LUIS JUNGMANN GIRAFA, ANÔNIMOS DO ROSSIO, 2014
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Luis Jungmann Girafa
Anônimos do Rossio
Fotografia: Luis Jungmann Girafa / Texto: Luis Jungmann Girafa, Renato Cunha, Artur Arriscado
Correios do Brasil / 2014
Português (Brasil) / 19,1 x 25,1 cm / 36 pp., não numeradas
Agrafado, capa mole
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Esta peça é o catálogo da exposição que teve lugar no Brasil, no Espaço Cultural Correios Fortaleza, na Rua Senador Alencar, 38, de 4 de setembro a 14 de novembro de 2014.
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Antes, havia sido apresentada no Museu Nacional dos Correios, em Brasília, entre 31 de janeiro e 16 de março do mesmo ano e seria depois apresentada de 3 de abril a 30 de maio de 2015 no espaço Cultural Correios de Juiz de Fora, Minas Gerais.
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Esta exposição resulta do livro homónimo, editado em 2013 pela editora Sigla Viva (Brasil).
Trago-o por duas razões: como um olhar estrangeiro sobre o nosso país, no caso, centrado na pequena Praça D. Pedro IV, o Rossio, em Lisboa, por um lado, por outro, como um exemplo de que num momento (mais ou menos curto, mais ou menos dilatado), pode ser criado um projeto fotográfico. A fotografia é, também, um encontro.
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Sobre a série escreve o autor:
Dedico esta exposição a Artur Arriscado, à sua memória. Na véspera do retorno ao Brasil, após trinta dias rodando por Portugal, em um dia sem pressa, encontramos Artur e Ana, que estavam em Lisboa a caminho de Londres, para o casamento da filha. Almoçamos e fomos tomar café com conhaque na varanda da Pastelaria Suíça, no Rossio.
Ana e Sandra saíram buscando o que comprar. Artur e eu ficamos olhando a praça, proseando lembranças dele por Lisboa, descobrindo e sendo descobertos pelos personagens locais. Vieram nos vender de tudo, óculos, relógios, iClones, drogas. Não compramos nada. Turistas atípicos recusando ofertas sensacionais.
Entre uma coisa e outra, eu ia fazendo fotos das pessoas que passavam diante de nós. A chuva suave e intermitente permitiu algumas incursões fotográficas nos limites da praça. Fui vendo que muitos dos que eu fotografava eram pessoas que estavam ali trabalhando, se encontrando, trambicando, etc. e tal. Estavam para ficar, circulavam e interagiam aqui e acolá.
De forma intuitiva, fui fazendo fotos que não revelam explicitamente os personagens, que mantêm o anonimato enquanto contam visualmente a história de uma tarde preguiçosa no Rossio. Daí, como possibilidade de guardar a poética dessa tarde, a qual foi acontecendo inesperadamente, veio um livro, publicado, em 2013, pela editora Siglaviva, e do livro esta exposição, que, com o patrocínio dos Correios amplia o projeto Anônimos do Rossio.
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Artur Arriscado – de quem temos um retrato próximo, em fólio integral no catálogo – “escreveu um texto para a exposição, que seria lido na abertura. Arriscado faleceu em 13/09/2013, na cidade de Brasília, antes de terminar o texto.” Transcrevo-o do catálogo:
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A partir deste momento, posso me considerar um ex-anônimo do Rossio. Aproveito para agradecer ao amigo Luis Jungman Girafa, que acaba de me dedicar um livro bonito que contextualiza uma boa parte de minha longa passagem por Lisboa. Que saudades eu tenho dessa bela capital europeia. Lá conheci grandes amigos, também considerados anônimos. Este recado é para muitos deles, dos anônimos, que são moradores do céu aberto do Rossio, das avenidas, das ruelas, dos largos que albergam gentes de todas as classes sociais, todos juntos como um buquê de rosas vermelhas, amarelas.
Esse mosaico de lindas flores, todas elas com o seu brilho, foi companheiro das noites geladas com o seu frio bem orquestrado.
Alguns sucumbiram, outros com a identidade de indigente caminham rumo ao desconhecido. Que é a morte desenhada nos cavaletes da vida sem direito a umas flores já murchas.
Nessas minhas andanças por Lisboa não posso esquecer o Jorge Bibas. Um grande homem que tinha como função a venda de todo tipo de drogas. O Jorge era como um primo meu. Assisti sua degradação até o final. Em relação a mim, ele sempre me tratou com dignidade, nunca em vida me convidou para fumar um “charro”. Sempre teve o cuidado de me proteger. Ele sempre me alertava sobre os maus caminhos. Certo dia, o Bibas chega junto de mim, todo combalido, e pede-me dinheiro para comprar antibióticos. Fiquei admirado. Essa foi sua última atitude. Soube, tempo depois, que ele tinha morrido, sem direito a um funeral digno, morreu como um indigente…
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O curador, Renato Cunha, regista:
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Uma tarde chuvosa no Rossio, famosa praça D. Pedro IV, no coração de Lisboa, proporcionou a Luis Jungmann Girafa um tempo de contemplação da rotina dos locais. O resultado aparece nas fotografias em preto e branco de Anônimos do Rossio. A crônica de imagens é um convite à observação do outro, da rotina não percebida, da poesia visual desse artista que transita com facilidade pela fotografia, arquitetura, artes plásticas e cinema.
O cenário, cosmopolita, é frequentado por personalidades portuguesas, porém, de forma despretensiosa, os comuns permitiram a Girafa uma nova percepção de um cartão postal lusitano. As imagens afloram o dia a dia desse espaço que tem a estátua de D. Pedro IV como testemunha. Nessa incursão pelo universo dos transeuntes da praça, dos cafés, lojas e monumentos, é possível uma identificação e reflexão sobre os caminhos trilhados diariamente transpondo os momentos retratados com ausência de cor à realidade particular de cada um.
(…) Conheci Girafa profissionalmente em 2008, quando ele fez a direção de arte de um filme dirigido por mim, no qual imprimiu seu olhar estético apurado e fez os detalhes visuais narrarem, algo primordial no cinema, e obviamente na fotografia também.
Juntamente com o livro, pensamos em uma exposição no começo do projeto, que agora, após ter sido recebida no Museu Nacional dos Correios, em Brasília, ganha sequência no Espaço Cultural Correios Fortaleza. Previmos também uma palestra com o comunicador e escritor angolano Artur Arriscado, que, nos anos 1990, na condição de exilado, com graves problemas de saúde, viveu como indigente nas ruas e praças de Lisboa. Além disso, Artur estava com Girafa no dia do passeio fotográfico pelo Rossio, em 2011. (…)
Anônimos do Rossio é isso mesmo, um ensaio no significado mais estrito do termo, com coerência na linguagem visual e percorrendo por completo as áreas de atividade de Girafa, sendo possível nele enxergar, além do fotógrafo, muitos traços do artista plástico, do arquiteto, do cineasta. E a feliz escolha pelo preto e branco faz com que estas fotografias sobrelevem a questão do anonimato, pela fina sugestão do remoto. Os personagens são capturados pela lente de Girafa como se do quadro fossem parte imutável. Não há pessoa que nelas apareça que não indique uma cumplicidade com o anonimato, fazendo-nos perceber que é assim, anônimos, que passamos todos os dias, ou quase todos, pelas grandes cidades.
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Luis Jungmann Girafa, Anônimos do Rossio, 2014
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Luis Jungmann Girafa nasceu em Juiz de Fora, Minas Gerais, em 1950. Formado em arquitetura pela Universidade de Brasília [UnB], é também artista plástico, cineasta e fotógrafo. Traz no currículo mais de 30 exposições, no Brasil e no exterior, e é conceituado como um dos mais importantes artistas de Brasília. No cinema, realizou dois curtas-metragens e assinou a direção de arte de diversos longas-metragens, entre eles a do aclamado Louco por cinema, de André Luiz Oliveira. Na fotografia, Anônimos do Rossio, que deu origem a esta exposição, é seu livro de estreia.
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