JOÃO ANTÓNIO FAZENDA, TIME LAPSES. NO ALGARVE A PARAR O TEMPO
Exposição em Querença, no Polo Museológico da Água da Câmara Municipal de Loulé e na Fundação Manuel Viegas Guerreiro, de 24 de janeiro a 30 de abril de 2025.
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Nesta exposição, João António Fazenda faz um percurso pela sua obra e pelo seu Algarve. As fotografias estendem-se por um período que vai de 1971 até aos nossos dias. Algumas memórias de vivências e espaços que já não existem… ou que ainda perduram. Momentos, trabalhos, utensílios, azáfamas. E o mar, sempre a presença do mar, um som de fundo por trás das imagens.
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ALGARVE, LUZ DO MEU OLHAR
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Uma exposição é uma prestação de contas. Como se aprende na parábola evangélica, quem recebe um dom deve pô-lo a render para, na hora de prestar contas ao Senhor, este ficar contente com a diligência do servo. Pessoalmente, é o que procuro fazer com a minha atividade fotográfica, da qual vou dando conta em sucessivas exposições, de modo a satisfazer não só quem me deu o dom, que acredito ter, como todos os que as visitam.
A quem me esteja a ler poderá parecer-lhe pretensioso da minha parte o que acabo de escrever, mas é que estou mesmo convencido, baseado numa prática fotográfica de quase cinco décadas e pelo retorno que dela tenho tido em termos de aceitação pública, que tenho a obrigação de continuar a fotografar e a mostrar o resultado desse trabalho criativo.
Com a consciência de que não sou nenhum fotógrafo de topo, mas tão só um que recebeu como dom “uma moeda” e deve fazê-la render, pelo menos, outra.
Esta exposição é dedicada à minha terra. Sou algarvio e farense, com muita honra. O Algarve foi desde sempre um tema querido para a minha fotografia e esta é já a quarta mostra que faço dos meus trabalhos a ele dedicados.
É verdade que nasci e cresci num Algarve muito diferente do de hoje: menos “turístico” e, por isso, mais genuíno, mais ligado às suas raízes, quer naturais, quer culturais. Essa ideia do Algarve da minha infância e juventude não a perdi e foi-se refletindo de algum modo na minha fotografia ao longo do tempo. Espero que isso transpareça nas imagens que aqui exponho.
“Time Lapses”, o título que dei à exposição, corresponde ao entendimento de que fotografar é fazer um corte no tempo; é, de certo modo, pará-lo, no instante em que se dispara o obturador da máquina. As imagens daí resultantes são pedaços do tempo que ficam nelas retidos.
Neste caso são imagens de um Algarve, fugidio e mutável, real ou sonhado mas sempre belo, captadas por mim, com o meu olhar, com o meu imaginário subjacente, também marcados pelo tempo que passa. Por isso se diz que a fotografia não representa a realidade, mas sim a realidade “filtrada” pelo imaginário do fotógrafo.
Expostos estão também três autorretratos meus, de diferentes épocas, com o simples intuito de dar a perceber como o tempo me foi mudando e isso se refletiu também no meu olhar.
Esta é uma exposição de fotografia a preto e branco porque é essa a minha linguagem fotográfica preferida, a que me fez fotógrafo, a que me fez admirar gerações de grandes fotógrafos, a que considero artisticamente mais criativa. A luz e as trevas, em permanente luta, em constante procura de equilíbrio num mar de cinzentos, dão as “boas imagens” que procuro no ato de fotografar, intuitivo e rápido, visionário. Haverá melhor atmosfera para uma fotografia assim do que a do Algarve, onde o sol e a sombra disputam a primazia nos caminhos?
A presente exposição é, por seu turno, um olhar para trás, para o caminho já andado.
Ocorre-me recordar um poema do grande poeta castelhano Antonio Machado:
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“…al andar se hace camino,
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.
Caminante, no hay camino,
sino estelas en la mar.”
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Sei bem que não voltarei a caminhar pelos mesmos caminhos do Algarve e da vida. Mas guardei memórias daqueles que trilhei e cada fotografia aqui é uma delas. Também quero continuar a abrir caminhos novos no mar da minha existência, assim as estrelas mos iluminem. Disso espero poder prestar contas em futuras exposições.
Para já, anseio que o visitante desta compartilhe comigo o encantamento pelo Algarve e saia dela dando por bem empregado o tempo que lhe dedicou. Será sinal de que consegui ter algum impacto, derradeira responsabilidade de quem realiza um trabalho criativo e o expõe.
Mas é sobretudo aos algarvios, meus conterrâneos, e aos que amem o Algarve como eu que espero ter “tocado”, no seu orgulho por esta nossa Terra!
E é como algarvio orgulhoso dela que termino este pequeno texto, com versos do meu irmão poeta, Eduardo Saramago:
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“– Lembras-te Mãe?
Foi num dia de Invernia,
Que aprendi a soletrar
Esta palavra tão linda
E tão cheia de magia:
– ALGARVE!
– Por tudo o que me deste
E que me dás ainda,
Que mais não seja senão para sonhar,
Eu te agradeço, Algarve, Luz do meu olhar,
Eu te saúdo, Algarve, ó minha Terra!”
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João António Fazenda
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João António Fazenda, Pescadores, Faro, 1971 – O Ribeiro, Arredores de Estói, 1972 – O Ribeiro, Arredores de Estói, 1972 Casa Cubista, Arredores de Loulé, 1972 – O Poço, Arredores de Loulé, 1971 – O Poço, Arredores de Loulé, 1971 Menina, Faro, 1971 – Morjonas e Alcatruzes, Faro, 1971 – Aparência, Praia de Faro, 2017 – Sombras Brancas, Praia de Faro, 2016 – Velhos Companheiros, Alte, 1992 – O Fio de Pesca, Armação de Pera, 2005 – Genesis, Praia da Rocha, 1970 – “Voyeur”, Albufeira, 1966 – Telhados de Alte, 1973 – Quietude, Faro, 1971 – Enfusas, Faro, 1973 – Beijo Escondido, Praia de Faro, 2010.
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A exposição de João António Fazenda, “Time Lapses. No Algarve a parar o tempo”, pode ser vista em Querença, no Polo Museológico da Água da Câmara Municipal de Loulé e na Fundação Manuel Viegas Guerreiro, de 24 de janeiro a 30 de abril de 2025.
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João António Fazenda, Autorretrato à Luz do Algarve, Armação de Pera, 2008
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João António Fazenda
1947 Nasce em Faro
1962 Primeiras fotografias com uma Kodak de fole
1970 Adquire uma camara reflex Pentax em Hong Kong, na viagem de fim de curso
1970 Entra para sócio do Foto-Club 6×6, em Lisboa
1971/73 Membro da Direção do Foto-Club 6×6, depois APAF – Associação Portuguesa de Arte Fotográfica
1971 Primeira exposição individual – Genesis, Foto-Clube 6×6, a que se seguem Continuum (1974) e Vivências (1976), APAF – Associação Portuguesa de Arte Fotográfica
1971/80 Participa em numerosas exposições coletivas, de que se salienta a 1ª Exposição Luso-Brasileira de Fotografia, Évora (1972), Portugal Um Ano de Revolução 25 de Abril (1975), Inter-Foto Mallorca, Palma de Maiorca (1976), 2º Salão Inter-Associações Porto/Coimbra/Lisboa (1979), Fotografia Portuguesa Contemporânea – 1ºs Encontros de Fotografia de Coimbra (1980)
PERCURSO
1974/75 Curso de Fotografia dos Serviços Cartográficos do Exército
1971/94 Dá formação em fotografia em clubes juvenis, residências universitárias, Instituto Português de Fotografia, Polícia Judiciária, Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril
1971/77 Obtém prémios em concursos nacionais e internacionais de arte fotográfica (Igualada/Espanha, Zadar/ Jugoslávia, Rio de Janeiro, Lisboa, Setúbal, Estoril, Bragança, Silves, Zambézia/Moçambique, Póvoa do Varzim)
1980/2006 Não deixa de fotografar mas não expõe nem divulga (fase do Nim), com as únicas exceções da exposição Degrau a Degrau, Escola Superior de Teatro e Cinema, Amadora (1998) e do 1º prémio do Concurso IPL – Instituto Politécnico de Lisboa (2005)
2006 Retoma as exposições individuais – Da Necessidade de Ver, Escola Superior de Teatro e Cinema, Amadora
2006 Exposição Da Necessidade de Ver, Biblioteca Municipal de Portalegre
2007 Exposição O Eterno Retorno, Galeria de Arte Convento do Espírito Santo, Loulé
2007 Exposição Itinerâncias do Olhar, Galeria de Santa Clara, Coimbra
2008 Exposição Algarve – Da Luz e da Obscuridade, Reitoria da Universidade de Lisboa
2009 Exposição Experiência de Lisboa, Escola Superior de Teatro e Cinema, Amadora
2012 Exposição A Praia da Minha Vida – Fotografias da Ilha de Faro, Biblioteca Municipal de Faro
2013 Uma fotografia sua é selecionada para decorar a Biblioteca Municipal dos Coruchéus – Lisboa
2014 Exposição Alvalade debaixo de olho, Biblioteca Municipal dos Coruchéus, Lisboa
2014 Exposição Londres, Paris, Madrid: cidades inspiradoras, Centro Cultural Regional de Santarém – Forum Mário Viegas
2015 Exposição Inside Alvalade, Biblioteca Municipal dos Coruchéus, Lisboa (Lisbon Week)
2016 Exposição Travessia(s), Centro de Documentação do Edifício Central da Câmara Municipal de Lisboa
2016/17 Exposição A Cidade do Homem, Direção Geral da Administração da Justiça, Campus de Justiça, Lisboa
2018 Exposição Time Lapses – No Algarve a Parar o Tempo, Museu Municipal de Faro
2018 Exposição Time Lapses – No Algarve a Parar o Tempo, Biblioteca Municipal de Olhão
2018 Exposição O Pão Quotidiano, Escola Superior de Teatro e Cinema, Amadora
2019 Exposição Passo a Passo Lisboa é Infinita, Centro de Documentação do Edifício Central da Câmara Municipal de Lisboa
2019 Exposição Passo a Passo Lisboa é Infinita, Biblioteca Municipal dos Coruchéus, Lisboa
2020 Exposição Coisas Novas e Coisas Velhas, Espaço Artes do Politécnico de Lisboa
2022 Exposição Time Lapses – No Algarve a Parar o Tempo, Castelo de Silves
2022/2023 Exposição Time Lapses – No Algarve a Parar o Tempo, Museu Municipal de Arqueologia de Albufeira
2023/2024 Exposição Time Lapses – No Algarve a Parar o Tempo, Museu do Traje de São Brás de Alportel
2024 Exposição Compasso de Espera, Biblioteca Municipal dos Coruchéus, Lisboa
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Cortesia: João António Fazenda
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