VALTER VINAGRE, CARTA DO SENTIR, 2001

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Valter Vinagre

Carta do sentir

Fotografia: Valter Vinagre / Texto: Maria Armandina Maia

Autor / 2001

Português e inglês / 23,2 x 20,9 cm / 64 pág., não numeradas

Brochura / 500 ex.

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Valter_Vinagre-Carta_do_Sentir (1)

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“Ao fundo abre-se uma porta sem saída,

A porta do amparo na sua dureza:

Os derradeiros traços da paisagem perdida (…)”

José Viale Moutinho, citado por Maria Armandina Maia

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Caro Valter

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Estive a ler – ou a ver – as fotografias vêem-se – ou lêem-se – a tua Carta do Sentir.

Abres, antes que tudo, com aquela fotografia do colchão abandonado, uma cama meia desfeita: o lençol espalhado pelo mato, uma almofada, também ela, abandonada. É uma fotografia a cor, a única fotografia a cor do livro.

(Virias depois a mostrá-la noutra série, centrada na degradação deste colchão e deste lençol e desta almofada, ao longo do tempo, dessa vez a preto e branco, “Da Natureza das Coisas”. Como se a degradação aqui não fosse já ela grande!…)

Depois, o texto da Maria Armandina Maia. Também o li.

Pergunto-me por onde andaste para as colheres, assim, despojadas e nuas de qualquer pose fotográfica, sem uma única linha fora do lugar em que nasceram. Percorro contigo estes caminhos, entre ravinas e despenhadeiros, um mundo que ninguém vê a não ser que traga olhos na alma, na lama, no coração, capaz de se partir por um galho de árvore quebrado antes do seu tempo ter chegado. …”

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Continuas depois com imagens a preto e branco. Isoladas, sozinhas. Cada uma em cada fólio, na página impar, para que o olhar se pouse, não se distraia.

Tens as giestas.

E aquela almofada, em forma de coração, ferida, magoada, presa numas giestas.

E a mala de viagem, caída, aberta, desfeita. A mala de mão perdida. E o sapato, um apenas. A roupa. No chão de terra entre as ervas. Espalhado, perdido, abandonado.

Está também um sofá velho. Colocado, abandonado, frente à paisagem.

E as bonecas…

OLHA

… magoadas, partidas, de braços arrancados, caídas, perdidas, mergulhada numa água parada, pregada a uma árvore como uma cruz…

Um ramo de flores numa árvore é um testemunho

para

alguém que ali morreu

… e quanto foi morrendo ao longo dos momentos que as tuas fotografias mostram.

As próprias flores serão abandonadas.

Ficam os caminhos, algumas marcas, uns troncos ou galhos destacam-se na paisagem, quais testemunhas silenciosas.

A tua Carta…

do Sentir

Quanta dor atravessa a tua Carta…

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Quantas mulheres estão presentes na sua ausência.

Quantas crianças estão presentes na sua ausência.

Encontraste-os na sua ausência no teu caminho, percorrido entre matos e montes, longe de tudo e de todos.

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Fotografaste este trabalho entre outubro de 1999 e julho de 2001. Como dirias mais tarde, em

Carta do Sentir, tentei encontrar respostas à inquietação causada pelas guerras civis na ex-Jugoslávia e também no Ruanda. Tinha havido um pico de assassínios de mulheres em Espanha. Desenvolvi um trabalho ao longo de dois anos que resulta de interrogações e estas têm sempre a ver com causas.”

Como esta dor está na tua carta!

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Um abraço

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Valter Vinagre, Carta do Sentir, 2001

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O livro foi publicado por Valter Vinagre, por ocasião da sua exposição Carta do Sentir, realizada na galeria do Palácio da Quinta da Piedade, em Póvoa de Santa Iria, em novembro de 2001, por ocasião da Bienal de Fotografia de Vila Franca de Xira.

Valter Vinagre foi Grande Prémio da Bienal de Fotografia de 1999.

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Este livro insere-se na “Trilogia da Dor”, de Valter Vinagre: OLHA – para – Carta do Sentir, sendo cada projeto desenvolvido ao longo de vários anos: “OLHA” foi publicado em 2011, “para” em 2006 e “Carta do Sentir” em 2001.

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Pode ver no Fascínio da Fotografia, “Da Natureza das Coisas”  aqui, “OLHA” aqui, “para” aqui e outros projetos de Valter Vinagre  aqui.

Pode ver o site do Autor aqui.

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