HOSOE EIKOH, ORDEAL BY ROSES (BA-RA-KEI)
Exposição na Ochre Space, R. da Bica do Marquês 31-A r/c, em Lisboa, de 14 de janeiro a 8 de fevereiro de 2025.
Assinalando o centenário do nascimento de Yukio Mishima (14.01.1925 – 2025).
.
.
.
João Miguel Barros apresenta no seu espaço, Ochre Space, a exposição Ordeal By Roses (BA-RA-KEI), de Hosoe Eikoh. Na exposição podemos apreciar 15 fotografias de “BA-RA-KEI”, além de uma da coleção pessoal de Barros, um documentário de meia hora sobre Hosoe e a criação desta série, e por gentileza do anfitrião, é também possível admirar, as várias edições do livro.
João Miguel Barros escreve na folha de sala:
.
.
HOSOE EIKOH: O MESTRE DOS MESTRES
.
1. Hosoe Eikoh é o Mestre dos Mestres da fotografia Japonesa do pós-guerra.
.
2. Em 1961 Hosoe foi convidado por Mishima para o fotografar para um livro de ensaios que Mishima ia publicar. Pretendia uma fotografia de capa menos convencional. Quando se conheceram Hosoe perguntou: “Sr. Mishima, quer dizer que posso fotografá-lo à minha maneira?”
“Eu sou o seu objecto de estudo. Fotografe-me como quiser, Sr. Hosoe”, respondeu Mishima.
A série de fotografia tiradas foram totalmente inesperadas: Mishima envolto numa mangueira em diversas posições, de pé ou deitado no jardim de sua casa. Uma dessas fotografias acabou por ser a capa do livro de ensaios que foi publicado em 1961, com o título “The Attack of Beauty”. E essa foi também o começo de BARAKEI, sendo essa fotografia e essa série uma parte importante do início do livro.
.
3. A exposição mostra uma selecção de imagens do famoso livro BARAKEI, publicado em 1963, no Japão, e que se chamou originalmente, em inglês, Killed by Roses.
Como Hosoe explica no texto que acompanha a 3ª edição do livro em japonês “BARA” significa rosa e “KEI” significa castigo. Por sugestão de Yukio Mishima, o título em inglês foi alterado na altura de concepção da 2ª edição do livro para “Ordeal by Roses”. Na verdade do que se tratava não era da morte pela morte, mas da provação e da tortura, do castigo, criando-se uma maior correspondência com o título em japonês. Era o processo que Mishima tinha em mente, e não apenas o resultado. Como na sua própria morte, Mishima escolheu também a forma, o ritual, porque tudo nele tinha um sentido…
.
4. Ordeal by Roses (BARAKEI) teve 4 edições. A 1ª edição e a 3ª edição tiveram reimpressões.
Cada uma das edições de Ordeal by Roses parte de uma base comum, mas todas elas inovam e recriam o projecto inicial, tornando-se num novo livro. Nenhuma das quatro edições tem o mesmo formato.
O que torna único cada uma destas quatro edições é o papel criativo atribuído aos designers que as pensaram, sendo-lhes permitido acrescentar uma marca inovadora ao trabalho de Hosoe. Também nessa perspectiva BARAKEI foi visionário e revolucionário.
Os designers de Ordeal by Roses, também eles artistas, eram dos mais relevantes designers gráficos japoneses. Os prelúdios ou o primeiro capítulo do livro em cada uma das edições são prova da sua genialidade. A título de exemplo, as três pinturas concebidas por Tandanori Yokoo para a 2ª edição estiveram expostas no MoMa, fora do contexto do livro BARAKEI, mas inseridas numa sua mostra individual.
.
5. Sistematizando, foram as seguintes as edições e reimpressões do livro BARAKEI:
1ª edição: design de Kouhei Sugiura (1963). Editora: Shueisha, Tokyo. Contém 44 fotografias. (Nota: em inglês o título era Killed by Roses.)
2ª edição: design de Tadanori Yokoo (30 Janeiro, 1971). Editora: Shueisha, Tokyo (Edição internacional) (Nota: por sugestão de Mishima o título do livro em inglês passou a chamar-se Ordeal by Roses.)
3ª edição: design de Kiyoshi Awadu (1984). Tem 7 ilustrações e 39 fotografias.
Reimpressão da 3ª edição. Editora: Aperture, New York, (2005). Esta edição teve duas sobrecapas ligeiramente diferentes: uma para o mercado americano e britânico e outra para o mercado europeu.
.

Hosoe Eikoh, Barakei, ed. Aperture, 2005 (2009?)
.
Reimpressão da 1ª edição em japonês (edição limitada de 500 exemplares), 2008. Editora: NADiff, Tokyo. A NADiff consultou Eikoh Hosoe e o designer Kohei Sugiura para recriar a publicação original de 1963 o mais fielmente possível. Os pretos da impressão original em gravura de 1963 foram reproduzidos numa impressão offset moderna.
Reimpressão da 1ª edição em japonês, com separata com os textos traduzidos para inglês (edição limitada de 500 exemplares) 1 Fevereiro 2009. Editora: Aperture, New York.
4ª edição (21st century edition, 2015). Design by Katsumi Asaba. Editora: Asuka International. 47 fotografias. Nesta edição foram acrescentas fotografias inéditas.
.
6. BARAKEI é uma obra sobre a vida e o sofrimento, centrada na figura de Yukio Mishima, cujo centenário do seu nascimento se celebra justamente a 14 de Janeiro de 2025, simbolicamente o dia da inauguração desta exposição.
É uma obra complexa, cheia de significados, que implica um longo estudo e meditação. Mas, é importante que se diga, é a obra criativa de Hosoe Eikoh. Não é uma obra conjunta, se bem que Mishima, com a sua complexidade, o seu carisma, a sua intelectualidade, tenha criado uma atmosfera que certamente terá influenciado Hosoe.
Disse Hosoe:
“As minhas intenções ao fotografar Mishima estavam a tornar-se gradualmente mais claras. Pensei em usar tudo o que Mishima amava ou possuía para formar um documento sobre o escritor. No entanto, a interpretação e a expressão seriam minhas. Após a primeira fotografia, referi-me a um acto iconoclasta, mas na realidade estava a sugerir um processo criativo através da destruição. Queria criar uma nova imagem de Yukio Mishima através da minha fotografia.” [1]
.
7. Na introdução a BARAKEI (que se reproduz a seguir), Mishima escreve:
“Perante aquela câmara, rapidamente compreendi que o meu próprio espírito, o meu pensamento, se tinham tornado completamente redundantes. Foi uma experiência arrebatadora, um estado com o qual há muito sonhava. (…)
Um primeiro requisito para este processo é, obviamente, que os objectos fotografados tenham algum significado do qual possam ser despojados. Por isso era necessário que o modelo humano fosse um escritor e que o pano de fundo consistisse de pinturas renascentistas e mobiliário barroco espanhol.”
Hosoe refere que Mishima lhe mostrou
“uma série de reproduções de pinturas italianas do Renascimento, incluindo obras de Botticelli e Rafael. Lembro-me em particular de me ter mostrado o livro de Bernard Berenson sobre o Renascimento e vários quadros de São Sebastião, incluindo um de Rafael, após o que me disse: “Não é lindo, Sr. Hosoe?” “ [2]
Na verdade, no livro Ordeal by Roses, há um conjunto significativo de fotografias onde Mishima dialoga com pinturas renascentistas. Os exemplos ao lado mostram as pinturas renascentistas acolhidas por Hosoe Eikoh no contexto das suas criações de fusão com Mishima.
.
8. BARAKEI sendo um exemplo acabado de fotografia testemunhal acaba por ser também um significativo diálogo entre dois génios. Apesar da diferença de idades, Mishima criou uma admiração singular por Hosoe, tanto que, antes de morrer, não deixou de escrever o prefácio para um outro importante livro que Hosoe publicou em 1971, chamado Embrace.
Esta relação e colaboração seria sempre irrepetível, não só pela morte de Mishima em 1970 e, agora também de Hosoe, em Setembro de 2024, mas porque os génios nunca dão dois passos na mesma direcção.
.
1 Hosoe Eikoh, Nota do Fotógrafo à 3.ª edição
2 Hosoe Eikoh, Nota do Fotógrafo à 3.ª edição.
.
Janeiro 2025
.
.
.
Permito-me destacar do texto que Jorge Calado escreve no Expresso de 31.01.2025, sobre a exposição:
.
(…) “BA-RA-KEI” ou, em inglês, “Ordeal by Roses” (Provação por Rosas) não é apenas uma série de retratos de Mishima compostos em 1961-62; é também a metamorfose imaginada das preocupações obsessivas do escritor, em geral com a ajuda de pinturas renascentistas e barrocas favoritas (Botticelli, Giorgione, Guido Reni, etc.; São Sebastião é uma figura recorrente.) Devo assinalar que a influência de Mishima também extravasou para a música, por exemplo, na ópera “Das Verratene Meer” (O Mar Atraiçoado, 1990), do maior compositor alemão da segunda metade do século XX, Hans Werner Henze (1926-2002), baseada no romance “O Marinheiro que Perdeu as Graças do Mar” (1963) e estreada em Berlim em 1990.
Mishima considerava o corpo um “jardim da mente” que era preciso tratar e cultivar, tal como o faz qualquer lutador ou bailarino que pratique artes marciais. Na raiz da notável colaboração Hosoe-Mishima está a estética cruel do ‘corpo morto’, introduzida pela nova dança (das trevas) butô, criada por Tatsumi Hijikata e Kazuo Ohno nos anos 1950 em resposta à dialética das culturas americana e japonesa do pós-Guerra. Se o pretexto era uma foto para a capa de um livro de ensaios de Mishima, o jovem Hosoe percebeu imediatamente que tinha ali um corpo à sua disposição. Conheceram-se no jardim da casa do escritor (que se banhava ao Sol, enquanto o pai regava as flores). Uma das primeiras fotos mostra Mishima manietado pela mangueira; noutra, fita-nos intensamente com uma rosa nos lábios. A sensualidade mórbida do corpo humano! A crueldade apetecível da beleza…
.
.
.
Hosoe Eikoh, Ordeal By Roses (Barakei)
.
.
João Miguel Barros / Ochre Space, Aspetos da exposição, 2025
.
.
.
A exposição “Ordeal By Roses (Barakei)”, de Hosoe Eikoh, está patente na Ochre Space, R. da Bica do Marquês 31-A r/c, em Lisboa, de 14 de janeiro a 8 de fevereiro de 2025 (quartas a sábados, das 15:00 às 18:30).
Dia 8 de fevereiro às 16:00, a Ochre Space convida o público para uma conversa de encerramento da exposição dedicada a Hosoe Eikoh sob o tema “Hosoe e Mishima juntos na Imortalidade”. Esta conversa reúne José Bértolo, professor na Universidade Nova, Tânia Ganho, autora e tradutora da obra de Yukio Mishima em Portugal, e João Miguel Barros, fundador da Ochre Space e estudioso em fotografia contemporânea.
Ao longo do evento, serão explorados diferentes ângulos da obra e do legado de Hosoe, incluindo as várias edições de Ordeal by Roses (Barakei), a visão literária de Mishima e a potência da fotografia de Hosoe enquanto arte performativa e simbólica.
.

.
.
.
Eikoh Hosoe (18 de março de 1933 – 16 de setembro de 2024) foi um fotógrafo e cineasta japonês que emergiu no movimento de artes experimentais pós- Segunda Guerra Mundial, no Japão. Hosoe é mais conhecido pelas suas fotografias escuras, de alto contraste, a preto e branco, de corpos humanos.
Ao longo da sua vida, Hosoe foi amplamente reconhecido pela sua contribuição para a fotografia mundial, tendo recebido, entre outros, o Prémio de Realização de Vida da Sociedade Fotográfica do Japão (1963) e a Ordem do Sol Nascente, atribuída pelo governo japonês em 2017.
.
.
Ochre Space
Localizada no bairro da Ajuda, em Lisboa, a Ochre Space é um centro independente dedicado à fotografia contemporânea e vídeo arte, reunindo uma galeria, livraria e editora. Fundada por João Miguel Barros, advogado, fotógrafo e curador reconhecido, a Ochre Space distingue-se pelo seu foco em divulgar os grandes Mestres e os nomes que mais relevantemente tenham contribuído para a história da fotografia contemporânea, com especial ênfase em projectos ligados à China e ao Japão.
João Miguel Barros, além de fundador, é uma figura conhecida no panorama da fotografia contemporânea. Com uma carreira marcada por exposições individuais e colectivas em locais como o Museu Coleção Berardo e o Macao Contemporary Art Center, tem sido premiado em competições internacionais e representou Macau na Bienal de Veneza em 2022.
A Ochre Space reflecte a sua visão de criar um espaço de diálogo entre expressões artísticas, oferecendo ao público acesso a obras e narrativas que desafiam convenções e ampliam os horizontes da fotografia e do vídeo arte contemporâneo.
.
.
.
Pode conhecer mais sobre João Miguel Barros no FF, aqui e sobre a Ochre Space, no seu site aqui.
Pode saber mais sobre Hosoe Eikoh, aqui e sobre Yukio Mishima aqui.
Pode ler o texto de Jorge Calado no Expresso, a propósito da exposição, aqui (reservado a assinantes ou com código da revista).
.
Cortesia: João Miguel Barros.
.
.
.











Pingback: AGENDA . CONVOCATÓRIAS E EVENTOS . JANEIRO A MARÇO . 2025 | FASCÍNIO DA FOTOGRAFIA
Pingback: AGENDA . EXPOSIÇÕES . JANEIRO A MARÇO . 2025 | FASCÍNIO DA FOTOGRAFIA
Pingback: AGENDA . EXPOSIÇÕES . OUTUBRO A DEZEMBRO . 2025 | FASCÍNIO DA FOTOGRAFIA