ZANELE MUHOLI EM SERRALVES
Exposição na Fundação de Serralves, no Porto, de 9 de abril a 10 de outubro de 2025.
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Zanele Muholi, ativista visual e artista da África do Sul, retrata nas suas obras as vidas e experiências de pessoas negras LGBTQIA+ (Lésbica, Gay, Bissexual, Transgénero, Queer, Intersexo, Agénero, Assexual), tanto no seu país natal como em várias partes do mundo. Através da fotografia, e ao longo de vários anos, Muholi tem-se dedicado a dar visibilidade a comunidades frequentemente sub-representadas ou mal compreendidas, revelando as injustiças sociais e políticas a que estão sujeitas. Com uma obra que não deixa ninguém indiferente, é, sem dúvida, uma das figuras mais admiradas da atualidade, tendo participado em inúmeras exposições individuais e coletivas, incluindo bienais de prestígio como as de Veneza e Sidney.
Ao colocar as vivências e as lutas das comunidades negras e LGBTQIA+ no centro da sua prática artística, Muholi transcende o simples registo visual ou documental — na realidade, a sua obra questiona, inspira e reivindica o espaço que estas comunidades merecem no panorama global da arte e da sociedade. Além de retratar histórias de luta e resiliência, Muholi serve-se da câmara para criar autorretratos que exploram questões de raça e a força do olhar negro, entre os quais se destaca a célebre série Somnyama Ngonyama (Viva a Leoa Negra), que catapultou a sua obra para o reconhecimento internacional.
A exposição, organizada cronologicamente e estruturada em núcleos temáticos, acompanha o percurso de Muholi desde que começou a sua atuação como ativista, no início de 2000, até à atualidade. Com mais de 200 fotografias, representa a maior retrospetiva da sua trajetória até ao momento e assinala a primeira grande apresentação da sua obra em Portugal. Além de oferecer uma visão abrangente da prática de Muholi, a exposição revisita momentos marcantes da história da África do Sul, desde os anos sombrios do apartheid até à luta contínua pela igualdade e pelos direitos humanos. Em Portugal, onde o legado colonial continua profundamente enraizado na sociedade, esta mostra oferece uma oportunidade única para uma reflexão crítica sobre as implicações históricas e culturais da discriminação e opressão, enquanto nos lembra da urgência de debater questões como a identidade de género e cultural, a memória e a justiça social.
Muholi nasceu em 1972 e cresceu sob o regime do apartheid, um sistema político e social de segregação racial que garantiu o domínio da minoria branca sobre a maioria negra. Formalmente institucionalizado em 1948 pelo Partido Nacional, além de impor a segregação racial, este regime perpetuava discriminações de género e orientação sexual. Embora o apartheid tenha terminado oficialmente em 1994, com a transição democrática liderada por Nelson Mandela, e a Constituição de 1996 tenha sido um passo significativo ao proibir a discriminação baseada na orientação sexual, a comunidade LGBTQIA+ sul-africana continua a ser vítima de preconceito, crimes de ódio e violência de forma reiterada.
A obra de Muholi expõe as injustiças estruturais e históricas, celebrando simultaneamente a coragem, a alegria e a resiliência das comunidades que retrata. As suas imagens captam momentos de intimidade e os laços de união e solidariedade que caracterizam estas pessoas na sua luta conjunta. Em 2020, estendeu a sua prática artística à escultura — realizando algumas obras de grande escala, em bronze —, através da qual explora novas relações, nomeadamente entre o espaço público e privado.
Esta exposição, organizada pela Tate Modern, foi apresentada em prestigiadas instituições como o Gropius Bau, em Berlim; o Bildmuseet, em Umeå; o Institut Valencià d’Art Modern, em Valência; e a Maison Européenne de la Photographie, em Paris. Agora, encerra a sua itinerância no Museu de Serralves. A sua adaptação ao museu do Porto, que, refira-se, inclui uma seleção de novas fotografias, esteve a cargo de Inês Grosso, curadora-chefe, e de Filipa Loureiro, curadora, e contou ainda com a colaboração do atelier de arquitetura Ventura Trindade e a coordenação de Giovana Gabriel. (…)
Por último, é importante referir que, em 2023, o Museu de Serralves adquiriu um dos murais fotográficos de Muholi, apresentado pela primeira vez na inauguração da Ala Álvaro Siza. Esta aquisição, mais do que um acréscimo ao acervo, reflete o compromisso do museu não apenas com a sua obra, que se insere de forma coerente na programação da instituição nos últimos anos, mas também com as questões sociais e culturais que ela aborda. Zanele Muholi é uma voz incontornável na arte contemporânea e no ativismo social. A sua obra combate de forma ativa o preconceito e a discriminação e convida-nos a refletir sobre a urgência de uma sociedade mais inclusiva e equitativa. Esperamos que esta exposição também inspire novas perspetivas e diálogos necessários em matéria de igualdade, resistência e humanidade.
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Zanele Muholi: Bakhambile Skhosana, Natalspruit, 2010 – Skye Chirape, Brighton, United Kingdom, 2010 – Thembela Dick, Vredehoek, Cape Town, 2012 – Collen Mfazwe, August House, Johannesburg, 2012 – Miss Tee Menu, Parktown, Johannesburg, 2014 – Phila I, Parktown, 2016 – Xiniwe at Cassilhaus, North Carolina, 2016 – KaQso Kgope, Daveyton, Joahnnesburg, 2017 – Progress Selota II, Pretoria, 2017 – Bester VII, Newington, London, 2017 – Bester I, New York, 2019 – Fika I, Highpoint I, London, 2024
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A exposição de Zanele Muholi, “Zanele Muholi”, está patente na Fundação de Serralves, no Porto, de 9 de abril a 10 de outubro de 2025.
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Zanele Muholi nasceu em Umlazi, Durban (África do Sul), em 1972, e vive atualmente na Cidade do Cabo. É uma ativista visual, humanitária e artista dedicada a documentar e celebrar a vida das comunidades negras lésbicas, gays, bissexuais, transgénero, queer e intersexuais na África do Sul.
Muholi estudou fotografia avançada no Market Photo Workshop em Newtown, Joanesburgo, e obteve um mestrado em Belas Artes em Media Documentais pela Ryerson University, em Toronto. Muholi recebeu um doutoramento honoris causa pela Universidade de Liège, na Bélgica, e foi nomeada Professora Honorária de Vídeo e Fotografia na Hochschule für Künste em Bremen, Alemanha.
A partir de 2006, em resposta à discriminação e à violência permanentes a que está sujeita a comunidade LGBTQIA+ da África do Sul, fotografou lésbicas e pessoas transgénero negras, projeto que resultou na série de retratos em curso, “Faces and Phases” [Faces e fases]. Na série mais recente, “Somnyama Ngonyama” [Viva a leoa negra], volta a lente para si, tornando-se participante nas imagens que cria.
Em 2021, Muholi fundou o Muholi Art Institute (MAI), focado na educação artística, dando continuidade às missões das suas iniciativas anteriores, o Fórum para o Empoderamento Feminino e o Inkanyiso, um fórum online dedicado aos media visuais e queer. A artista também facilita o acesso a espaços de arte para jovens artistas através de projetos como o Ikhono LaseNatali e oferece workshops de fotografia para jovens mulheres e outros jovens na Cidade do Cabo via PhotoXP.
Muholi foi homenageada no evento de beneficência Spotlights do International Centre of Photography e recebeu, entre outros prémios, o Lucie Award for Humanitarian Photography, o Prémio Rees Visionary da Amref Health Africa, uma bolsa da Royal Photographic Society (Reino Unido), o título de Chevalier de l’Ordre des Arts et des Lettres, atribuído pelo Ministro da Cultura de França, o Prémio ICP Infinity de Documentário e Fotojornalismo, o Prémio Africa’Sout! Courage and Creativity, o Fine Award for Emerging Artists no Carnegie International de 2013 e em 2025, o prémio SCAD deFINE ART.
Muholi realizou exposições individuais em instituições como a Tate Modern, em Londres; o Museu de Arte Moderna, em São Francisco; a Galeria Nacional da Islândia, em Reiquejavique; o Gropius Bau, em Berlim; a Fundação Norval, na Cidade do Cabo; o Museu de Arte de Seattle; o Museu de Arte Moderna de Buenos Aires, na Argentina; a Luma Westbau, em Zurique; a Fotografiska, em Estocolmo; a Durban Art Gallery, na África do Sul; o Museu Stedelijk, em Amesterdão; e o Museu de Brooklyn, em Nova Iorque. A série “Faces and Phases” do artista foi apresentada no Pavilhão Sul-Africano na 55.ª Bienal de Veneza, na DOCUMENTA (13) e na 29ª Bienal de São Paulo.
Muholi expôs também o seu trabalho em “May You Live in Interesting Times”, na 58.ª Bienal de Veneza, e na exposição inaugural do Museu Zeitz de Arte Contemporânea de África, na Cidade do Cabo. Muholi produziu também um projeto urbano intitulado “Masihambisane — Sobre o Ativismo Visual” para a Performa 17, em Nova Iorque. Participou em inúmeras exposições coletivas internacionais, entre as quais a 22.ª Bienal de Sydney, o Museu Guggenheim, em Nova Iorque, o Museu de Fotografia Contemporânea, em Chicago, o Museu Guggenheim de Bilbau, em Espanha, o Luma Arles, em França, a Fundação Louis Vuitton, em Paris, o Museu Kulturhistorisk, em Oslo, na Noruega, e o Museu Amparo, em Puebla, no México.
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Pode ver no site da Fundação de Serralves, aqui.
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