CARLOS ALMEIDA, AO INVERSO
Exposição na Biblioteca Municipal Ary dos Santos, em Sacavém, de 21 de outubro de 2023 a 27 de janeiro de 2024.
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Filomena Cunha, curadora da exposição, refere:
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Ao Inverso
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Em 1930, ano da publicação da obra “A Selva”, Ferreira de Castro descreve a trajetória de Alberto, obrigado a emigrar para o Brasil, no início do séc. XX, para trabalhar no seringal “Paraíso”, em Humaitá, em plena floresta amazónica, junto às margens do rio Madeira.
Na sua viagem de vários dias, partindo de Belém do Pará, subindo o rio Amazonas, até chegar ao seu destino, Alberto vai tomando contacto com a realidade brasileira, tão particular e característica da profunda floresta amazónica, um espaço idealizado de paraíso, mas que na realidade se torna num verdadeiro inferno de difícil dignidade e sobrevivência humana.
Um século depois da viagem de Ferreira de Castro, o fotógrafo Carlos Almeida, percorreu o Amazonas, mas desta feita ao inverso, descendo o rio, partindo de Manaus para Belém do Pará, num navio idêntico.
A paisagem natural revisitada e avistada da amurada do navio, pouco parece ter-se modificado: a mesma pujante selva, indomável e indiferente ao passar do tempo, alheia à civilização e desinteressada do progresso, onde a paisagem humana se mantém fiel aliada, mantendo os seus ritmos, decifrando os seus códigos e respeitando a sua natureza.
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Carlos Almeida conta que fez a viagem de barco, de quatro dias, descendo o Rio Amazonas, o maior rio do mundo – 3 dos seus afluentes: o Madeira, o Negro e o Japurá estão entre os 10 maiores rios mundiais, na foz lança no mar mais de vinte por cento da água doce que todos os rios lançam nos oceanos e a 100 Km da foz, a salinidade ainda é reduzida pela influência da corrente do Amazonas – ao longo de 4 dias; a subir, contra a corrente, a viagem é de 5 dias.
Partiu de Manaus, capital do Amazonas passou por Itacoatiara, Parintins, Juturi, Óbidos, Santarém, Monte Alegre, Prainha, Almeirim, Gurupá, Breves até Belém, no estado de Pará. O barco é o único meio de ligação entre a maior parte das paragens. Encontrou várias povoações com nomes de cidades e vilas portuguesas: dos 77 nomes existentes no Brasil, 21 situam-se naqueles dois estados.
Já em Portugal, ao mostrar as fotografias, alguém reparou que aquelas imagens retratam o que Ferreira de Castro narra nos capítulos 2 e 3 de “A Selva”, no personagem Alberto, na viagem que fez um século atrás, subindo o rio, ao inverso do fotógrafo.
Filomena Cunha, curadora da exposição, inspirada nas construções palafitas que se encontram ao longo do rio, criou as estruturas, em que apresenta no exterior as fotografias e no interior os excertos de A Selva que referem ao fotografado, também na parte de cima, para que quem sobe a escada possa ler. Ao longo da escada, as várias paragens da viagem, e assinaladas as que Ferreira de Castro fez.
Algumas das fotografias de Carlos Almeida e a citação de Ferreira de Castro:
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De longe a longe, (…) quatro ou cinco cruzes rústicas apodrecendo entre erva alta (…). A visão perdia-se rapidamente, abafada pela selva que avançava sobre o pequeno cemitério, a espalhar a vida sobre a terra da morte. Contudo, essas necrópoles humildes, onde não existem mármores nem solenes epitáfios, constituíam o único elemento romântico daquelas solidárias paragens.
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Os passageiros cuidavam de se instalar, numa rápida adaptação ao novo meio. Em breve, cá em baixo, em redor de Alberto, as redes cruzavam-se, tanto, tanto, que dificilmente se caminhava entre elas.
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Quando o “Justo Chermont” passava, a família inteira vinha especar-se no cimo do barranco, a admirar o fugitivo sintoma da civilização, enquanto um dos garotos descia a segurar a canoa, não fossem as ondas do navio desprende-las e a corrente arrastá-la, de “bubuia” rio abaixo.
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Carlos Almeida, Ao Inverso
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António Bracons, Aspetos da exposição, 2023
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A exposição “Ao Inverso”, de Carlos Almeida está patente na Biblioteca Municipal Ary dos Santos, na Av. James Gilman, 18, em Sacavém, de 21 de outubro de 2023 a 27 de janeiro de 2024.
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António Bracons, Carlos Almeida, 10.2023.
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Carlos Almeida (Lisboa, 1961) fez o Curso Avançado de Fotografia no IPF – Instituto Português de Fotografia (1986/87). Depois de alguma atividade fotográfica e algum afastamento, retoma-a no digital, tendo realizado diversas exposições individuais e coletivas nos últimos anos.
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Sobre a obra de Carlos Almeida no FF, aqui.
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Cortesia: Carlos Almeida.
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