ALEXANDRE DELMAR, CATARINA BOTELHO, CARLA CABANAS E DUARTE AMARAL NETTO, UMA MÍSTICA DA FRAGILIDADE

Exposição integrada no Ci.Clo – Bienal ‘21 Fotografia do Porto, patente na Brotéria, em Lisboa, na R. São Pedro de Alcântara, 3, de 9 de junho a 10 de julho de 2021.

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Recomendai-me a todos, e dizei-lhes, que para os aliviar dos seus desgostos, dos seus receios de golpes hostis, das suas dores, perdas, das suas pontadas de amor, com outros incidentes que a frágil embarcação da natureza sustenta na viagem incerta da vida, far-lhes-ei alguma gentileza; ensiná-los-ei a prevenir a fúria de Alcibíades.”

William Shakespeare, Timon de Atenas, 5.2.82-8

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Sobre “Uma mística da fragilidade”, escreve Matilde Torres Pereira, curadora da exposição:

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Neste período particular e atípico, é inevitável que se imponha uma reflexão acerca do momento global que atravessamos e no qual passámos a lidar quotidianamente com as dinâmicas do medo e da incerteza. A convivência com uma ameaça invisível, a demonstração da instabilidade dos sistemas e as alterações à forma como nos relacionamos voltaram a expor a vulnerabilidade da condição humana.

Convidada pela Ci.Clo a participar como curador na Bienal de Fotografia do Porto ‘21, a Brotéria convidou quatro artistas a abordarem com o seu trabalho esta acentuada relação com a fragilidade da própria experiência.

A exploração visual destas tensões entre vulnerabilidade e resiliência, solidez e fragilidade, luz e escuridão, morte e vida, este espaço aparentemente místico que oscila entre a força e a delicadeza tem uma longa história e uma simbologia recorrente. A tradição dos memento mori na pintura é composta pela representação dos objetos que remetem para a precariedade da vida – “lembra-te de que és mortal” – dizem a ampulheta, os vasos de vidro, as flores em decomposição, antecedidos como imagem de fragilidade pela metáfora bíblica do homem como vaso de barro.

 A natureza da fragilidade humana aparece igualmente descrita na literatura; em Timon de Atenas, de Shakespeare, Timon tece acerca desta uma complexa analogia. A noção de fragilidade permite aos poetas, escritores, artistas, aos leitores e aos públicos explorarem o significado do sentir humano – e porventura grande parte da tragédia humana deve-se à negação dessa própria fragilidade 1. A abordagem estética da fragilidade presta-se também à associação com a fragilidade da própria beleza, como no lugar-comum em latim forma bonum fragtle est.  Os artistas contemporâneos expressam-no através da sensibilidade tanto aos aspetos físicos como às conotações

alegóricas dos materiais com os quais trabalham: pó, vidro, pele, corpo, papel; matérias simultaneamente efémeras e resilientes.

Na exposição “Into Dust: Traces ofthe Fragile in Contemporary Art”, no Philadelphia Museum of Art, em 2015, artistas como Alan Saret, Mona Hatoum, Alfredo Jaar ou Lorna Simpson ensaiaram uma exploração da “distinção entre o corpóreo e o transcendental, a emergência e a decadência, a pertença e o deslocamento, a vida e a morte”, revelando e questionando “as forças políticas, espirituais e psicológicas que moldam quem somos”.2

É um movimento espelhado na exposição “Meditations in an Emergency”, patente no verão no UCCA, Centro de Arte Contemporânea de Pequim, e que enquadrava este conceito de fragilidade no momento presente, trazendo a realidade da pandemia para a reflexão. Nas palavras do curador Neil Zhang, “estamos confrontados com um mundo marcado por restrições, enganos e mal-entendidos. As fronteiras têm vindo a ser diluídas, e não há verdades absolutas”.

Como que numa reinterpretação contemporânea destes símbolos, Alexandre Delmar, Catarina Botelho, Carla Cabanas e Duarte Amaral Netto mostram nesta exposição uma imersão sensível na abordagem estética da fragilidade e no próprio significado do sentir humano, partindo do desejo de juntar uma antologia de imagens que possam, de entre as tempestades deste tempo que nos tem assolado, encontrar as tanquam tabluae naufragii – as tábuas do naufrágio.

Através de imagem fotográfica, vídeo e som, podemos navegar esta antologia de sentires e alegorias, desenhados que são a partir da matéria do efémero; traçando um glossário de resiliência, detritos do dilúvio do tempo.

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1  Johann Gregory, ‘Nature’s fragile vessel’: Rethinking approaches to material culture in literature, Cahiers Elisabethains: A Journal of English Renaissance Studies, 2017.

2  Amanda Sroka, https://philamuseum.org/exhibitions/2015/827.html, 2015.

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Alexandre Delmar,Adagiário ou formas de falar com pássaros

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Alexandre Delmar,Adagiário ou formas de falar com pássaros

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O ensaio fílmico-fotográfico Adagiário ou Formas de Falar com Pássaros apresenta a natureza frágil e resiliente das matérias, procurando um mapeamento ficcionado e tensionado do real. Este adagiário não procura revelar ou ocultar, mas potenciar um léxico que evoque possíveis compreensões do modo como somos e habitamos o tempo e o espaço. Talvez, com ele, seja possível comunicar com os pássaros.

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Catarina Botelho, das barricadas pode-se ver a cidade

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Catarina Botelho, das barricadas pode-se ver a cidade

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António Bracons, Aspetos da exposição, 2021

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Registo de estruturas de resistência, ocultação e organização de terrenos reclamados para a agricultura de subsistência de pequena escala nos centros urbanos, das barricadas pode-se ver a cidade reflete uma temporalidade adversa ao projeto de cidade neoliberal, pensando a invisibilidade, o gesto anónimo de criação, e a relação entre espécies humana e vegetal.

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Carla Cabanas, In an infinite blow

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Carla Cabanas, In an infinite blow

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Entre o infinitamente grande do Cosmos e o infinitamente pequeno do quotidiano, In an infinite blow simula um percurso pelas observações do espaço do telescópio Hubble, substituindo as estrelas por fragmentos de fotografias de um álbum de família. Esta sucessão de imagens a partir dos vestígios materiais de outras imagens, investiga a relação entre a nossa vida (emocional e física) com o nosso posicionamento no universo.

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Duarte Amaral Netto, The End of an Ear

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Duarte Amaral Netto, The End of an Ear

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Apropriando-se do título do primeiro álbum de Robert Wyatt a solo, The End of an Ear reflete a incógnita do momento presente, a incerteza do fim anunciado de uma era, e do princípio de uma outra que se avizinha sem se deixar ainda vislumbrar.

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“Uma mística da fragilidade” é uma exposição de Alexandre Delmar, Catarina Botelho, Carla Cabanas e Duarte Amaral Netto, que “propõem uma imersão sensível em imagens fotográficas, vídeo e som que habitam a tensão entre fragilidade e resiliência. As obras foram produzidas a partir do convite da Brotéria à reflexão sobre o momento de incerteza que coletivamente enfrentamos”, integrada no Ci.Clo – Bienal ‘21 Fotografia do Porto, sobre o tema “O que acontece com o mundo acontece connosco”, com curadoria da Brotéria e Matilde Torres Pereira, está patente na Brotéria, em Lisboa, na R. São Pedro de Alcântara, 3, de 9 de junho a 10 de julho de 2021.

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O Pe. Francisco Mota, sj, diretor da Brotéria, regista na folha de sala:

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A Brotéria é uma casa de cultura situada no coração de cidade de Lisboa. Há muitas questões que nos são colocadas e que têm que ver com o nosso bairro, com o nosso contexto, com os nossos vizinhos. A nossa preocupação maior tem que ver com a relação que é possível estabelecer entre a identidade cristã que assumimos e as inquietações do mundo urbano no qual nos inserimos. A proximidade, entendida no sentido de vizinhança, interessa-nos e dá sentido ao que fazemos.

Dito isto, há também um conjunto vasto de questões que não são geograficamente limitadas ao lugar no qual a nossa casa está. O desejo de criar pontes entre a fé cristã e as culturas urbanas contemporâneas está no Bairro Alto, está em Lisboa, está no Porto. Há questões relacionadas com a beleza, com a organização da sociedade ou com a linguagem, que são cada vez mais universais. Foi isto que motivou o encontro entre a Ci.CL0 e a Brotéria. Ultrapassar geografias, quebrar barreiras e quebrar quilómetros, unir Lisboa, Porto e o espaço digital neste processo de mostrar que “o que acontece no mundo acontece connosco”.

Há uma ligação especialmente forte no mundo moderno entre a descoberta da luz e a conversão pessoal. A luz desperta para sentidos místicos, estéticos ou sociais. Faz com que o mundo seja visto de um modo novo. Em décadas recentes, há referências autobiográficas abundantes neste sentido: Paul Claudel, Avery Dulles, ou Paulo Varela Gomes, por exemplo, cada um à sua maneira, viram a sua vida transformada porque em algum dia muito específico se depararam com um jogo de luz que levou a ver a realidade de uma forma diferente. A luz transforma e converte, inspira e desafia.

Com “Uma mística da fragilidade”, a Brotéria espera poder contribuir para esta conversão permanente do olhar. Os trabalhos de Alexandre Delmar, Carla Cabanas, Catarina Botelho e Duarte Amaral Netto provocam e transformam. Revela, a uma luz nova, realidades já conhecidas. E, com isso, iluminam a inteligência e a imaginação. A possibilidade de contribuir para que os visitantes renovem o seu olhar sobre aquilo que aparentemente é frágil não pode deixar de entusiasmar a Brotéria.

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Virgílio Ferreira, diretor artístico do Ci.Clo, refere:

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Quando escolhemos o binómio Adaptação e Transição para o tema da primeira edição da Bienal Fotografia do Porto em 2019, tínhamos presente que, então e depois, era urgente fomentar uma reflexão subordinada a este mote.

Passado um ano, face a uma pandemia que transfigurou os nossos quotidianos, a sua relevância tornou-se ainda mais premente. Subitamente confrontados com a fragilidade dos nossos sistemas culturais, sociais, políticos, económicos e ecológicos, fomos forçados a lembrar-nos que estas esferas estão profundamente interligadas e que a vida é complexa, vulnerável e impermanente.

O que Acontece com o Mundo Acontece Connosco, o título da segunda edição da Bienal, propõe que curadores e artistas reflitam sobre a interdependência entre os sistemas naturais e humanos, considerando a complexa matriz global que se corporifica a partir de um emaranhado de relacionamentos culturais, sociais e políticos que têm fragilizado os ecossistemas.

Reconhecer que vivemos entrelaçados, em regime de interdependência absoluta num mundo fragmentado e instável, implica a transição de uma narrativa dominante de separação para uma narrativa de inclusão que saiba aceitar todos, humanos e não-humanos, como sujeitos políticos de uma pólis universal. Este é um processo que nos compromete com uma visão acêntrica dos nossos grupos, sistemas e estruturas, que nos funde ao planeta na constituição de um corpo global, do qual somos apenas um filamento.

A Bienal Fotografia do Porto reconhece os profundos desafios sociais e ecológicos que o nosso coletivo enfrenta. A nossa missão é contribuir para a produção e disseminação de perspetivas artísticas, ações e intervenções, que promovam uma mudança cultural ética que acreditamos ser tão desejável quanto é inevitável.

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