LUÍS TORRES, QUANDO ÉRAMOS SÓ NÓS, 2024
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Luís Torres
Quando éramos só nós
Fotografia: Luís Torres / Texto, curadoria fotográfica e coordenação da edição: Nuno Santos Loureiro / Design gráfico: Davi Magalhães
Olhão: Município de Olhão / Abril . 2024
Português / 27,6 x 27,6 cm / 160 págs.
Cartonado / 500 ex.
ISBN: 9789898446138
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Este é um livro de fotografia sobre Olhão e os olhanenses, reunindo 164 fotografias a preto-e-branco, feitas em película, entre 1976 e 1990, por Luís Torres, fotógrafo autodidacta nascido em 1957 e ainda hoje a viver em Olhão. Constitui “um retrato quase antropológico dos olhanenses e de Olhão, abordando temas como a cidade e o seu jardim público, o mercado e as tabernas, as crianças, os barbeiros e os pescadores. A obra integra ainda duas séries não documentais, intituladas ‘despertar’ e ‘male body’”.
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Com uma apresentação, grafismo e impressão cuidada, é um exemplo do que um município pode fazer para preservar a memória do seu território: da sua paisagem, população, vivência, costumes, hábitos, tradições, divulgando ao mesmo tempo a obra dos seus conterrâneos (neste caso, Luís Torres é natural do próprio concelho, noutros casos serão adotivos ou até de passagem…), profissionais ou amadores, mas que detêm um registo valioso, que importa preservar e divulgar. Ao mesmo tempo, constitui uma obra de divulgação não só do(s) autor(es), mas do próprio município. Aqui, além do Município de Olhão, também o fotógrafo Luís Torres e o curador / coordenador, Nuno Santos Loureiro, estão de parabéns!
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O texto de introdução é “baseado numa conversa entre Luís Torres e Nuno de Santos Loureiro, em Olhão, na manhã de 28 de Novembro de 2023.” Tomo a liberdade de o transcrever. As frases em itálico são transcrições de afirmações que o fotógrafo foi fazendo, ao longo daquela conversa.
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LUÍS TORRES
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Olhanense puro e genuíno, nasceu a 9 de Janeiro de 1957. É casado e tem dois filhos. Originário de uma família de Olhão com poucos recursos, começou a trabalhar logo em criança, com 11 anos, num armazém de peixe localizado perto da casa de seus pais, que por necessidade era partilhada com mais duas famílias chegadas. Como continuava a frequentar a escola, pouco tempo lhe sobrava para as brincadeiras de criança e, depois, de rapaz.
Naquele tempo era normal trabalhar para ajudar os pais, e no mesmo armazém, para além dele, prestavam serviço o irmão Nemésio e um primo. Foi duro trabalhar dias seguidos, mesmo aos sábados e domingos, por vezes até à eia noite. Hoje, olhando para trás, percebo que aprendi muito e amadureci depressa. As dificuldades aguçam as capacidades e aqueles anos também foram uma escola de princípios para a vida, que ainda hoje estão em mim e me dão uma forma de olhar para o mundo muito própria e diferente da mais habitual!
Queria ir para a marinha mercante e por isso concluiu o 7.º ano de escolaridade, indispensável para ingressar na Escola Náutica. Mas o 25 de Abril de 1974 e a separação dos pais alteraram-lhe os planos de vida. Continuou em Olhão a trabalhar, até que nos anos de 1990 o armazém de peixe começou a esmorecer. Luís Torres, em 1995, abriu uma loja de bicicletas, a BiciSport, que se tornou uma referência no Algarve, e que acabou por encerrar em 2008, quando a explosão de grandes superfícies e de grandes lojas multi-desportos tornaram o pequeno comércio especializado pouco rentável. Depois disso tive a oportunidade de ir para a pré-reforma. Foi o que fiz e não me arrependo…
A fotografia chegou com a maioridade, quando Luís Torres completou os 18 anos, em 1975. Foi intencional, não foi por acaso! Quis aprender, comecei do zero, não sabia nada. E durante anos muitas vezes coloquei a mim mesmo a seguinte questão: Como é que cheguei à fotografia? Tenho um amigo que me falou de uma senhora que era capaz de ir buscar o passado e outras vidas que já vivemos. Fui conhecê-la e ela disse-me que eu, numa das vidas passadas, tinha sido pescador, tinha morrido no mar e o meu corpo nunca tinha aparecido.
Numa outra vida tinha sido um pintor com alguma fama, mas que depois se desligou de tudo e destruiu todo o seu trabalho. Concluí que tinha uma ligação anterior ao mar, que já tinha feito alguma coisa criativa, e que nesta vida o voltaria a fazer através da fotografia. É a explicação que encontro para me cruzar com a fotografia, e desde os 18 anos ela nunca se afastou de mim…
Em Olhão, naqueles anos, pouco existia relacionado com a fotografia. Luís Torres começou com uma câmara fotográfica plástica emprestada, de um tio, muito simples. Ia descobrindo por si mesmo, mandava revelar os rolos na Rua do Comércio, no Lopes e Farracha, que também lhe imprimia a preto e branco, em 10×15 cm, as imagens que escolhia. A Olhão, retornados de Angola, tinham entretanto chegado os Côrte-Real, fotógrafos experientes, para montar um laboratório e para fotografar retratos tipo passe, bem como casamentos e baptizados. Amigo dos filhos Côrte-Real, foi aprendendo a fotografar e também a revelar, ampliar e imprimir. A esses ensinamentos juntou outros, de um curso de fotografia por correspondência, e quando, em 1980, se casou, comprou um apartamento e transformou uma das casas-de-banho no seu próprio laboratório fotográfico, comprando regularmente em Lisboa os materiais e reagentes necessários.
Pouco depois surgiu a hipótese de comprar uma câmara, uma Nikon F, com algumas lentes, e durante muitos anos essa foi a minha máquina fotográfica. Aos fins-de-semana corria o Algarve e o Alentejo a fotografar, muitas vezes com um ou dois amigos. Confessa que conhecia pouco sobre a fotografia que se fazia então na Europa e no Mundo. Os fotógrafos que conhecia e me inspiravam eram aqueles que participavam nos concursos algarvios e nacionais, aqueles que tinham melhores resultados e muitas vezes ganhavam. Frequentemente eram fotógrafos de jornais, ou seja, fotojornalistas.
Depois marcaram-me os Encontros de Fotografia de Coimbra, que abriram horizontes. Diversos anos lá fui eu para Coimbra, com os mesmos amigos, beber aquela informação que nos era completamente nova! Fotógrafos americanos, fotógrafos europeus que não apareciam nas revistas que aqui conseguíamos comprar, como era o caso da francesa Photo. O confronto entre aquilo que para nós era interessante e a fotografia que víamos em Coimbra deixava marcas e levava-nos, levava-me a mim a pensar no que aqueles fotógrafos queriam transmitir com imagens que eram tão incomuns. Esse confronto com outros fotógrafos, com outras formas de olhar e fotografar o mundo, levaram‑me a interrogar-me se aquilo que estava a fazer era o mais interessante. Obrigaram-me a olhar para outras coisas e explorar outras formas de fotografar.
Luís Torres descreve hoje a sua fotografia das décadas de 1970 a 1990 como uma fotografia muito assente no resultado do seu olhar para pessoas que lhe estavam próximas. Quis fotografar as pessoas da cidade que eu conhecia, as pessoas que conseguia analisar e compreender. Era o que mais me interessava. Fotografar a minha terra, Olhão, e os olhanenses. Isso obrigou‑me a pensar sobre Olhão, a descobrir o que era interessante e merecia ser registado, congelado no tempo para mais tarde ser mostrado a quem queira conhecer o passado recente de Olhão e das suas gentes. Foi uma fotografia humanista, dos homens do mar, da faina marítima, das pessoas simples, do quotidiano popular desta cidade. É quase sempre uma fotografia sobre o contacto do Homem com o Mar, sobre a linha que separa a água da terra firme!
Para além disso, não se deve nem pode menosprezar, quis procurar e experimentar outros olhares e outros registos fotográficos. A câmara fotográfica é um meio que permite a cada um de nós expressar a sua visão estética do mundo. Um fotógrafo, em função dos seus conhecimentos técnicos, dos seus interesses e do seu olhar mais ou menos treinado e educado, aproveita a luz e o equipamento que tem para registar determinados momentos, em função daquilo que esteticamente lhe desperta a atenção e lhe dá prazer. Foi por isso que também olhei para a fotografia de forma criativa, não apenas para o registo do quotidiano das pessoas. Muitas vezes comecei a criar as minhas próprias imagens, com a estética que procurava e queria, sem ter de estar preso ao registo documental de Olhão e dos olhanenses. Ainda hoje gosto muito da fotografia que fiz naquelas décadas, tanto a mais focada nas pessoas como a mais experimental e criativa. E esta última foi sempre a mais desafiante, porque primeiro tinha de a construir na minha cabeça e só depois ir à procura de como a fazer com os elementos que estavam ao meu alcance!
A taberna Barra Nova, que existiu em Olhão e já desapareceu na voragem do betão, proporcionou a Luís Torres, segundo ele mesmo, o expoente máximo da sua fotografia. O convívio que havia naquela taberna, e que procurei conhecer muito bem antes de começar a fotografá-lo, era extraordinário. Era um lugar de convivência entre homens que me despertava uma enorme vontade de registar e eternizar, e trabalhei muito para o fazer bastante bem. E, para além disso, aquele lugar trazia-me boas recordações de criança, porque pelo Natal ia com o meu avô à Barra Nova comprar uma garrafinha de cerveja com jeropiga, para nós festejarmos o Natal, em casa. Marcou-me bastante e já adulto, no final dos anos de 1980, redescobri intencionalmente a vida social dessa taberna e decidi que tinha de a fotografar e garantir que aquelas imagens não iam desaparecer nunca mais.
Nos dias de hoje Luís Torres continua a fotografar. Mas os tempos do analógico já ficaram quase totalmente para trás e a sua velha Nikon F, cuidadosamente guardada, foi ultrapassada por diversas máquinas fotográficas digitais. A prática digital proporciona outra fotografia e, consequentemente, este livro incide apenas sobre os anos da “gelatina e sais de prata”, ou seja, os anos do analógico.
Este livro é o meu contributo para aqueles que eu fotografei. Com este livro ofereço o meu legado para a história da cidade e dos olhanenses, retribuindo aquilo que eles me proporcionaram também de forma gratuita. Eles ofereceram‑me a possibilidade de ter o prazer de os fotografar livremente e agora eu dou-lhes este livro, com as minhas imagens, para que aqueles anos, aquelas pessoas e aqueles momentos de vida em sociedade, aquelas casas e aquelas ruas, nunca sejam esquecidos. É para isso que este livro serve: para dizer que nós fomos assim!
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Luís Torres, Quando Éramos Só Nós, 2024
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Pode ver mais sobre o livro aqui.
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Cortesia: Nuno de Santos Loureiro.
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