AUGUSTO BRÁZIO, O BAIRRO

A exposição integra o Imago Lisboa Photo Festival, patente na Procurarte, em Lisboa, de 18 de outubro a 22 de novembro de 2025.

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Situada ao longo da antiga Estrada Militar — eixo defensivo oitocentista transformado em fronteira simbólica entre o centro e a periferia de Lisboa — emerge, na Reboleira, um território que espelha as contradições urbanas do século XX português. Com origem nas décadas de 1960 e 70, esta zona testemunha a construção de um urbanismo de urgência, nascido à margem do plano, fora da lei e da cartografia oficial.

Mais do que um conjunto de casas ilegais, este território foi palco de uma arquitetura da sobrevivência. As barracas, as construções auto erguidas, os materiais improvisados: tudo aponta para gestos de resistência num país em transição — entre o fim do império colonial e a promessa, nunca cumprida, da modernidade. Por aqui passaram dois grandes movimentos migratórios: primeiro, os que vinham do interior rural em busca de trabalho na capital; depois, os retornados das ex-colónias africanas, fugindo da guerra e do colapso do projeto imperial. Encontraram, ambos, um vazio urbano onde erguer a sua presença — um vazio deixado pelo Estado, que nunca chegou verdadeiramente à periferia.

A Reboleira não é um lugar perdido; é um espaço persistente. Hoje, algumas casas ainda resistem, esparsas na malha urbana em mutação. São vestígios materiais de um tempo que a cidade tentou apagar, mas que continua a interpelar-nos. Essas estruturas precárias, por vezes invisibilizadas, são monumentos involuntários de uma memória insubmissa — não apenas da pobreza, mas da urgência de quem, diante do abandono, construiu vida.

Neste território fragmentado, a cidade revela a sua face mais crua: a da desigualdade inscrita no espaço. E é precisamente nessa fratura — entre o que foi negado e o que foi afirmado por pura necessidade — que a Reboleira se inscreve como um documento vivo, ainda que ferido, da história urbana contemporânea.

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Augusto Brázio, O Bairro

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A exposição de Augusto Brázio, “O Bairro”, integra o Imago Lisboa Photo Festival, patente na Procurarte, na Rua Neves Ferreira, 8B, Lisboa, de 18 de outubro a 22 de novembro de 2025.

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Na apresentação desta 7.ª edição do Imago Lisboa Photo Festival, Rui Prata, curador artístico, escreve:

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QUEBRAR O SILÊNCIO – CAMINHAR JUNTOS

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Na sua 7ª edição, o Imago Lisboa reafirma-se como um espaço plural de encontro e reflexão em torno da imagem fotográfica. Consolidado no panorama cultural de Lisboa — e com crescente reconhecimento nacional e internacional — o festival propõe-se, mais uma vez, não apenas como plataforma expositiva, mas como agente ativo no desenvolvimento da literacia visual e da compreensão crítica das artes visuais contemporâneas.

A edição de 2025 inscreve-se num contexto em que a prática fotográfica é convocada a pensar o mundo a partir da sua própria ontologia: o olhar, o registo, a memória, o silêncio. O tema curatorial — Quebrar o silêncio, caminhar juntos — convida à escuta e à partilha, num momento em que a convivência entre culturas e experiências se torna imperativa.

Portugal, enquanto território histórico de cruzamentos, encontros e deslocações, revela-se simultaneamente como espaço de acolhimento e de silêncio. A construção da nossa identidade coletiva foi, desde sempre, marcada pela presença do outro — os cruzados que povoaram os territórios conquistados, os estrangeiros que ocuparam as possessões ultramarinas, os migrantes que hoje respondem às necessidades de uma população em regressão. Este festival pretende, assim, abrir espaço para narrativas que foram historicamente silenciadas e promover uma escuta ativa dessas vozes.
A programação artística do Imago Lisboa 2025 articula-se em torno de um conjunto de exposições que propõem diálogos entre artistas consagrados e emergentes, de diferentes geografias e gerações. Estas exposições espelham a diversidade das práticas fotográficas atuais e são complementadas por um amplo programa de atividades: debates, oficinas, projeções, leituras de portfólios e conferências.

Numa estratégia de alargamento e fidelização de públicos, o festival promove ainda ações educativas nas bibliotecas municipais, com sessões dedicadas à História da Fotografia e conversas em torno da obra de artistas participantes — criando, assim, condições para uma descodificação mais sensível e informada das suas narrativas visuais.

Por fim, numa abordagem mais lúdica e experimental, o Imago Lisboa propõe oficinas abertas a jovens, seniores e famílias, onde se exploram formas alternativas de fazer e pensar a fotografia. Porque é também na brincadeira, no gesto e no improviso que se quebram silêncios e se criam novos caminhos partilhados.

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Pode conhecer melhor a obra de Augusto Brázio no FF, aqui; no site do artista, aqui.

A agenda da 7.ª edição do Imago Lisboa Photo Festival, 2025, no FF, aqui.

Sobre esta edição do Imago Lisboa Photo Festival, no seu site, aqui.

Sobre estas e outras edições do Imago Lisboa Photo Festival,  no FF, aqui.

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Cortesia: Imago Lisboa Photo Festival

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