ROBERT DELPIRE (1926-2017): “UM CERTO MODO DE VER E DE FAZER VER”
Dia 26 de setembro faleceu Robert Delpire, com 91 anos (Paris, 24 de janeiro de 1926 – Paris, 26 de setembro de 2017)
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O que eu gosto numa fotografia é o silêncio.”
Robert Delpire
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Inge Morath, French publisher Robert Delpire. Paris, France. 1955 (© Inge Morath © The Inge Morath Foundation | Magnum Photos)
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Um editor não é um artista. Um editor é um artesão. Está ao serviço do autor. Fazer um bom livro de fotografia não é fazer um bom livro para si, mas para o autor.”
Robert Delpire
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René Burri, Robert Delpire, publisher, with double exposure of Inge Morath, Magnum photographer behind her Leica camera and Yin and Yang picture on wall. Paris, France. 1956 (© Rene Burri | Magnum Photos)
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Robert Delpire é um nome maior da fotografia europeia e mundial.
Não esteve atrás das câmaras, não esteve à frente das câmaras, mas foi o responsável por dar a conhecer grandes imagens de grandes fotógrafos. Editor de livros de fotografia, curador de exposições, produtor de cinema, diretor de revistas de arte e publicidade e designer gráfico, foi um apaixonado pela fotografia, amigo de tantos fotógrafos famosos, muitos dos quais lançou e promoveu.
Os seus livros folheiam-se com gosto, há qualquer coisa de especial: no formato, na impressão, no design, na paginação, no papel, que tornam a obra apetecível, gostosa, desejável…
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Em 1950, com 23 anos, enquanto estudante do 5.º ano de medicina, jogava basquete na equipa universitária e frequentava a Maison de la Médecine, onde se desenvolviam atividades culturais e desportivas dos alunos. Aceita a direção de um pequeno jornal cultural, destinado ao corpo médico, mas à sua maneira: foi co-fundador de uma revista luxuosa, financiada por laboratórios farmacêuticos: a Neuf (“nove” ou “novo”), da qual o primeiro número sai em junho de 1950, saindo outros com periodicidade irregular. Alia a literatura à fotografia: nos primeiros números, junta Georges Duhamel e André Breton, depois Jacques Prévert para a escrita e Brassaï, Henri Cartier-Bresson ou Robert Doisneau, jovens autores então ainda pouco conhecidos, para as fotografias. Izis e Willy Ronnis entre outros contam-se entre os apresentados.
Cria então a editora Huit (Oito), a qual teve uma vida breve, mas na qual publica Les Parisiens tels qu’ils sont (1954), de Robert Doisneau, Les Danses à Bali (1954), de Cartier-Bresson e Le Village des Noubas, de George Rodger, em 1955, ano em que aquela editora dá lugar à Delpire and Co, posteriormente Éditions Delpire.
Dos primeiros títulos editados contam-se The People of Moscow, de Henri Cartier-Bresson, e Fiesta in Pamplona, de Inge Morath, ambos em 1955. Em 1958, publica o quinto livro de uma série de livros que intitula de Encyclopédie Essentielle : a primeira edição mundial de Les Américains [The Americans], de Robert Frank.
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Robert Frank, Les Américains, Éditions Delpire, 1958.
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“O seu trabalho não é um discurso, é um grito”, escreveu sobre Robert Frank, no C´est de voir qu’il s’agit, um livro alfabético, em A, Delpire observa: “Como Les Américains: nunca Robert Frank ou eu pensávamos que estávamos a fazer um livro de culto em 1958. Não tenho certeza de gostar do termo. Desconfio das fórmulas e das religiões.”
Conjuntamente com a sua companheira, a fotógrafa Sarah Moon, Delpire editou Marc Ribaud, Robert Doisneau, Henri Cartier-Bresson, Brassaï, Jacques-Henri Lartigue, Inge Morath, Walker Evans, Lee Friedlander, Heinrich Kühn, August Sander, Duane Michals, entre tantos outros fotógrafos. De muitos foi o primeiro a publicar na Europa.Foi o primeiro galardoado com o Prix Nadar, com o álbum “Japon” de Werner Bishof (1954).
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Henri Cartier-Bresson, Seated, from left to right: Robert Delpire, Sarah Moon, Martine Franck. Standing: Jeanloup Sieff, Jacques-Henri Lartique, Henri Cartier-Bresson. February 3th, 1973 (Collection J.H. Lartigue/Mi)
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Em 1963, Claude Roy escrevia:
O denominador comum de Delpire, é o universo do olhar. Delpire, é, primeiro que tudo, um certo modo de ver e de fazer ver.”
De William Klein publicou Tokyo (1964) e com ele realizou vários filmes, nomeadamente um documentário sobre o pugilista Muhamad Ali, Cassius le Grand (1964) e a sátira sobre o mundo da moda, Qui êtes-vous, Polly Maggoo? (1966), produzidos pela sua companhia Delpire Productions.
Ainda neste período, cria a Delpire Publicité, na qual, durante cerca de uma década, desde meados dos anos 1950, em parceria com Claude Puech, produz para grandes clientes, como a Citroen ou a L’Oréal, brochuras e pósteres com o trabalho de fotógrafos como Helmut Newton, Sarah Moon e outros.
Gypsies (1975) e Exiles (1988), de Josef Koudelka, Juste un peu flou, de Robert Capa, Des Images et des Mots, de Cartier-Bresson, Sur la route des esprits, de Abbas, Les Allemands, de René Burri e Made in Belgium de Harry Gruyaert,são apenas alguns títulos de alguns autores maiores que publicou ou editou.
Na sequência dos livros que edita, querendo dar maior visibilidade à fotografia, em 1963, abriu a Galerie Delpire em Saint-Germain-des-Prés, Paris, uma galeria para expor fotografia e os livros que edita. É nesta galeria que, pela primeira vez na Europa, os maiores nomes da fotografia, ilustração e design gráfico puderam ser vistos: André François, Savignac, Le Foll, Lubalin, Milton Glaser e Blechman, são apenas alguns.
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Sarah Moon, Robert Delpire and Josef Koudelka. Prague. 1978. ((c) Sarah Moon © Magnum Collection | Magnum Photos)
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Em julho de 1982, a convite de Jack Lang, Ministro da Cultura, cria o Centre National de la Photographie (CNP, Centro Nacional de Fotografia), no Palais de Tokyo, que dirige até 1996, no l’hôtel Salomon de Rothschild. No CNF realiza 160 exposições e criou a primeira coleção de livros de bolso dedicados à fotografia, a Photo Poche, lançando 68 títulos; hoje conta com mais de 150, é a coleção de fotografia mais vendida no mundo. Foi vencedora do Prix Nadar em 1984 e do ICP’s Infinity Award em 1985, é a “mais bem sucedida colecção de livros de fotografia de sempre”: monografias que “iniciaram e ajudaram a formar sucessivas gerações na fotografia”, nas palavras de Liz Jobey, jornalista especializada em fotografia do Financial Times. Com a sua saída do CNP, a Photo Poche passou para a Nathan, continuando sob a sua direção e, em 2004, para a Actes Sud. O CNP foi entretanto renomeado Galerie Nationale du Jeu de Paume.
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L’éditeur français Robert Delpire pose pour une photo lors de son exposition à la Maison Européenne de la Photographie, à Paris, le 27 octobre 2009 [junto da coleção Photo Poche]. (© Yuweixinhua/Gamma Rapho)
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Em 1988 cria o Henri Cartier-Bresson Award para ajudar fotógrafos a concretizar os seus projetos, que de outro modo não seria possivel. Chris Killip, Josef Koudelka e Larry Towell são alguns dos contemplados. Delpire funda em 2002 a Fondation Henri Cartier-Bresson, integrando o quadro consultivo até à sua morte.
Foi também o diretor artístico da L’Oeil magazine durante oito anos e foi diretor artístico da galeria Fait & Cause, especializada em questões sociais (Jacob Riis, Atwood, Doisneau..), organizou e apresentou exposições para grandes museus do mundo.
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Josef Koudelka, French publisher Robert Delpire with French photographer Sarah Moon. Paris, France. 2000. (© Josef Koudelka | Magnum Photos)
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A Maison Européenne de la Photographie, de Paris, organizou em 2009 uma exposição retrospectiva da sua obra, Delpire & Co, que estreou nos Encontros de Fotografia de Arles e foi vista em Paris ainda nesse ano e em Nova Iorque em 2012.
Em 1997 foi agraciado pelo International Center of Photography (ICP) com o ICP’s Infinity Awards for Lifetime Achievement, prémio de reconhecimento pela sua carreira.
Robert Delpire manteve-se sempre ativo na Delpire Éditeur, mesmo desde 2012, quando passou a integrar o grupo independente Libella.
Edito, logo vivo. Tenho o mesmo prazer que tinha há décadas na criação de livros e a fazer exposições”,
diria então sobre a sua grande paixão. Já em 2017, publicou C´est de voir qu’il s’agit, um livro que seguindo o abecedário, compila diversos textos sobre fotografia, sobre fotógrafos e sobre os mais diversos aspectos da edição de fotolivros. “Ver”, a entrada que escolheu para a letra V, “a palavra que, de forma desarmante e despretensiosa, talvez resuma melhor a sua actividade de mais de seis décadas a trabalhar com a fotografia, muito para além da página impressa.”
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Sarah Moon, Robert Delpire
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Delpire “insistia na necessidade de aprender a ver, de todos os dias reaprender a ver, mesmo. Refletir sobre a imagem era para ele «uma urgência absoluta»”, refere Clémentine Mercier no Libération. Acrescenta: “Tornou-se o editor, sem dúvida o mais influente apresentador de olhares da segunda metade do séc. XX.”
“Eu não tenho o olho cansado. Uma sorte.”, dizia.
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Sarah Moon, Robert Delpire
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Christian Caujolle, foi fundador da agência e galeria VU’ e foi diretor de fotografia do jornal Libération, partilhou a sua vivência com Robert, no site da editora Delpire:
Diz-se que era um olho, o que é inegável, mas era acima de tudo um caráter, que estava profundamente ligado a ele. Um caráter feito de firmeza, fidelidade ao que era importante para ele e que lhe parecia evidente e de curiosidade, essa curiosidade que não admite nenhuma pretensão, mas permite-lhe evoluir, não ficar preso em pontos de vista. Lembro-me de tantos momentos difíceis quando, no momento em que foi o primeiro diretor do Centre National de la Photographie, que queria que Jack Lang criasse para os jovens o prémio “Menos de Trinta”, nós fomos confrontados no momento de expôr no Palácio de Tóquio com jovens autores premiados com quem trabalhei, e que ele não apreciava tanto quanto o seu entusiasmo quando, recebendo Michael Ackerman, que eu lhe havia enviado de véspera, ele imediatamente decidiu publicar End, Time, City.
Eu não o conhecia e aprendi um pouco de fotografia folheando e comprando livros nos alfarrabistas dos cais do Sena e no Marché des Puces, em Clignancourt e foi num número da revista Neuf que eu descobri Brassaï, nos pequenos formatos – já – das Danses à Bali de Henri Cartier-Bresson e Les Parisiens tels qu’ils sont de Robert Doisneau, que me interroguei sobre o que significa o formato de um álbum, é folheando Brassaï em Sevilha, HCB em Moscovo ou na China, René Burri na Alemanha, Inge Morath no Irão e tantos outros, que eu aprendi o que era uma história fotográfica e como um ponto de vista se transforma em narração.Naturalmente, nestes momentos de tristeza, é com estas cumplicidades que eu penso, com aquele que, ao longo dos anos, nos reuniu em torno da função dos textos nos livros de fotografia. Pensamentos que fazem vir à memória em torno dos livros de Sarah Moon, incluindo a amorosa bíblia em cinco volumes, com caixa (12345) ou os seus Vrais Semblants então justos, a Josef Koudelka e as etapas dos Gitans e de Exils, fonte de trocas, de tensões, de paixão. Lembro-me dessa fidelidade a William Klein ou a Robert Frank, independentemente dos caprichos da vida e das distâncias, a generosidade que tornou a procura da qualidade sempre mais importante do que a gestão, das coisas e dos negócios. Lembro-me, sim, eu lembro-me dessas grandes exposições no Palais de Tokyo que o jornalista do Libération que eu era então esperava como a certeza das descobertas e da demanda. E pois, mais tarde, descobri a proximidade com os ilustradores, a profundidade de amizade com André François, com André Martin, as sagas publicitárias, Citroën e aqueles anos de grandeza gráfica.Bob [como também era conhecido Robert], que passou os últimos dois anos finalizando os seus magníficos herbários, deixa-nos – deixa ao mundo inteiro – a coleção Photo Poche, a mais vendida do mundo, sonho de biblioteca ideal para a fotografia. O seu excelente trabalho com os seus títulos emblemáticos. Hoje, é um outro livro que eu quero convocar para lhe dizer adeus, um pequeno livro panorâmico, oblongo, terno e poético, publicado em 1956 sob a assinatura de André François, uma pequena maravilha intitulada: Les larmes de crocodile.”
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Pode ler sobre Robert Delpire no site da editora Delpire, aqui, do L’Oeil de la Photographie, aqui e no site da Magnum, aqui.
Pode ler ainda no jornal Público, o artigo de Sérgio B. Gomes, aqui; no British Journal of Photography, aqui; e o texto de Clémentine Mercier, no Libération, aqui.
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