MATTEO LOSURDO, A JANELA AINDA EXISTE

Exposição na Casa da Escrita, em Coimbra, de 30 de setembro a 30 de outubro de 2026.

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Este projeto fotográfico centra-se nas Repúblicas de Coimbra, casas estudantis autogeridas, com uma longa história na cidade, propondo uma reflexão sobre o direito à habitação, a vida comunitária e a preservação deste património social e cultural.

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“A janela ainda existe” de Matteo Losurdo

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Há qualquer coisa de profundamente significativa na frase que dá título ao projecto de Matteo Losurdo — «Temos sorte que no quarto de cima a janela ainda existe». Aparentemente simples, quase doméstica, ela contém uma forma particular de relação com o tempo. A janela é aquilo que permaneceu quando tantas outras coisas poderiam ter desaparecido. Não se trata, porém, de uma permanência absoluta. A janela existe porque alguma coisa mudou à sua volta, porque a casa foi habitada, transformada, atravessada por diferentes pessoas e gerações. O que permanece só pode ser percebido a partir daquilo que se perdeu, se alterou ou deixou marcas.

O projecto constrói-se em torno de várias casas e, através dela, em torno da ideia das Repúblicas, em Coimbra, enquanto forma de habitação colectiva. «Uma República é, no fundo, uma colagem, uma manta de retalhos, cada geração, cada pessoa, cada frase escrita nas paredes».

A imagem da colagem é particularmente reveladora, uma República não aparece como uma comunidade homogénea, mas como uma sobreposição de tempos, personalidades, objectos, hábitos, histórias e inscrições. Cada pessoa acrescenta alguma coisa à casa, mas a casa também transforma aqueles que nela vivem. «The people make the house and the house makes the people» condensa essa reciprocidade, deslocando a arquitectura de uma condição meramente física para uma dimensão profundamente humana.

A casa torna-se, assim, uma espécie de arquivo habitado. Mas não um arquivo organizado segundo uma lógica de conservação. Pelo contrário, é um arquivo instável, feito de ruídos, gestos, objectos, paredes, encontros e esquecimentos. Há coisas que ficam porque ninguém as retirou, outras porque foram repetidamente utilizadas, outras ainda porque adquiriram, sem intenção prévia, o estatuto de vestígio. A janela pertence a esta última categoria. A sua existência não é apenas material, ela é também narrativa. Pode ser vista, fotografada, lembrada e transformada em testemunho de uma continuidade que não é linear.

«O meu Erasmus foi feito entre estas quatro paredes e entre as quatro paredes das outras Repúblicas». A experiência individual dissolve-se então numa geografia mais ampla de quartos, casas e comunidades temporárias. A casa deixa de ser apenas o lugar onde se vive para se tornar o lugar onde uma determinada forma de juventude, aprendizagem e sociabilidade se produz.

Há também uma dimensão sonora nessa memória. «Quando alguém está a descer as escadas, tu já sabes quem é pelo ruído que faz». Antes de ser reconhecida pelo rosto, a pessoa é reconhecida pelo som que produz ao atravessar a arquitectura. A casa transforma-se num instrumento de reconhecimento. As escadas, as portas, os quartos e os corredores acumulam uma espécie de cartografia acústica dos seus habitantes. O espaço deixa de ser neutro porque aprendeu os corpos que o atravessaram.

É talvez por isso que uma das frases mais fortes do projecto afirma que «o tempo desaparece nas Repúblicas». Não significa necessariamente que o tempo deixe de passar. Talvez signifique antes que, naquele tipo particular de comunidade, o tempo cronológico se torna difícil de distinguir do tempo da experiência. Os dias repetem-se, as pessoas chegam e partem, os quartos mudam de ocupante, os objectos desaparecem ou permanecem, mas certas experiências parecem escapar à sucessão ordenada dos acontecimentos. O tempo fica depositado nas coisas.

A República surge ainda como uma espécie de «alucinação colectiva», precisamente porque a intimidade pode produzir vínculos que não obedecem à genealogia familiar. «Tratamo-nos como família, mas há pessoas que não conheço de nada. Também eles trato como família». A expressão contém uma contradição essencial. A família aqui não é uma origem, mas uma construção provisória. É produzida pela proximidade, pela convivência e pela repetição dos pequenos acontecimentos. Uma família que não se herda, mas que se inventa.

Nesse sentido, o projecto de Matteo Losurdo parece aproximar-se menos de uma representação documental de uma casa do que de uma tentativa de tornar visível aquilo que uma casa guarda sem necessariamente conservar. A fotografia pode então funcionar como uma forma de escuta. Não apenas regista espaços, mas procura perceber o que neles permanece depois de os acontecimentos terem passado. Uma parede pode conter uma frase, uma escada pode conservar um ruído imaginado, uma janela pode transportar a memória de quem a abriu ou fechou inúmeras vezes.

A dimensão política destas casas emerge de forma particularmente interessante quando a República é descrita como o lugar onde «um pedreiro, um filósofo e um matemático» se sentam à mesma mesa. A comunidade nasce justamente do encontro entre diferenças que, fora daquele espaço, tenderiam a permanecer separadas. Não há aqui uma ideia abstracta de igualdade, mas uma experiência concreta de coexistência. A mesa, como a casa, torna-se dispositivo de aproximação.

Talvez seja também por isso que a presença da Revolução de 25 de Abril no projecto adquire uma ressonância particular. O poema de Sophia de Mello Breyner Andresen fala da revolução como «casa limpa», «chão varrido», «porta aberta», «puro início», aproximando a transformação política da possibilidade de construir uma nova habitação. A arquitectura torna-se metáfora de uma comunidade que se refaz. Mas, no projecto de Losurdo, essa ideia de começo convive com a consciência de que nenhuma casa começa verdadeiramente do zero. Há sempre paredes anteriores, pessoas que já passaram, objectos que ficaram, frases inscritas, hábitos transmitidos.

É nesse intervalo entre começo e permanência que a janela adquire a sua força. «A janela ainda existe» é uma frase sobre sobrevivência, mas também sobre transformação. O que resta não é necessariamente aquilo que foi preservado de forma deliberada. Pode ser justamente aquilo que resistiu à passagem das pessoas, das gerações e das circunstâncias. A janela continua a abrir-se para o exterior, mas também devolve à casa aquilo que está fora dela. É fronteira e passagem, abertura e limite, lugar de observação e superfície onde o interior se torna visível.

O projecto parece habitar precisamente essa zona intermédia. Entre a casa e quem a habita, entre memória e esquecimento, entre aquilo que aconteceu e aquilo que ainda pode ser contado. As histórias que surgem – algumas profundamente afectivas, outras banais, cómicas ou quase absurdas, como a história dos móveis que acabam na rua depois de uma bebedeira – recusam uma memória monumental. A República sobrevive também nestes acontecimentos menores, nas frases que poderiam desaparecer sem deixar rasto, nos episódios que só fazem sentido para quem esteve lá.

Talvez a janela exista precisamente por isso. Porque uma casa não é feita apenas daquilo que a arquitectura consegue conservar. É feita também de tudo aquilo que, durante algum tempo, passou por ela e que, depois de desaparecer, continua a produzir uma espécie de presença. Uma janela aberta para uma casa que já não é exactamente a mesma. Ou talvez para uma casa que nunca deixou de se transformar enquanto continuava, de algum modo, a ser a mesma. E é possível que, algures no andar de cima, ainda exista uma janela.

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Susana Paiva

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Matteo Losurdo, A janela ainda existe

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Um habitante de uma República contou aos autores do projeto que uma das janelas estava partida, mas que, no quarto de cima, ainda havia outra. A frase ficou na memória. E acabou por se transformar numa metáfora para a possibilidade de continuar a existir uma vida comunitária e para a procura de alternativas no acesso à habitação.

O projeto foi desenvolvido com o apoio de uma bolsa do Ministério da Cultura italiano, no âmbito da Strategia Fotografia 2025; cruza fotografia contemporânea e investigação histórica.

O projeto reúne imagens realizadas atualmente nas Repúblicas com fotografias de arquivo das próprias casas e do Museu Académico de Coimbra, complementadas por textos e citações. O trabalho foi desenvolvido através de um processo participativo, em colaboração com os habitantes das Repúblicas. A exposição conta ainda com a colaboração das Repúblicas de Coimbra e dos seus habitantes, da Casa da Escrita, do Museu da Ciência e do Museu Académico da Universidade de Coimbra.

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Aspetos da exposição, 2026

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A exposição “A Janela Ainda Existe”, de Matteo Losurdo, com curadoria de Marta Blanchietti, está patente na Casa da Escrita, na R. João Jacinto, 8, em Coimbra, de 30 de setembro a 30 de outubro de 2026 (2.ª a 6.ª feira, 09:30–12:30 e 14:00–18:00).

O livro “A Janela Ainda Existe”, de Matteo Losurdo, será publicado pela Pierrot le Fou, em 2027.

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António Bracons, Matteo Losurdo, Lisboa, 09.2026

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Matteo Losurdo (Milão, 1992), vive em Veneza, Itália.

É licenciado em Arquitetura pelo Politécnico de Milão, onde apresentou uma tese intitulada The Space of the Spirit, centrada na relação entre o espaço arquitetónico e a necessidade espiritual.

Trabalha como fotógrafo profissional na área da documentação de arquitetura, interiores e installation views. Paralelamente, desenvolve uma investigação fotográfica pessoal, explorando a relação entre o ser humano e o espaço, natural e antropizado, com particular atenção ao espaço doméstico.

Trabalha com o Kublaiklan Collective (aqui).

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Pode conhecer mais sobre a obra de Matteo Losurdo, aqui.

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Cortesia: Susana Paiva, Matteo Losurdo

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