando não podemos ir tão longe, por alguma razão, vamos mais perto: Roma, Veneza, Sevilha, Marselha, Munique, sei lá. Desde sempre, quando volto da viagem, imprimo as fotos que considero mais significativas e faço um álbum. Tenho duas caixas cheias deles: exemplares únicos que nunca mostro a ninguém, mas que vou folhear de vez em quando para meu prazer exclusivo. 

Quando veio a pandemia, veio-me a ideia de fazer versões digitais desses álbuns para ocupar o tempo. Depois comecei a pensar que talvez os pudesse partilhar e mandei imprimir um livro para experimentar. Com o tempo, tornou-se um vício: passo horas a rever as fotos e as notas que tirei nas viagens e a dar-lhes, no computador, a forma de um livro. Aprendi sozinho a paginar e a fazer as capas e hoje dá-me muito gozo fazê-lo. O propósito, como já percebeu, não é de todo ganhar dinheiro com isto, pelo contrário: gasto aqui o dinheiro que não posso gastar nas viagens por causa do Covid.

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Pode conhecer algum trabalho fotográfico e poético de Jorge Lima Alves, no seu blog, aqui e no FF, aqui.

Para adquirir alguma zine pode contactar o autor: <jorgelimaalves@gmail.com> . Em alternativa, o Messenger do Facebook ou o Instagram, onde utiliza sempre o seu nome.

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