MANIFESTAÇÕES DE LIBERDADE . 1

Fotografias de Luís Pavão, António Rafael, Margaret Martins, José Neves Águas, José Couto Nogueira e José Ernesto de Sousa. Exposição no Arquivo Municipal de Lisboa | Fotográfico, de 19 de abril a 24 de agosto de 2024.

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O Arquivo Municipal de Lisboa apresenta a exposição Manifestações de Liberdade integrada nas comemorações dos 50 anos do 25 de Abril de 1974, através do seu acervo fotográfico e videográfico com o contributo do trabalho dos autores: Álvaro Campeão, Ana Hatherly, António Rafael, António Sampaio Teixeira, Carlos Gil, Ezequiel Silva (filme), Jornal Diário de Notícias, José Couto Nogueira, José Ernesto de Sousa, José Neves Águas, Luís Pavão e Margaret Martins.

De 1974 a 1980 estão representadas linguagens artísticas e sociais expressas em manifestações e murais, a presença de figuras proeminentes da cultura e intervenientes políticos, provando a proximidade entre a esfera intelectual e a popular.

A vontade de agir tornou-se numa diretiva e a fotografia e o vídeo passaram a integrar o experimentalismo e a livre expressão, rompendo com a linguagem do regime anterior e acolhendo todos os testemunhos que pretendiam inovar e viver em democracia.

O encontro das abordagens autorais apresentadas prova o ambiente de mudança através de manifestações de liberdade, estruturantes para a sociedade contemporânea.

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Nesta publicação, seguindo a exposição, apresento aspetos das obras de Luís Pavão, António Rafael, Margaret Martins, José Neves Águas, José Couto Nogueira e José Ernesto de Sousa, na próxima apresentarei de António Sampaio Teixeira, Ezequiel Silva, Álvaro Campeão, Ana Hatherly, Carlos Gil e do Jornal Diário de Notícias.

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LUÍS PAVÃO

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Luís Pavão, Manifestação operária contra o desemprego. Praça do Comércio. Lisboa. 1975-02-07. Provas atuais em papel de revelação baritado.

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Um jovem fotógrafo em 1974, captou momentos peculiares e as manifestações que o cativaram, acompanhando o frenesim revolucionário da cidade de Lisboa e de outros locais do país. Com um evidente interesse pela força operária que se mostrou na praça do Comércio e em avenidas da cidade, também focou as expressões de contestação sobre a habitação e os problemas das classes desfavorecidas.

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António Bracons, Aspetos da exposição, 2024

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Luis Pavão (1954). Até 1986, trabalhou como fotógrafo freelancer, sobretudo no Alentejo e em Lisboa, na área da ilustração, colaborando na produção de coleções de postais, folhetos e publicações de âmbito regional. Entre 1986 e 1989, estudou Conservação de Fotografia, em Rochester (EUA). Conservador das coleções de fotografia do Arquivo Municipal de Lisboa desde 1991, fez levantamentos fotográficos sobre a cidade. Entre 1989 e 2001, desenvolveu atividades letivas na área da tecnologia da fotografia e processos fotográficos históricos alternativos, nas escolas AR.CO, em Lisboa. De 2001 a 2015, foi professor na Licenciatura de Fotografia (Instituto Politécnico de Tomar). Atualmente tem colaborado com a Universidade Autónoma de Barcelona. Dirige a empresa LUPA – Luís Pavão Lda.

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ANTÓNIO RAFAEL

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António Rafael, 1.º de Maio de 1974. Parque de Jogos 1.º de Maio. Lisboa. 1974-05-01. Provas de época em papel de revelação baritado.

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Próximo dos populares em manifestação e atento às figuras políticas da intervenção, pontua momentos estratégicos deste movimento coletivo na cidade de Lisboa, relevando o Dia do Trabalhador, em 1974, no Parque de Jogos da INATEL. O fotógrafo captou a presença de outros com máquinas fotográficas, representando bem o ambiente de participação na construção de memórias vivenciais que, atualmente, se constituem como documentos históricos, sociais e familiares numa reconstituição pertinente para a presente comemoração.

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António Bracons, Aspetos da exposição, 2024

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António Rafael (1941-2006). Desempenhou funções na área da fotografia e cinema na Guiné. Entre as décadas de 1970 e 80 trabalhou na empresa Forma – Publicidade Geral, Lda. após o que optou pelo trabalho como freelancer. Expôs pela primeira vez em Lisboa, em 2002, na Galeria do Museu Rafael Bordalo Pinheiro, tendo a coleção ficado, desde então, representada no Museu de Lisboa.

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MARGARET MARTINS

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Margaret Martins, Propaganda política: mural. Alcântara. Lisboa. 1993. Provas de época cromogéneas plastificadas.

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A fotógrafa registou a longevidade das expressões criativas com mensagens de intervenção social, preservadas nos murais da autoria conjunta de artistas e populares e num peculiar cartaz, num testemunho temporal dos resquícios da Revolução de Abril, apologia de uma resistência popular por uma vida com condições dignificantes.

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António Bracons, Aspetos da exposição, 2024

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Margaret Martins (1938). Começou a fotografar desde os quinze anos, inicialmente a preto e branco, depois a cor na década de 1970. Fez duas exposições individuais, Travel Photographs, realizada na Travel Bookshop em Londres (1985) e Images of Revolution – Photographs of Political Art in Portugal, na Phoenix Picturehouse de Oxford (2000).

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JOSÉ NEVES ÁGUAS

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José Neves Águas, Mural de propaganda eleitoral de Ramalho Eanes. Avenida Manuel da Maia. Lisboa. 1976. Projeção digital a partir dos diapositivos cromogéneos em acetato de celulose.

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Com uma vasta obra de fotografias documentais, o autor preservou a memória destas manifestações artísticas efémeras, que cobriam várias zonas da cidade, atualmente inexistentes e só presentes na memória de alguns. O seu trabalho, em imagens a cores, conseguiu resguardar estas obras, por vezes contestadas, devido ao enunciado reacionário e à força das mensagens, que conviviam com os lisboetas, estivessem estas nos espaços de passagem, nos edifícios habitacionais ou nas instituições de ensino.

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António Bracons, Aspetos da exposição, 2024

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José Neves Águas (1920-1991). Colaborou com diversos jornais e revistas, como o Diário de Lisboa, A Capital, Planície, Correio do Ribatejo e Diário de Coimbra. Organizou e publicou, em 1962, a obra Bibliografia, de Jaime Cortesão. Participou, também, na coleção Cadernos do tempo presente. Em 1967, a convite do governo brasileiro, deslocou-se ao Brasil, onde apresentou diversas conferências sobre literatura contemporânea portuguesa. A maior parte dos seus textos, sobretudo após o 25 de Abril de 1974, incidiram sobre temáticas como a contestação política e os movimentos grevistas.

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JOSÉ COUTO NOGUEIRA

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José Couto Nogueira, II Encontro de Cinema Português: António-Pedro Vasconcelos. Caldas da Rainha. 1975-06. Provas atuais em papel de revelação baritado.

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Numa galeria de retratos, vislumbramos algumas personalidades, relevantes para a cultura portuguesa durante as décadas seguintes, formando e fomentando a arte contemporânea e os estudos em torno das questões da criação artística, para além da presença do Jornal Novo, a sua equipa e os demais participantes e consultores.

O fotógrafo acompanhou igualmente os movimentos do Partido Socialista e as manifestações populares com registos dos principais acontecimentos da época, tendo contemplado políticos relevantes para a democracia conquistada.

As provas de contato de época em papel de revelação baritado.

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António Bracons, Aspetos da exposição, 2024

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José Couto Nogueira (1945). Aprendeu fotografia em Londres na década de 1960, trabalhou como fotógrafo de moda e publicidade entre 1968 e 1974 e, posteriormente, como fotojornalista no Jornal Novo em abril de 1975 e agosto de 1976. As suas fotografias políticas referem-se a esse período. No dia 25 de Abril resolveu filmar os acontecimentos em Super8, em vez de fotografar, mas esses filmes extraviaram-se. Posteriormente, mudou-se para o Brasil, onde publicou em vários suportes de informação e fez uma exposição individual no Museu de Arte de São Paulo, em 1978. A partir de 1980 deixou de fotografar, tendo optado pelo jornalismo, profissão que mantém até hoje.

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JOSÉ ERNESTO DE SOUSA

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José Ernesto de Sousa, [Manifestantes na escadaria do palácio de São Bento]. Praça Constituição de 1976. Lisboa. 1975-05-01. Projeção digital a partir dos diapositivos cromogéneos em acetato de celulose.

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É um dos nomes incontornáveis do período pós-revolucionário, enquanto agente de intervenção e, principalmente, como reformulador do conceito estético. Homem de inúmeros interesses, culto, atento, criativo e agitador, conseguiu conciliar os artistas e a expressão social e política numa “performance” que marcaria a arte contemporânea portuguesa. O que lhe importava eram os valores da operação criativa atuante e não tanto da obra final.

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António Bracons, Aspetos da exposição, 2024

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José Ernesto de Sousa (1921-1988). Iniciou a sua produção fotográfica na década de 1940. Numa primeira fase, executou, predominantemente, levantamentos etnográficos, registos de arte popular e de escultura, bem como retratos em contexto urbano e organizou uma exposição de arte moderna e arte africana (1946), onde integrou obras originais de artistas do modernismo português, entre os quais, Amadeo de Souza-Cardoso e Almada Negreiros. Colaborou em diversas publicações, como crítico de arte, tais como, Seara Nova, Mundo Literário, Portucale, Vértice e tornou-se defensor do movimento neorrealista. Fundou o Círculo de Cinema, um dos primeiros cineclubes portugueses. No final desta década, iniciou a sua atividade cinematográfica, que o levou a fixar-se algum tempo em Paris (1949-1952), onde frequentou estudos de história do cinema, filmologia e técnicas de som. Escreveu para a revista Plano Focal (1953), da qual foi chefe de redação. Até aos anos 80 do século XX, continuou a sua intensa atividade teórica e artística, tendo sido curador de diversos projetos expositivos e dirigido a galeria Diferença (1978-1987).

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A exposição “Manifestações de Liberdade”, inserida nas comemorações dos 50 anos do 25 de abril de 1974, com obras de Luís Pavão, António Rafael, Margaret Martins, José Neves Águas, José Couto Nogueira e José Ernesto de Sousa, António Sampaio Teixeira, Ezequiel Silva, Álvaro Campeão, Ana Hatherly, Carlos Gil e do Jornal Diário de Notícias, está patente no Arquivo Municipal de Lisboa | Fotográfico, na R. da Palma, 246, de 19 de abril a 24 de agosto de 2024.

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No âmbito da exposição, na semana de 19 a 24 de agosto, comemorando o Dia Mundial da Fotografia, há as seguintes atividades:

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De Portas Abertas…

“Faça-nos uma visita e fique a conhecer o que, e como fazemos no Arquivo Fotográfico”

Venda de livros de Fotografia a preços reduzidos

19.08 – 23.08.2024 – 10:00 às 18:00

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Apresentação do livro “Os dias de José Bárcia – A coleção fotográfica de Quinta do Anjo, Palmela e Setúbal. 1895-1917”, por Cecília Matos, moderação de Isabel Corda

Mostra de álbuns fotográficos da Coleção Vieira da Silva, com fotografias de José Artur Leitão Bárcia, por Hélia Silva

19.08.2024 – 16:00

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Visita guiada à exposição “Manifestações de Liberdade”

Para pessoas cegas ou com baixa visão e para os acompanhantes, com audiodescrição e materiais em alto relevo. Orientação: Sofia Castro e Joana Pinheiro

20.08.2024 – 11:00

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Conversa “Manifestações pela palavra”, com Luís Pavão e convidados

21.08.2024 – 18:00

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Visitas guiadas

Exposição ‘Manifestações de Liberdade’, à instalação ‘Ordem às Palavras de Ordem’ e à projeção ‘Diretos da Revolução’. Orientação: Sofia Castro e Isabel Corda.

Sujeitas a marcação prévia através do e-mail arquivomunicipal.se@cm-lisboa.pt.

24.08.2024 – 11:00 e 15:00

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