ROLAND FISCHER, TRANSHISTORICAL PLACES E NEW ARCHITECTURES
Exposição “Entre-deux”, na Carlos Carvalho Arte Contemporânea, em Lisboa, de 18 de janeiro a 22 de março de 2025.
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Nesta terceira exposição individual na galeria, o artista Roland Fischer (Saarbrücken, Alemanha, 1958) apresenta trabalhos recentes das séries Transhistorical Places e New Architectures, estabelecendo um diálogo entre diferentes formas de representar a arquitetura. Em Transhistorical Places, Fischer manipula imagens de edifícios por meio de uma composição abstrata de planos e formas, intervindo sobre a fotografia original. Nesta série, a arquitetura brutalista funde-se com gestos e formas da arte concreta do século XX, criando uma fusão que reflete o ímpeto utópico destas duas manifestações artísticas: a esperança por um futuro melhor, alicerçado no desejo de transformação social e estética. Assim, de um lado, relaciona-se a estética brutalista que é caracterizada pelo uso de materiais em estado bruto, de aparência monolítica e sólida. De outro, o modernismo, com seu perfil totalizante, que se insere num sistema de pensamento pautado por um forte compromisso tanto com a democratização da arte quanto com a arte enquanto instrumento de transformação social.
Da imagem do edifício, com suas linhas duras e manchas texturadas, Fischer adota o papel de pintor ao sobrepor linhas, manchas e texturas que agregam novas camadas de significado à obra. Tais camadas não apenas alteram a percepção do edifício, mas também estabelecem um contraste sutil entre o real e o imaginado. Assim, o artista transita entre a fotografia e a pintura, evidenciando a dimensão pictórica da imagem e traduzindo, por meio da intervenção, a experiência sensorial e espacial do edifício. Deste modo, também se estabelece uma visão de contraste entre a estética simples do modernismo e a ideia de resgatar o imaginário. Essa abordagem pode ser relacionada à poética de Gaston Bachelard, em A Poética do Espaço (Martins Fontes: São Paulo, 1993, p. 63), que evoca a ideia de que a arquitectura é a ” geometria do sonho, as casas do passado, as casas onde vamos reencontrar, em nossos devaneios, a intimidade do passado.” Por isso, o que Fischer pretende mostrar é como os edifícios têm impacto enquanto linguagem que comunica, onde as dinâmicas sociais, experiências históricas e memórias assumem um valor essencial. A uma abordagem austera o artista contrapõe uma imagem poética – o mundo da imaginação.
O artista demonstra como a narrativa visual cria uma tensão entre os elementos abstratos e a fotografia subjacente, oferecendo um contraste de tonalidades intensas e dando profundidade ao diálogo entre o real e o imaginado, aproximando a obra de uma experiência pictórica carregada de significado.
Muitos desses trabalhos não se referem a um edifício concreto, mas a um ambiente onde são associados elementos estilísticos que formam um discurso que permite identificar um lugar. Um exemplo disso são as curvas, círculos e o contraste entre amarelos, cinzas e pretos, que nos fazem associar imediatamente à paisagem urbana do Rio de Janeiro, Brasil.Em New Architectures, Fischer adota uma técnica composicional inspirada no cubismo, reunindo fotografias de um único edifício captadas de diferentes ângulos, que são reconfiguradas em um único plano bidimensional. Esta abordagem permite que múltiplas perspectivas de um edifício sejam apresentadas simultaneamente, criando uma nova linguagem visual. As formas e linhas icónicas do edifício são desconstituídas e reorganizadas, oferecendo uma reflexão sobre o discurso que caracteriza aquele edifício, ou seja os elementos estilísticos que o diferenciam e como estes comunicam. Novamente, o uso de linhas abstratas e a inserção de cores intensas da composição, amplificam o caráter que o insere no domínio do imaginário, criando um contraste vívido entre os elementos abstratos e a fotografia. Fischer, ao intervir sobre a fotografia, resgata a linguagem da pintura, manipulando formas e texturas, sobrepondo camadas que intensificam a experiência estética da obra. O contraste entre superfícies lisas e rugosas transparências e linhas estruturais, cores e claros-escuros, reforçam a dimensão pictórica da imagem, traduzindo em linguagem visual a experiência espacial do edifício de uma maneira profundamente subjetiva.
Assim, em ambas as séries, Roland Fischer propõe um olhar sensorial e poético sobre a arquitetura, em que as imagens são reinterpretadas, distorcidas para mostrar como é que os edifícios e lugares comunicam e evocam memórias, emoções e percepções individuais, transformando o espaço físico numa linguagem visual carregada de significado.
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Roland Fischer, Transhistorical Places – House of History, 2020 – Rio, 2018 – Hydra, 2022 – Khytera, 2022 – Paris, 2018 – Lima, 2018 – Gibelina, 2024
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Roland Fischer, New Architectures – MAAT, 2018 – Casa Gilardi, 2008 – Central Academy, 202_
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Carlos Carvalho Arte Contemporânea, Aspetos da exposição, 2025
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A exposição de Roland Fischer, “Entre-deux”, que engloba imagens das séries “Transhistorical Places” e “New Architectures”, pode ser vista na galeria Carlos Carvalho Arte Contemporânea, na R. Joly Braga Santos, Lote F – R/C, em Lisboa, de 18 de janeiro a 22 de março de 2025.
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Roland Fischer (Saarbrücken, Alemanha, 1958).
Desde os anos 80 que Roland Fischer tem vindo a desenvolver séries de trabalho num percurso sólido e consistente que utiliza como temas principais a arquitectura e o retrato. A série “Facades” por exemplo, tenta entender a arquitetura como se fosse uma pintura modernista recorrendo aos seus princípios formais: cor, ritmo, forma, sombra, composição, padrões, para mostrar como a cultura globalizada tem um vocabulário comum e universal. Em “New Architectures” a composição é feita a partir de imagens do edifício obtidas através de vários pontos de vista colocados simultaneamente num mesmo plano bidimensional entrando no campo da abstração.
Roland Fischer vive e trabalha entre Munique e Beijing. Mostrou o seu trabalho em cerca de 120 museus e outras instituições culturais como o Musée d’Art Moderne de la Ville de Paris, a Pinakothek der Moderne em Munique, Centro Galego de Arte Contemporáneo (CGAC) em Santiago de Compostela, The Photographers’ Gallery em Londres, Bayerische Staatsgemäldesammlungen em Munique, Museo Casal Solleric em Palma de Maiorca, Centre Culturel la Maison Rouge em Paris; Institute d’Art Contemporain em Lyon, Fonds National d’Art Contemporain em Paris (FNAC), Museu de Arte Arquitectura e Tecnologia (MAAT) em Lisboa, Musée d’Art Moderne de la Ville de Paris, Musée d’Art Moderne et Contemporain em Estrasburgo ou o Museo de Arte Contemporáneo de Castilla y Leon (MUSAC). O seu trabalho está representado em grandes colecções públicas e privadas.
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Cortesia: Carlos Carvalho Arte Contemporânea
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