JOÃO ANTÓNIO FAZENDA, VER CLARAMENTE VISTO

Exposição em Setúbal, na Casa da Avenida, de 5 de julho a 3 de agosto de 2025.

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Ainda não parei

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Fazer mais uma exposição dos meus trabalhos fotográficos é uma prova de vida. Já lá vão quase sessenta anos que fotografo o mundo que me rodeia, mas mais ativamente a partir dos anos setenta do século passado. E não parei ainda porque gosto de fotografar e tenho oportunidade de fazê-lo.

Mas anterior ao ato de fotografar está o ato de ver. O fotógrafo tem necessidade de ver. De ver “com olhos de ver”! Tal subentende ver com os olhos da sua mente ( a fotografia é também assim “cosa mentale”,como o era a pintura para Leonardo) e do seu coração. Não dizia Henri Cartier-Bresson que o ato de fotografar consiste em”… pôr no mesmo ponto de mira a cabeça, o olho e o coração?” É todo o ser do fotógrafo que vê e fotografa, caso o faça com tal intuito.

Fernando Pessoa, no Livro do Desassossego, escreveu que “o que nós vemos não é feito do que nós vemos mas do que nós somos”. Se isso é verdade para qualquer ser humano, mais verdade será para o fotógrafo. Este vê a realidade com o seu olhar e é essa que procura transmitir no seu trabalho.

Um fotógrafo amador, como eu o tenho sido, ao não trabalhar por encomenda ou por profissão, faz a fotografia que quer e pode, com toda a liberdade, dentro das normas.

É essa fotografia que vos trago a esta exposição. Não é ainda uma retrospetiva de vida, mas para lá caminha. Na minha idade, tendo já muito trabalho feito para trás, gosto de mostrá-lo ou voltar a fazê-lo, a par de obras novas.

Estando nós em plenas comemorações dos 500 anos do nascimento de Camões, embora seja sempre boa altura para o ler e dele falar, há uma atenção redobrada sobre a sua obra e eu vi-me a reler Os Lusíadas e a sua restante poesia.

Captou-me a sua “eminente capacidade visionária”, nas palavras de Eugénio de Andrade, para quem Camões, ”afinal este homem que deixou fama de desabusado, este pobre soldado raso que regressa de Ceuta a “manqueja(r) de um olho” (para o dizermos com terríveis palavras suas), que serviu na Índia, durante três lustros sem sequer ter ganho para a passagem de regresso à pátria, este homem que, segundo um dos seus primeiros biógrafos, ao morrer não tinha um lençol para mortalha, estava destinado a consolidar a Hierarquia com o seu Canto – o supremo ressoar das águas de todos os nossos mares e de todos os nossos olhos” (in Camões e as Altas Torres, prefácio de Versos e Alguma Prosa de Luís de Camões, Editorial Inova, Abril 1972).

A constante referência aos olhos por parte de Camões nos seus versos, a importância desse sentido entre todos os outros chamou-me a atenção. Para Camões é necessário “ver”, experienciar, para compreender os segredos escondidos do Universo, como as “cousas do mar que os homens não entendem” e que o Gama descreve no Canto V dos Lusíadas ao rei de Melinde, dizendo-lhe “Vi, claramente visto, o lume vivo/ Que a marítima gente tem por santo/…”.

Veio-me então à ideia dar precisamente este título – VER CLARAMENTE VISTO – a esta exposição, dado que em cada uma das minhas fotografias eu procurei fazer isso. Com os meus olhos e presumindo, como o Gama (a mando de Camões), que a vista não me enganava. Mas ciente também de que o meu olhar depende sempre do que sou e da minha experiência.

Por outro lado, a escolha deste título seria como que uma singela homenagem a Luís de Camões e ao seu Canto, o tal que é “o supremo ressoar das águas de todos os nossos mares e de todos os nossos olhos”.

A minha vida já vai comprida e a minha peregrinação aproxima-se do fim. Como compreendo Camões quando canta: “Oh, como se me alonga de ano em ano / A peregrinação cansada minha! / Como se encurta e como ao fim caminha / Este meu breve e vão discurso humano! /…”.

Eu sei, mas ainda não parei e esta exposição é prova disso. Nela apresento “ Pedaços de Mim”, de “Estratos” de vida, da peregrinação que me coube enquanto Homo Viator, “bicho da terra tão pequeno”. Do muito que recebi durante ela e quero partilhar. Desde uma juventude no Algarve, minha terra, até Setúbal, Lisboa, Bruxelas, o mundo.

Mas também reflexões sobre temas atuais como a imigração, a juventude, a liberdade de pensamento e de religião, a luta entre o amor e o ódio, a edificação de fronteiras, a presença constante da morte e muitas das reivindicações e das lutas a travar nos nossos dias. Sem esquecer que tudo devemos em Portugal, em termos de ideais democráticos, ao 25 de Abril, ideais que devemos prosseguir e concretizar.

Esta peregrinação foi até Finisterra, lá onde também “ a terra acaba e o mar começa”. Aí, pensei, outros destinos se abrirão aos peregrinos do presente e do futuro, inclusive a mim enquanto por cá caminhar. Esses destinos terão de ser diferentes, para melhor. Já o Papa Francisco, na sua Autobiografia, cita o profeta Joel, “os vossos idosos farão sonhos, os vossos jovens terão visões” (JL 3,1) e diz: “nos sonhos dos idosos há a possibilidade de os jovens terem novas visões de todos terem novamente futuro”.(,,,) É necessário saber sonhar e saber arriscar na vida: a vida é luta, é recusar o eterno compromisso da mediocridade. Por isso, recomendei muitas vezes, também aos jovens, que falem com os mais velhos. Se os idosos souberem sonhar, os jovens poderão profetizar. E, se os jovens não profetizam, falta ar à Igreja e à sociedade.”

Enquanto um desses idosos que sonha, trouxe uma reflexão final à exposição que pretende ser uma interpelação das crianças e jovens de hoje aos adultos de hoje: “Esta Terra também é minha! Lembrem-se!” É a voz da minha neta que eu ouço!

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João António Fazenda

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João António Fazenda, Namoro, Setúbal, 1971-74 – Os Olhos de Uma Criança, Lisboa, 1972 – Derrocada, Setúbal, 1971-74 – A Necessidade de Ver, Lisboa, 1971 – O Mundo dos Jovens, Guimarães, 2012 – A Fotografia, Gent, 2014 – Pelo Amor Humano!, Nova Iorque, 2025 – Pela Comunhão com a Natureza!, Nova Iorque, 2025

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A exposição de João António Fazenda, “Ver claramente visto”, está patente em Setúbal, na Casa da Avenida, na Av. Luísa Todi, 286, de 5 de julho a 3 de agosto de 2025.

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João António Fazenda

1947 Nasce em Faro

1962 Primeiras fotografias com uma Kodak de fole

1970 Adquire uma camara reflex Pentax em Hong Kong, na viagem de fim de curso

1970 Entra para sócio do Foto-Club 6×6, em Lisboa

1971/73 Membro da Direção do Foto-Club 6×6, depois APAF – Associação Portuguesa de Arte Fotográfica

1971 Primeira exposição individual – Genesis, Foto-Clube 6×6, a que se seguem Continuum (1974) e Vivências (1976), APAF – Associação Portuguesa de Arte Fotográfica

1971/80 Participa em numerosas exposições coletivas, de que se salienta a 1ª Exposição Luso-Brasileira de Fotografia, Évora (1972), Portugal Um Ano de Revolução 25 de Abril (1975), Inter-Foto Mallorca, Palma de Maiorca (1976), 2º Salão Inter-Associações Porto/Coimbra/Lisboa (1979), Fotografia Portuguesa Contemporânea – 1ºs Encontros de Fotografia de Coimbra (1980)

PERCURSO

1974/75 Curso de Fotografia dos Serviços Cartográficos do Exército

1971/94 Dá formação em fotografia em clubes juvenis, residências universitárias, Instituto Português de Fotografia, Polícia Judiciária, Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril

1971/77 Obtém prémios em concursos nacionais e internacionais de arte fotográfica (Igualada/Espanha, Zadar/ Jugoslávia, Rio de Janeiro, Lisboa, Setúbal, Estoril, Bragança, Silves, Zambézia/Moçambique, Póvoa do Varzim)

1980/2006 Não deixa de fotografar mas não expõe nem divulga (fase do Nim), com as únicas exceções da exposição Degrau a Degrau, Escola Superior de Teatro e Cinema, Amadora (1998) e do 1º prémio do Concurso IPL – Instituto Politécnico de Lisboa (2005)

2006 Retoma as exposições individuais – Da Necessidade de Ver, Escola Superior de Teatro e Cinema, Amadora

2006 Exposição Da Necessidade de Ver, Biblioteca Municipal de Portalegre

2007 Exposição O Eterno Retorno, Galeria de Arte Convento do Espírito Santo, Loulé

2007 Exposição Itinerâncias do Olhar, Galeria de Santa Clara, Coimbra

2008 Exposição Algarve – Da Luz e da Obscuridade, Reitoria da Universidade de Lisboa

2009 Exposição Experiência de Lisboa, Escola Superior de Teatro e Cinema, Amadora

2012 Exposição A Praia da Minha Vida – Fotografias da Ilha de Faro, Biblioteca Municipal de Faro

2013 Uma fotografia sua é selecionada para decorar a Biblioteca Municipal dos Coruchéus – Lisboa

2014 Exposição Alvalade debaixo de olho, Biblioteca Municipal dos Coruchéus, Lisboa

2014 Exposição Londres, Paris, Madrid: cidades inspiradoras, Centro Cultural Regional de Santarém – Forum Mário Viegas

2015 Exposição Inside Alvalade, Biblioteca Municipal dos Coruchéus, Lisboa (Lisbon Week)

2016 Exposição Travessia(s), Centro de Documentação do Edifício Central da Câmara Municipal de Lisboa

2016/17 Exposição A Cidade do Homem, Direção Geral da Administração da Justiça, Campus de Justiça, Lisboa

2018 Exposição Time Lapses – No Algarve a Parar o Tempo, Museu Municipal de Faro

2018 Exposição Time Lapses – No Algarve a Parar o Tempo, Biblioteca Municipal de Olhão

2018 Exposição O Pão Quotidiano, Escola Superior de Teatro e Cinema, Amadora

2019 Exposição Passo a Passo Lisboa é Infinita, Centro de Documentação do Edifício Central da Câmara Municipal de Lisboa

2019 Exposição Passo a Passo Lisboa é Infinita, Biblioteca Municipal dos Coruchéus, Lisboa

2020 Exposição Coisas Novas e Coisas Velhas, Espaço Artes do Politécnico de Lisboa

2022 Exposição Time Lapses – No Algarve a Parar o Tempo, Castelo de Silves

2022/2023 Exposição Time Lapses – No Algarve a Parar o Tempo, Museu Municipal de Arqueologia de Albufeira

 2023/2024 Exposição Time Lapses – No Algarve a Parar o Tempo, Museu do Traje de São Brás de Alportel

2024 Exposição Compasso de Espera, Biblioteca Municipal dos Coruchéus, Lisboa

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Cortesia: João António Fazenda

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Pode conhecer melhor a obra de João António Fazenda no FF, aqui.

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