ALINE MOTTA, PONTES SOBRE ABISMOS

A série integra a exposição “Emotional Encounters” do Imago Lisboa Photo Festival, com curadoria de Elina Heikka, patente no MNAC – Museu Nacional de Arte Contemporânea / Museu do Chiado, em Lisboa, de 21 de novembro de 2025 a 01 de fevereiro de 2026.

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Em três salas sucessivas, o edifício Capelo do Museu do Chiado mostra-nos na exposição “Emotional Encounters”, com curadoria de Elina Heikka, 3 autoras que partem do retrato para a história sobre a vida: Aline Motta, que trago hoje, Sofia Yala e Yassmin Forte, que apresentarei em próximas publicações.

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Este é um projeto sobre a vida.

Se tudo que fazemos na vida é atravessar abismos, este projeto é sobre pontes. Pontes de palavras e imagens, pontes de busca por entendimento. Pontes sobre o Atlântico.

É um projeto que fala sobre a minha família, mas poderia falar também da sua.

A história se desenrola a partir de um segredo. Um segredo de avó para neta. O que é que na história de uma vida deve ser lembrado e o que deve ser esquecido? Como curamos traumas pessoais, familiares e coletivos?

Um segredo comunica algo indizível, mas se sou eu a portadora dele, devo revelá-lo? Sob que circunstâncias?

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Aline Motta

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Em Pontes sobre Abismos, a artista brasileira recorre a uma série de estratégias com o intuito de montar uma possível genealogia familiar sobre mulheres de quatro gerações. A pesquisa foi despoletada pela revelação da avó que lhe disse que nunca tinha conhecido o seu pai. O bisavô da artista era branco, filho adolescente dos patrões da sua bisavó negra.

Relatos de história oral, alguma documentação, arquivos familiares e exames de DNA recriam laços afro-atlânticos de parentesco, numa rota invertida do tráfico negreiro. A fotografia em três planos apresenta o chefe Iman Alhaji Mustapha Koker, do grupo étnico Mende, sentado em postura e trajes elegantes, enquanto segura orgulhosamente uma foto emoldurada de sua mãe, em frente a outra foto, desta vez da bisavó da artista, ampliada e hasteada em tecido.

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Aline Motta, Pontes sobre Abismos, 2017

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António Bracons, Aspetos da exposição, 2025

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A série de Aline Motta, “Pontes sobre Abismos”, integra a exposição “Emotional Encounters” do Imago Lisboa Photo Festival, com curadoria de Elina Heikka, que está patente no MNAC – Museu Nacional de Arte Contemporânea / Museu do Chiado, na Rua Capelo, 13 (entrada pela Rua Serpa Pinto, 4), em Lisboa, de 21 de novembro de 2025 a 01 de fevereiro de 2026 (3ª feira a domingo, 10h00 – 13h00, 14h00 – 18h00).

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Aline Motta nasceu em Niterói (RJ), em 1974, e mora em São Paulo. Combina diferentes técnicas e práticas artísticas em seu trabalho, como fotografia, vídeo, instalação, performance e colagem. De modo crítico, suas obras reconfiguram memórias, em especial as afro-atlânticas, e constroem novas narrativas que invocam uma ideia não linear do tempo.

Foi contemplada com o Programa Rumos Itaú Cultural 2015/2016, com a Bolsa ZUM de Fotografia do Instituto Moreira Salles 2018, com 7º Prêmio Indústria Nacional Marcantonio Vilaça 2019 e com o Prêmio PIPA 2024. Recentemente participou de exposições importantes como “Histórias Feministas, artistas depois de 2000” – MASP, “Histórias Afro-Atlânticas” – MASP/Tomie Ohtake, “Cuando cambia el mundo” – Centro Cultural Kirchner, Buenos Aires, Argentina e “Pensar tudo de nuevo” – Les Rencontres de la Photographie, Arles, França. Abriu sua exposição individual “Aline Motta: memória, viagem e água” no MAR/Museu de Arte do Rio em 2020. Em 2021 exibiu seus trabalhos em vídeo no New Museum (NY) no programa “Screen Series”. Em 2022 lançou seu primeiro livro “A água é uma máquina do tempo” pelas editoras Fósforo e Luna Parque Edições (finalista do prêmio literário Jabuti), abriu exposição individual no átrio do Sesc Belenzinho e na sala de vídeo do MASP. Em 2023, expôs na 15a. Bienal de Sharjah (EAU), no MoMA Museum of Modern Art (NY) em “Chosen Memories: Contemporary Latin American Art from the Patricia Phelps de Cisneros Gift and Beyond” e na 35a Bienal de Arte de São Paulo.

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Sobre a exposição “Emotional Encounters”, escreve a curadora, Elina Heikka:

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A nossa relação com fotografias antigas de família e álbuns fotográficos é profundamente emocional. Ao folhearmos velhas fotografias, somos confrontados com memórias boas e preciosas, mas também por vezes com questões dolorosas. Sobretudo quando a história familiar contém episódios difíceis ou silenciados, as fotografias despertam uma variedade de emoções contraditórias. Têm um poder especial de ativar a nossa mente. Podem persistir na memória como se exigissem uma resposta.

As três artistas presentes nesta exposição têm em comum o facto de parte essencial dos seus projetos serem antigas fotografias de família que elas encontraram. As fotografias e os arquivos motivaram-nas e constituem uma parte substancial das suas séries de trabalho. As artistas são Aline Motta, Sofia Yala e Yassmin Forte, cujas histórias familiares estão, de diferentes formas, marcadas pelo colonialismo português no Brasil, em Angola e em Moçambique.

Quando a brasileira Aline Motta soube que o pai desconhecido da sua avó era um jovem adolescente branco, filho do patrão, decidiu investigar a fundo a história da sua família. Como metáfora dos tempos do tráfico de escravos, Motta leva simbolicamente as fotografias dos seus familiares de volta às suas origens, em Portugal e na Serra Leoa. A série fotográfica de Sofia Yala documenta de forma simbólica o processo de investigação da artista, que procurou desvendar a história da sua própria família de origem angolana. Já o trabalho de Yassmin Forte retrata a complicada história de amor entre um pai que serviu no exército português e uma mãe moçambicana, marcada pelo legado das guerras coloniais.

Tipicamente, uma história familiar bem documentada e álbuns fotográficos volumosos, que abrangem várias gerações, são sinal de uma posição socioeconómica privilegiada, enquanto circunstâncias mais modestas correspondem a histórias familiares mais abertas, incompletas ou fragmentadas. O que une estas três artistas é o facto de o património visual das suas famílias ser fragmentado, aleatório, e frequentemente levantar mais perguntas do que respostas. Os arquivos e a investigação ajudam a desvendar alguns mistérios, mas, apesar de todos os esforços, a incerteza permanece.

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A exposição integra ainda, em salas sucessivas, as séries de Sofia Yala, “Type Here to Search” (2020) + “Body as an Archive” (2020-2021), no FF, aqui, e de Yassmin Forte, “This is a story of my family” (2022 – 2024), no FF, aqui.

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Pode conhecer mais sobre a obra de Aline Motta aqui.

A agenda da 7.ª edição do Imago Lisboa Photo Festival, 2025, no FF, aqui.

Sobre esta edição do Imago Lisboa Photo Festival, no seu site, aqui.

Sobre estas e outras edições do Imago Lisboa Photo Festival,  no FF, aqui.

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Cortesia: Imago Lisboa Photo Festival

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