JOSÉ LUÍS NETO, ENTRE DOIS GRÃOS DE AREIA
Exposição na Galeria Miguel Nabinho, em Lisboa, de 28 de março a 24 de maio de 2025.
.
.
.
Basicamente é, de certa maneira, encontrar dentro da minha procura, da ideia do aparecer da imagem, algo que sempre tive a intenção (de fazer). Que é aproximar a fotografia à ideia de desenho, à ideia de pintura. Se eu fosse pintor, provavelmente era assim que pintava. Se desenhasse, provavelmente gostaria de desenhar, não só como algumas destas imagens, mas como outras séries anteriores em que eu exploro muito esta ideia, também na linguagem analógica.
José Luís Neto em conversa com Miguel Nabinho
.
.
.
Dá-me a tua mão
.
Dá-me a tua mão:
Vou agora te contar
como entrei no inexpressivo
que sempre foi a minha busca cega e secreta.
De como entrei
naquilo que existe entre o número um e o número dois,
de como vi a linha de mistério e fogo,
e que é linha sub-reptícia.
.
Entre duas notas de música existe uma nota,
entre dois fatos existe um fato,
entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam
existe um intervalo de espaço,
existe um sentir que é entre o sentir
– nos interstícios da matéria primordial
está a linha de mistério e fogo
que é a respiração do mundo,
e a respiração contínua do mundo
é aquilo que ouvimos
e chamamos de silêncio.
.
Clarice Lispector
.
.
.
Em “Entre dois grãos de areia”, José Luís Neto mostra-nos fotografias que fez na praia, quase todas na Costa da Caparica, desde 2016. Pela primeira vez, no seu trabalho, utiliza fotografias digitais, tiradas por ele próprio.
Como refere, “Tudo o que aparece na imagem tem algo de positivo para mim.”
Como em tantas outras das suas séries, por exemplo “22474” (2000) ou “Anónimo” (2005), procura o mínimo da imagem, “a ideia do minúsculo, do dia-a-dia, a ideia do aparecer, do encontrar”, o distante, em ponto pequeno, o que ficou por acaso (como em “Anónimo”), naturalmente desfocado. Se fosse um negativo, poderia ser um fragmento de 1 mm, que amplia – como um grão de areia. Ou o espaço entre dois grãos de areia. “A ampliação não é direta, são sempre múltiplas fases.” As pessoas não são reconhecíveis.
Como noutros projetos, de “fotografar a folha branca”, como em “High Speed Press Plate” (2006), por exemplo, aqui não é a folha, “tenho pessoas ao fundo, a luz branca”, como se fosse a folha branca.
As imagens seriam para ter uns 10 cm de altura – ainda assim, os retratos seriam desfocados, anónimos. Foram ampliados para 150 x 84 cm, dando uma escala quase humana às pessoas.
Como refere, “aproximar a fotografia à ideia de desenho, de pintura”, reduzindo ao essencial.
.
.
.
José Luís Neto, Entre dois grãos de areia
.
.
.
A exposição de José Luís Neto, “Entre dois grãos de areia”, pode ser vista na Galeria Miguel Nabinho, na Rua Tenente Ferreira Durão 18-B, em Lisboa, de 28 de março a 24 de maio de 2025.
.
.
.
José Luís Neto nasceu em Satão, 1966. Estudou em Lisboa, onde completou o Curso de Fotografia no Ar.Co (Centro de Arte e Comunicação Visual), e em Londres, onde realizou um projeto individual, Ideia de Luz, no Royal College of Art. Desde o início dos anos 90 que expõe regularmente o seu trabalho em Portugal e no estrangeiro, participando também em bienais, feiras de arte e congressos de fotografia. Entre as suas mais recentes exposições colectivas contam-se a Bes Photo 2005 (Centro Cultural de Belém, Lisboa, 2005) e a sua participação na exposição About Face. Photography and the Death of the Portrait (Hayward Gallery, Londres, 2004).
Expôs individualmente no Circulo de Bellas Artes (High Speed Press Plate, Madrid, 2007), no Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian (Continuum, Lisboa, 2005) e no Museu Nacional de Arte Antiga (Anónimo, Lisboa, 2005). Participou em exposições colectivas em museus e instituições nacionais e internacionais, nomeadamente: Museu Coleção Berardo, Lisboa; Museu Nacional de Arte Contemporânea, Lisboa; Museu Gulbenkian/Coleção Moderna, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa; Embaixada de Portugal, Washington; Museu Afro-Brasil, São Paulo; Museo Lázaro Galdiano, Madrid; Museu da Ciência, Coimbra; Fundação Carmona e Costa, Lisboa; Museu de Serralves, Porto; Museu da Eletricidade, Lisboa; Centro Cultural de Belém, Lisboa; Fundación Foto Colectania, Barcelona; Musée de l’Elysée, Lausanne; Centro de Artes Visuais, Coimbra; Culturgest, Lisboa; e Cokkie Snoei Gallery, Roterdão.
José Luís Neto recebeu vários prémios, entre os quais o prémio BesPhoto 2005 e o Prémio Especial do Júri do 47º Salon D’Art Contemporain de Montrouge (2002). O seu trabalho está presente em numerosos livros e catálogos, e está representado em diversas colecções públicas e privadas, como as do Museum Folkwang (Essen), Centro Português de Fotografia (Porto), Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa, CAM – Fundação Calouste Gulbenkian (Lisboa), Fundação de Serralves (Porto), Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (Lisboa) e Fundació Foto Colectania (Barcelona).
.
.
.
Pode ver no FF, sobre a série “Anónimo” (2005), aqui, sobre José Luís Neto, aqui.
.
Sobre a exposição no site da Galeria Miguel Nabinho, aqui, onde pode ouvir uma conversa do fotógrafo com Miguel Nabinho, também aqui.
.
.
.












Pingback: AGENDA . EXPOSIÇÕES . ABRIL A JUNHO . 2025 | FASCÍNIO DA FOTOGRAFIA