CARLOS ALMEIDA, DO ROSTO APENAS O OLHAR, 2021
Exposição no Arquivo Municipal de Loures de 7 de maio a 7 de julho de 2021.
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Carlos Almeida
Do rosto apenas o olhar
Fotografia: Carlos Almeida / Texto: Homem Cardoso, Amélia Teodoro, Filomena Cunha, Fernando Penim Redondo
Loures: Câmara Municipal de Loures / Maio . 2021
Português / 21,1 x 29,7 cm / 56 pp. não numeradas + encarte
Brochura / 350 ex numerados e assinados pelo autor
ISBN: nd
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Todos estes mascarados assaltaram o coração do meu querido amigo Carlos Almeida.
São boa gente e amigos dele.
Sabiam há muito que o coração do Carlos é do tamanho do mundo.
Homem Cardoso
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Este livro é o catálogo da exposição homónima.
No livro e nas paredes e janelas do piso de entrada do Arquivo, são mais de uma centena os olhares. Nas janelas, as imagens estão impressas em pano, o pano ocupa toda a altura da ampla janela. Quando olhamos a sucessão de rostos, parecem que todos eles estão à janela – e nos olham. Estão à janela – quer dizer, estão em casa, em período de confinamento. E muitos estão, e outros estão na rua, em caminho, em diálogo. Com distâncias, com cuidados.
Nas paredes as imagens são no geral mais pequenas. E outras ao longo de uma faixa que envolve o módulo que acolhe um laboratório fotográfico (de exposição). No interior, com a luz vermelha, a fotografia que homenageia uma das habitantes do bairro, entretanto falecida, última fotografia do catálogo, a D. Hermínia Semedo Correia Cordeiro, guineense, professora do ensino básico em Fetais e em Camarate e “cara feminina do grupo de música tradicional guineense Bambaram”.
Os olhares tornam-se os rostos. As bocas, narizes, queixos, escondidos. Ficam os olhos, as orelhas, o cabelo. Os olhos distinguem-se. O olhar. Uns miram-nos de frente, outros olham para o lado. Em todos, a máscara. De diferentes materiais e padrões e cores.
Percebemos sorrisos e angústias, confianças, medos… Os olhares dizem tanto! E se esta exposição o confirma!
Tive oportunidade de visitar a exposição com o Carlos Almeida. Fala de cada fotografia, por vezes, como a obteve, mas sempre o nome do fotografado, um pouco da sua história, da sua vida.
E, refere, depois da exposição sair daqui, quer levar a exposição ao bairro. Quer que as pessoas se vejam lá, se encontrem com elas. Muitas já se encontraram ali com as suas imagens e as suas máscaras.
Ainda uma outra imagem, detalhe de uma pintura que ocupa uma fachada integral de um dos edifícios do bairro: um jovem a tirar a máscara, mas esta uma máscara diferente, que envolve todo o rosto. A máscara que por vezes têm de colocar quando saem do bairro, para evitar a estigmatização.
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António Bracons, Carlos Almeida, 05.2021
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Carlos Almeida está ligado ao Bairro da Quinta do Mocho, em Sacavém. Conhece muitos dos seus habitantes. Como ele conta:
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Em Maio de 2020, um ou dois dias depois de passarmos do estado de emergência para o estado de calamidade, voltei a andar nas ruas da Quinta Mocho, o Bairro.
O que vi deixou-me perplexo!
Bastante mais de metade dos habitantes do Bairro circulava na rua de máscara, numa altura em que as não havia e que se discutia quais as vantagens, mas sobretudo as suas desvantagens. Numa altura em que poucas pessoas as usavam!
Eram cirúrgicas, FFP2, FFP3, K’s qualquer coisa, écharpes, muitas de confecção artesanal! Bem colocadas, mal colocadas!
“Tenho de registar isto! Tenho de registar isto!” Era a única coisa que me passava pela cabeça.
Para quê?
Não sabia! Mas tinha!
Talvez porque eu achasse que um ano depois já ninguém se ia lembrar daqueles tempos. Achava mal!
Assim esta exposição é o resultado de parte das fotografias que tirei, maioritariamente, durante aqueles primeiros dias do mês de Maio.
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Amélia Teodoro regista no catálogo:
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A máscara dá-me outro rosto dentro do meu rosto. Dentro daquele que sempre foi o meu rosto, mesmo quando tenho a máscara colocada.
Todos vivemos dentro de várias máscaras desenhadas pelo tempo e pela vida.
Em criança, desejamos as máscaras dos nossos heróis. Na adolescência, queremos máscaras que escondam as nossas inseguranças. Em adultos, usamos várias máscaras que nos são impostas pela sociedade, que nos deixa ser livres de forma ilusória.
Todos, sem regra, já usámos várias máscaras ao longo da vida, umas mais coladas que outras à nossa pele.
Com a chegada da pandemia, tomámos consciência do peso de transportar, em permanência, uma máscara. Uns já sabiam como ela lhes pesava sobre o rosto, outros aprenderam a olhar para si dentro dela.
Universalmente, a máscara passou a ser um adereço oficial.
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Filomena Cunha regista:
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O olhar do outro.
Do rosto apenas o olhar.
Parte do rosto coberto, protegido por uma máscara.
Qual delas?
A devolução do meu olhar no olhar do outro, a reflexão do mundo no meu olhar que observa o olhar do outro. A única troca possível de cruzar diferenças e individualidades.
O retorno refletido da imagem do duplo. A liberdade individual do uno suspensa impõe-nos um modo de ser e de estar numa série infinita e replica todos os múltiplos que mimetizam gestos e obediências sociais sem escolha.
A liberdade voltou a assistir ao seu conceito, a redimensionar-se e a reduzir-se. O afastamento físico (já não tocamos, já não trocamos) é compensado pelo olhar que se torna veículo da mensagem, da única proximidade possível.
O afastamento físico é compensado pela proximidade do olhar. A maior proximidade possível é a distância do olhar.
Somos todos mais iguais do que julgamos. Entre a clausura e a vaidade, a máscara é o único acesso que nos nivela (e a todos se impõe como permissão de partilhar um pedaço de mundo contaminado), da fuga que nos atravessa a todos e se impõe.
Resta cada um de nós, isolado, camuflado, protegido, evitando a contaminação, sozinhos para o confronto e o desafio.
A máscara uniformiza-nos como uma farda e um escudo de proteção, do eu, do outro.
Todos iguais a todos. Todos no isolamento da experiência entrópica de cada eu. A vulnerabilidade trespassa todos. (…)
A realidade não se deixa captar ou copiar, quando muito interpretar como documento social. O fotógrafo capta partes selecionáveis da realidade, aliando o poder do instrumento mecânico para dissecar e conhecer o exterior e ter o poder de produzir imagens que são não apenas o simulacro, mas a própria realidade, ou versão dela – “uma foto não é apenas uma imagem, uma interpretação do real; é também um vestígio, algo diretamente decalcado do real, como uma pegada ou uma máscara funerária”. — Susan Sontag (…)
O sentido de real torna-se cada vez mais complexo e a reação é fotografar de forma exaustiva para fazer uma transfusão de real para a realidade cada vez mais esvaziada. A fotografia é o meio de aprisionar a realidade que escapa, de fazê-la parar, congelar. “não se pode possuir a realidade, mas podem possuir-se imagens”. Susan Sontag (…)
Aproximamo-nos do outro e as décalages sociais, económicas, mentais caem, resistem as culturais, último reduto da individualidade e da resistência.
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Para Fernando Penim Redondo:
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O Carlos não é mau tipo, mas…
Conheci o Carlos Almeida em 2017, na fase inicial das visitas guiadas à Quinta do Mocho [à Galeria de Arte Pública].
As pessoas como eu seguiam atrás do Kally e da Ema, encantadas com as belas empenas pintadas do Bairro, mas percebia-se logo que o Carlos estava vários passos à frente.
O Carlos não é mau tipo, mas bem podia ter evitado dar-se ao luxo de complementar as descrições dos guias, fazer sugestões alternativas para o percurso e cumprimentar pelo nome toda a gente com que nos cruzávamos. Era, obviamente, da casa.
A certo ponto chegámos a uma espécie de largo onde o Carlos e a Sónia Figueiredo tinham feito o que chamavam “o estendal”. Umas cordas passadas entre as árvores de onde pendiam dezenas de fotografias feitas por eles, no Bairro, e que os retratados podiam levar consigo se quisessem.
O Carlos não é mau tipo, mas por vezes torna-se difícil de compreender. Se tinha andado a cravar para a pose toda aquela gente, cujos estendais eram outros, podia ter feito um vistaço nas redes sociais em vez daquela mania de devolver, discretamente, as suas obras ao Bairro.
Nos anos que se seguiram fui muitas vezes ao Mocho mas o Carlos, esse, ia lá constantemente.
O Carlos não é mau tipo mas preocupa-se com este e com aquele, por dá cá aqueIa palha. E se a ocasião se torna emotiva espreitam-lhe no canto dos olhos, como dizia Gedeão, gotas de água (quase tudo) e cloreto de sódio.
O Carlos não é mau tipo, mas de um modo ou do outro acaba por se envolver na vida de toda a gente. Os guineenses do Mocho que o digam, pois não descansou enquanto não me pôs a trocar com eles velhas memórias de Bolama e do Cacheu. Até desencantou um ex-aluno da minha mulher no liceu de Bissau. O Osvaldo tinha crescido imenso desde os anos sessenta e media agora quase o dobro da sua professora mas, para ela, voltou a ser um menino.
O Carlos não é mau tipo, mas tem um lado irritante; trata tão bem os seus amigos que eles sentem que é quase impossível retribuir devidamente as suas gentilezas. A mim deu-me a oportunidade de aparecer ao seu lado, em várias iniciativas culturais no Mocho, apenas por não gostar de fazer as coisas sozinho. Às duas por três, sem mais nem menos, tínhamos o Presidente Marcelo na exposição de rua Expo Mocho 2019 (minha, da Sónia e do Carlos). Naquela festa de Marcelo, no Bairro, nós fomos dos raros forasteiros a ter o privilégio de estar dentro do incrível turbilhão de cores e emoções.
O Carlos não é mau tipo, mas por vezes é paradoxal. (…)
A exposição do Carlos Almeida é possivelmente a única em que o fotógrafo conhece todos os rostos ocultos por trás das máscaras que fotografou.
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Carlos Almeida, Do rosto apenas o olhar, 2021
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A exposição “Do rosto apenas o olhar”, de Carlos Almeida, está patente no Arquivo Municipal de Loures, em Loures, de 7 de maio a 7 de julho de 2021.
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António Bracons, Aspetos da exposição, 2021
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Carlos Almeida (Lisboa, 1961) fez o Curso Avançado de Fotografia no IPF – Instituto Português de Fotografia (1986/87). Depois de alguma atividade fotográfica e algum afastamento, retoma-a no digital, tendo realizado diversas exposições individuais e coletivas nos últimos anos.
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Na agenda para ver amanhã com os meus alunos de fotografia. Tinha que ser.
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