NICHOLAS NIXON – COLECCIONES FUNDACIÓN MAPFRE, NO CENTRO CULTURAL DE CASCAIS

Exposição no Centro Cultural de Cascais, de 16 de novembro de 2024 a 16 de fevereiro de 2025.

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A exposição abre com os primeiros trabalhos do fotógrafo, as imagens urbanas captadas em Albuquerque, Novo México, em panorâmicas extensas, num formato pequeno, e as séries “Vistas de Boston e Nova Iorque” (1974-1975), olhares amplos sobre estas cidades. Foram estes trabalhos que o lançaram no panorama artístico internacional, com retratos urbanos.

Nixon assume-se como um fotógrafo da vida.

A série seguinte “Alpendres” (1977-1982), “reflete a transição entre espaço público e privado.” O espaço está lá, mais próximo, mas agora já com a fundamental vivência humana.

Paralelamente, duas séries: a primeira, “Idosos” (1984), “em que Nixon fotografa pessoas que conhece em lares e hospitais que visita como voluntário. Desta forma, passa a existir uma relação nova entre o fotógrafo e os retratados, de maior proximidade. Em suma, esta relação vai refletir-se na forma como aborda o tema do fim da vida e fotografa. Nixon regista close-ups, detalhes de mãos ou rostos exaustos que guardam uma vida inteira.”

O projeto que desenvolve de seguida é uma continuidade da série anterior, porque também reflete a finitude da vida. É a série “Pessoas com SIDA” (1988-1991), “mais tarde publicada num livro que também inclui a transcrição de conversas e cartas feitas pela sua esposa Bebe Brown. O artista fotografou quinze pessoas, retratando com sensibilidade o implacável progresso da doença, refletindo uma época em que esta doença desconhecida abriu um fosso entre os doentes e a sociedade, cheia de preconceitos e medos.”

“Casais” (2000), fala sobre as relações humanas mais íntimas, incluindo a própria família.

Nos anos 2000, regressou às paisagens urbanas, mas continuou a explorar o retrato humano. Dessa forma aprofundou o tema da vulnerabilidade, fragilidade e resiliência do ser humano. Estão também presentes fotografias que Nixon tirou da própria família, a esposa Bebe e os filhos do casal Sam e Clementine, incluindo autorretratos, e a série “Lar”, que vemos um autorretrato (camisa) além de espaços envolventes à sua casa.

Em resumo, são trabalhos que capturam a intensidade emocional e física das relações humanas. São um testemunho de carinho e de amor pelas pessoas, por cada um.

“Mestre de uma técnica aperfeiçoada ao longo dos anos, Nicholas Nixon fotografa com o recurso a câmaras de grande formato, que impõem a proximidade e a cooperação dos retratados. De perto, o fotógrafo explora o potencial descritivo da câmara para compor imagens que mostram o visível para revelar o intangível: o amor, a paixão, a felicidade, o sofrimento, a intimidade, a passagem do tempo, a solidão. Sem estereótipos, as imagens de Nixon afloram a humanidade e as emoções contidas nas expressões dos retratados.”

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Da obra de Nicholas Nixon conheço há muito a série “Brown Sisters”, uma série evolutiva, em que cada ano o fotógrafo regista a sua esposa e as suas três irmãs, Heather, Mimi, Bebe e Laurie, de forma sistemática, mas intimista. A primeira imagem é de 1975 e todos os anos uma nova imagem testemunha a história das quatro irmãs: pelas expressões, pelo vestuário, pelos afetos, pelo envelhecimento gradual de cada uma… Mesmo em 2020, com o Covid, a imagem está lá, não as 4 irmãs juntas, mas cada uma em separado, como num ecrã. A série prolongou-se até 2022: as 48 imagens integram a exposição, a Fundación Mapfre é detentora de uma das cinco coleções existentes em todo o mundo.

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Nicholas Nixon, sobre a série “Brown Sisters”, escreve:

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Estes retratos nascem da minha curiosidade e admiração por este grupo de mulheres belas e fortes que, primeiro, me deixaram entrar nas suas vidas, permitindo que as pudesse retratar e que, depois, se uniram a mim nesta tradição, neste ritual de passagem anual.

Eu amo as minhas cunhadas Mimi, Laurie e Heather e agradeço-lhes do fundo do coração por todo o amor e paciência com que sempre me brindaram. A Bebe é o meu verdadeiro amor, a minha melhor amiga e o centro da minha vida. Sinto-me bastante afortunado e agradecido.

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Nicholas Nixon, The Brown Sisters, 1975, 1995, 2022 © Nicholas Nixon. Colecciones Fundación MAPFRE

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A folha de sala, um desdobrável de 16 páginas, inclui dois textos e a reprodução de algumas fotografias.

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Carlos Carreiras, Presidente da Câmara Municipal de Cascais, regista:

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É suposto a fotografia espelhar a realidade do momento em que é registada, mas também pode levar-nos para universos distantes, no tempo e nas vivências, ou para o que é de cada um, através das emoções, fixando-nos àquele instante que poucos sabem captar por estar além do ténue impulso do imediato.

Nicholas Nixon mostra-nos que a fotografia conta igualmente histórias do que ali não se vê, criando desde logo uma relação entre o espectador e o que está para lá da imagem. Nixon retrata os sentimentos, os estados de alma, a tristeza e a felicidade, a dor, a intimidade ou até a saudade, priorizando o pormenor, a minúcia das expressões que encontra em cada pessoa, na cidade ou na paisagem. Conta-nos vidas sem que para isso seja preciso uma única palavra.

O talento infindável do fotógrafo norte-americano, nascido em 1947 em Detroit, no Estado de Michigan, estabelece uma afinidade genuína com o público, transportando-o para o cenário retratado, por diversas vezes o de familiares do autor.

Ao longo de um prestigiado percurso profissional, que o coloca entre os fotógrafos mais distintos do século XX, Nixon tem merecido destaque em vários centros culturais internacionais, como é exemplo o Museu de Belas Artes de Boston ou a National Gallery of Art em Washington, D.C., estando ainda em várias coleções públicas e privadas. (…)

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Carlos Gollonet, comissário e curador-chefe da Coleção Fundación MAPFRE, testemunha:

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Nicholas Nixon

COLEÇÕES FUNDACIÓN MAPFRE

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Nicholas Nixon (Detroit, Michigan, 1947) ocupa um lugar singular e de destaque na história da fotografia das últimas décadas. A obra do autor, enfocada principalmente no retrato e na exploração das capacidades narrativas do aparelho fotográfico, revela uma tensão entre o visível, ou seja, o conteúdo (de uma claridade e de uma habilidade compositiva verdadeiramente extraordinárias) e o invisível, os pensamentos e preocupações que emergem das imagens. Mas, que mostram, afinal, estas fotografias? Todos sabemos que a fotografia se baseia na capacidade de reproduzir a realidade, de constatar um facto, ou seja, de retratar aquilo que se vê. Mas, no caso de Nixon, a fotografia trata precisamente de captar tudo aquilo que não se vê, como o amor, a paixão, a felicidade, a dor, a intimidade, a passagem do tempo ou a solidão; todos aqueles momentos fugazes, únicos e recordativos que esta arte permite conservar melhor que qualquer outra. Uma fotografia, trata-se antes de mais de um pedaço de papel, um suporte simples que, no entanto, se pode transformar num momento de verdade e de beleza ao exibir uma imagem fotográfica impressa. A principal virtude de Nixon manifesta-se, assim, nessa capacidade de fazer pensar e de transmitir emoções. Uma qualidade que explica como a obra do fotógrafo conseguiu alcançar hoje um valor universal, ao afastar-se dos discursos estereotipados para mergulhar nas misteriosas profundezas da alma humana.

Ao longo de uma obra organizada por séries, o fotógrafo dedica-se a explorar universos singulares com uma evidente preocupação social que desvela aspetos desapercebidos da realidade. Detalhes que, mesmo pertencendo à vida privada do artista, acabam por refletir um quotidiano com o qual nos podemos identificar, daí que as suas imagens possam facilmente despertar os ecos das nossas próprias memórias e emoções. O ritmo lento, os longos períodos, a ausência de elementos dramáticos, definem uma obra que se estende ao longo de quase cinco décadas de dedicação contínua. Nixon recorre a uma técnica simples, quase obsoleta, mas irrepreensível, ao valer-se de câmaras de grande formato que condicionam quer a proximidade, quer a cooperação da pessoa retratada, para poder, desta forma, revelar o universo íntimo de todos aqueles em que fixa o olhar: os idosos, os doentes, a intimidade dos casais ou a família.

Esta seleção de imagens representa a maior retrospetiva realizada até hoje da obra de Nicholas Nixon (1974-2022), ao transportar-nos das frias vistas de Nova Iorque ou de Boston nos anos setenta – que integraram uma das exposições mais importantes do século anterior (New Topographics) – à reconhecida série The Brown Sisters (As irmãs Brown) que constitui uma das reflexões mais minuciosas sobre o tema da passagem do tempo realizadas na história da fotografia. Trata-se de uma obra a que o fotógrafo se dedicou ao longo de toda a sua carreira até ser concluída em 2022 e que é, pela primeira vez, apresentada na íntegra nesta exposição. Uma mostra ao longo da qual os trabalhos do autor se encontram organizados cronologicamente e agrupados em torno das principais séries desenvolvidas ao longo da sua carreira. Este extenso itinerário constitui também um autorretrato de Nicholas Nixon, cuja obra manifesta as convicções mais íntimas do artista sobre tudo aquilo que, segundo ele, deveria ser fundamental, valioso e real nas nossas vidas.

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António Bracons, Aspetos da exposição, 2025

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A exposição “NICHOLAS NIXON – Colecciones Fundación MAPFRE”, comissariada por Carlos Gollonet, curador-chefe da Coleção Fundación MAPFRE, está patente no Centro Cultural de Cascais, numa organização da Fundação D. Luís I, de 16 de novembro de 2024 a 16 de  fevereiro de 2025.

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Nicholas Nixon, nascido em Detroit, em 1947, estudou Literatura Americana na Michigan University e Fotografia na University of New Mexico. Trabalha desde os anos de 1970 como fotógrafo independente. Foi também professor de fotografia no Massachusetts College of Art and Design.

As suas obras foram exibidas em algumas das instituições mais importantes do mundo, como o Art Institute of Chicago, o MoMA de Nova Iorque, o Musée d’Art Moderne de Paris, o CO/Berlin e a Fundación MAPFRE, em Madrid.

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Sobre a exposição no site da Fundação D. Luís I, aqui.

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