ANA PAGANINI E INÊS GONÇALVES, A PROVA DO TEMPO
Exposição na Lumina Galeria, em Lisboa, de 7 de fevereiro a 28 de março de 2026.
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DOIS TEMPOS
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O título desta exposição de Ana Paganini e Inês Gonçalves, A Prova do Tempo, remete para aquilo que é uma das principais características da fotografia: cada imagem capta o agora, quando, em todas as ocasiões, aquilo que é fotografado sucede a um momento passado, que foi aquele que primeiro prendeu o olhar. A fotografia vive nestes dois tempos. Como poderão ver nas quatro séries que integram esta exposição de Ana Paganini e Inês Gonçalves, as duas fotógrafas fazem ver aquilo em que muitas vezes não se repara. “Não tenho uma filosofia, tenho uma câmara”, afirmava Saul Leiter, o grande fotógrafo norte-americano. Esta é uma frase que sintetiza aquilo que muitos fotógrafos têm dito: a máquina é apenas uma ferramenta do olhar, que fixa um momento. Na realidade, fotografar é reinterpretar aquilo que se vê.
As duas fotógrafas abordaram os mesmos temas: o mundo dos touros e das touradas e o ritual das procissões religiosas. Como podem ver nesta exposição da Lumina, fazem-no de forma diferente, cada uma com um olhar muito próprio. Inês Gonçalves fez estas fotografias ao longo dos anos 90 e Ana Paganini fotografou duas décadas depois, de 2018 para cá. Também esta diferença de tempos se relaciona com o próprio título da exposição, mostrando como, mesmo num significativo desfasamento temporal, há muitos pontos comuns. A este propósito gosto particularmente de uma ideia descrita por Susan Sontag: “a fotografia é testemunho”.
No mundo dos touros, Inês Gonçalves mostra em Toureiros sobretudo o que se passa antes da tourada, enquanto em Toiros de Morte Ana Paganini fixou o que se passa na corrida, dentro da praça de touros. São dois momentos do mesmo mundo e o segundo não vive sem o primeiro. Para além do contraste entre as imagens, as de Inês Gonçalves, predominantemente a preto e branco (na altura foram publicadas na revista Kapa), e as de Ana Paganini, predominantemente a cor, quase tudo poderia ter sido fotografado na mesma época, evidenciando o peso do tempo como guardião das tradições. Nas séries dedicadas às procissões existe também esta afinidade, que se sente na forma como a solenidade do ritual é vivida. Inês Gonçalves, que deu o nome Portugal a este trabalho, fotografou nos Açores, e a maior parte destas suas imagens são inéditas. Ana Paganini fotografou no Norte do país e, também, numa procissão realizada na Praia das Maçãs, registando aí um invulgar cenário de devoção. Esta sua série tem o título genérico Jesus’ Blood Never Failed On Me Yet e uma das fotografias ganhou um prémio e foi exposta na National Portrait Gallery, de Londres. Ana Paganini e Inês Gonçalves trabalharam, com duas décadas de diferença, temas semelhantes. Cada uma no seu tempo.
A Prova do Tempo é um nome particularmente adequado – as fotografias de Inês Gonçalves testemunham uma época e resistiram bem às quase três décadas que levam; e as fotografias de Ana Paganini levam-nos a compreender o que mudou para permitir a permanência das tradições. As duas fotógrafas acabam assim por, em tempos diferentes, estabelecer um diálogo entre o que observaram e retiveram. Afinal, o que é o tempo, senão a semente da memória? Miguel Esteves Cardoso tem, sobre o passar do tempo, uma frase que podia ser a legenda desta exposição: “Tudo é passado nas nossas vidas. O presente é apenas um poleiro com rodas, que o vento vai empurrando cada vez para mais longe.”
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Manuel Falcão, Janeiro de 2026
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Ana Paganini & Inês Gonçalves, Inês Gonçalves & Ana Paganini
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A Prova do Tempo nasce de uma proposta curatorial da Lumina Galeria que coloca em diálogo dois corpos de trabalho fotográfico autónomos, realizados em momentos distintos, mas atravessados por um território simbólico comum: a representação de traços da identidade portuguesa através dos seus rituais, pagãos e religiosos. Inês Gonçalves, nascida na década de 1960, e Ana Paganini, nos anos 1990, desenvolveram projectos independentes que, quando colocados em relação, revelam inesperados pontos de contacto temáticos, formais e simbólicos.
Esse encontro manifesta-se, desde logo, na festa brava. Curiosamente, ambas as fotógrafas registaram, com a mesma idade — 30 anos —, protagonistas deste universo: Inês Gonçalves fixou os toureiros a pé e o ambiente dos ganadeiros; Ana Paganini acompanhou os forcados e procurou, por outro lado, dar visibilidade à participação da mulher no toureio a cavalo. Em paralelo, partilham um interesse profundo pelas festas religiosas populares, pelas procissões e romarias. Em ambos os contextos, o que está em jogo é o corpo submetido a uma ordem simbólica maior, onde o indivíduo se inscreve numa tradição que o antecede e o ultrapassa.
A exposição propõe, assim, um diálogo entre duas tradições seculares do ser português. A festa brava e a festa religiosa estruturam-se como rituais codificados, inscritos num tempo suspenso. Se a primeira encena o confronto entre o ser humano e a natureza indomada, num exercício de risco, coragem e domínio, a segunda constrói uma relação de negociação com a fé, mediada pela devoção e pela esperança de redenção. Ambas activam uma memória colectiva profunda e expõem tensões sociais, éticas e culturais que atravessam a história portuguesa.
Ao longo da história da arte e da fotografia, estes rituais foram recorrentemente abordados como expressões extremas da condição humana. Para Pablo Picasso, a tourada era um «bailado de arte e coragem», lugar onde criação, violência e sacrifício se cruzam, condensados na afirmação simbólica «El toro soy yo». Por outro lado, Cristina García Rodero documentou, ao longo de quinze anos [o projecto teve início em 1973], festividades e procissões religiosas populares em Espanha, reunidas em España Oculta, obra fundamental da fotografia documental. Estes antecedentes inscrevem o trabalho de Inês Gonçalves e Ana Paganini numa linhagem visual onde o sagrado e o profano coexistem, e onde a fotografia se afirma como instrumento de memória, interpretação e questionamento cultural.
Reunindo dois olhares de extrema sensibilidade e rigor estético, A Prova do Tempo não procura fixar uma leitura definitiva da tradição, mas antes abrir um campo de reflexão. Ao se encontrarem neste território expositivo, as obras de Ana Paganini e Inês Gonçalves revelam como o legado cultural se constrói no tempo, no corpo e no olhar — num equilíbrio subtil entre permanência e transformação, entre continuidade e reinvenção.
A acompanhar estes trabalhos teremos no Le Mur – um território de encontro entre a fotografia e outras práticas artísticas com curadoria de Rute Reimão – a instalação de Sebastião Castelo Lopes O som de fazer o último poema, uma obra em que a parede deixa de ser superfície de reflexão para se tornar resistência.
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António Bracons, Aspetos da exposição, 2026
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A exposição de Ana Paganini e Inês Gonçalves, “A Prova do Tempo”, está patente na Lumina Galeria, na Rua Actor Vale 53 A (Alameda), em Lisboa, de 7 de fevereiro a 28 de março de 2026 (quarta a sexta 15:00-19:00, sábado até às 20:00).
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Ana Paganini (Lisboa, 1995) começou a fotografar aos 8 anos, com o pai, que era fotógrafo documental. De 2014 a 2018 estudou Cinema Documental no London College of Communication na University of the Arts London, onde se especializou em direcção de fotografia.
Em 2019 começou a documentar festividades religiosas e procissões que o seu próprio pai tinha fotografado em Trás-os-Montes entre 1970 e 2000. Nos projectos documentais que desenvolve são investigados os temas da memória, em particular os temas da memória pessoal e colectiva e da identidade e tradições culturais. Ana Paganini divide o seu tempo entre a fotografia de cena de filmes, projectos autorais e documentais e a fotografia de eventos. Além disso, gere o arquivo fotográfico do pai.
As imagens de Ana Paganini atravessam ainda o fotojornalismo e a moda, com trabalhos em publicações como o ZEIT, British Journal of Photography, The New York Times, The Financial Times, Le Monde Diplomatique, Marie Claire France, The Nature Journal e Público e marcas como a Hermès, Fenwick e Soho House, entre outros.
Colabora habitualmente com instituições como a Fundação Aga Khan, a Fundação da Casa de Mateus, a Brotéria, o Palácio da Ajuda, a Fundação Nadir Afonso, o MAAT, a Fundação de Casas de Fronteira e Alorna, o Goethe-Institut e a Fundação Eça de Queiroz.
Em 2023 foi seleccionada para o Prémio Taylor Wessing Photo da National Portrait Gallery em Londres, onde ganhou o Prémio do Público. Em 2024 foi nomeada para o Prémio Leica Oskar Barnack, de fotografia de reportagem. Expõe regularmente, em individuais e colectivas, tendo apresentado o seu trabalho em Inglaterra, Portugal e na Alemanha.
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Inês Gonçalves (Málaga, 1964) é fotógrafa, realizadora e produtora. Estudou Fotografia no Photographic Training Center em Londres (1985-88) e, de 1988 a 2004, trabalhou como fotógrafa e editora de fotografia em jornais e revistas como O Independente, Kapa e Público. Em 2004 frequentou o curso de Realização de Cinema Documental dos Ateliers Varan, Programa Gulbenkian de Criatividade e Criação Artística, e, em 2005, com Kiluanje Liberdade, fundou a produtora NO LAND Films.
O seu trabalho fotográfico foi apresentado em diversas exposições, está representado em colecções públicas e privadas e foi publicado em livro. Entre as obras publicadas, destaque para Cabo Verde, com texto de João Miguel Fernandes Jorge (1999); Goa: História de Um Encontro, com Catarina Portas (2001); Agora Luanda, em co-autoria com Kiluanje Liberdade e com textos de Delfim Sardo e José Eduardo Agualusa (2007); Moderno tropical – Arquitectura em Angola e Moçambique 1948-1975, em co-autoria com Ana Magalhães e com prefácio de Ana Tostões (2009), uma obra que recebeu o prémio DAM Architectural Book Award 2010; e 88/98, construído sobre a fotografia de moda que publicou em livros e catálogos neste período (2022).
No cinema, destaque para Pátria Incerta, co-realizado com Vasco Pimentel (2005); Luanda: Fábrica da Música, co-realizado com Kiluanje Liberdade (2008); Tchiloli: Máscaras e Mitos, co-realizado com Kiluanje Liberdade (2009). Foi directora de fotografia de Oxalá Cresçam Pitangas (2005/2006), com realização de Kiluanje Liberdade e Ondjaki, e realizadora de Na Terra Como no Céu (2010), A Minha Banda e Eu (2011) e 25 Anos dos Direitos das Crianças São Tomé e Príncipe (2014).
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Sobre a Lumina Galeria e esta exposição, aqui.
Pode conhecer melhor a obra de Ana Paganini no seu site, aqui e de Inês Gonçalves, aqui.
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