SANDRA ROCHA, DA CALMA FEZ-SE O VENTO
Exposição no MAAT – Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia, em Lisboa, de 29 de março a 4 de setembro de 2023.
.
.
.
O mais recente projeto de Sandra Rocha resulta de um encontro entre imagens fixas e em movimento, realizadas maioritariamente nos Açores, e de leituras que acompanham as suas pesquisas: Ovídio, Gaston Bachelard, Emmanuel Coccia e Jean-Christophe Bailly.
Dando continuidade a séries precedentes, na exposição “Da calma fez-se o vento”, título adaptado a partir de um soneto de Vinicius de Moraes, Sandra Rocha coloca a figura humana no seu ambiente natural reforçando, nesta nova composição, a presença do elemento água: fluxo contínuo de energia que incorpora fortemente a ideia de movimento perpétuo defendida por Heraclito. Sumptuosos cenários de água simbolizam o início de um novo ciclo natural, uma forma de infinito que toca a transcendência e o sagrado. É neste ambiente harmonioso e ritualizado, onde coexistem humanos, animais, plantas e minerais que Sandra Rocha constrói uma narrativa poética que anula o curso do tempo e nos oferece uma forma eterna de recomeço.
.
.
João Pinharanda, curador da exposição, escreve na folha de sala:
.
Há uma cortina de água que nos recebe ou através da qual nos despedimos do universo em que a exposição Da calma fez-se o vento nos mergulha. A sala permite uma visão global, simulando uma panorâmica dentro da qual avançamos ou recuamos, observando sucessivos capítulos – não hierarquizados nem sequenciais – de uma história em imagens que nos é dada em fragmentos, em micronarrativas, permitindo-nos a liberdade de um percurso fluido e de uma interpretação livre.
Sandra Rocha parte das Metamorfoses de Ovídio (séc. I d.C.), livro-síntese da tradição mitológica greco-latina que até hoje alimenta a história literária e pictórica do Ocidente. Nele, o autor recolhe e recria o conjunto dos mitos em que os seres (humanos e divinos de forma humana) se metamorfoseiam em elementos da natureza animal, vegetal ou mineral. A artista usa livre e intuitivamente alguns conteúdos desse livro, acrescentando-lhe leituras que nos remetem para as realidades do mundo cultural, social e político dos dias de hoje – nomeadamente, tomando como inspiração mitos protagonizados por mulheres ou deusas vítimas da concupiscência e violência dos homens e dos deuses.
O estatuto de desafio e emancipação que Sandra Rocha estabelece para as suas figuras femininas é conceptual, mas também formal e visual: dípticos e trípticos, fotografia, ecrãs-vídeo e som, ou uma imagem inaugural que pode ser também uma imagem final… Através destes dispositivos, a artista apresenta um discurso circular onde sobressalto, indignação e poesia convergem em novas mitografias entrelaçadas, capazes de incorporar e transformar a energia original dos mitos.
Na maior parte das suas imagens figuram elementos do mundo não-humano, animal, vegetal ou mineral (rochas e águas), elementos tornados metáforas de corpos – mortais ou divinos –, de violências ou disfarces, de fugas ou castigos. Mais do que assistirmos ao humano a fundir-se no natural, vemos o natural a levar progressivamente a melhor sobre o humano ou a poder substituí-lo. Sandra Rocha alcança assim uma totalidade provisória: torna-se rocha e água, nuvem e planta, corça e pássaro, árvore e ribeiro, como se ela mesma se metamorfoseasse, conduzindo-nos para dentro de um universo onde poderemos adquirir a capacidade de transcender as fronteiras da nossa identidade.
.
.
Muitas fotografias são dos Açores. Diria que esta exposição retrata a vivência de Sandra Rocha, centrada nas ilhas açorianas, onde nasceu e passou a sua infância e juventude: a água sempre constante, os minerais – as rochas – que formam a estrutura da ilha, por vezes aparente, a natureza verde das plantas que a revestem, a presença dos animais, e o Homem, sempre presente em relação com a natureza: a vida serena, profunda, intensa. As figuras humanas presentes são jovens. Jovens numa atitude de lazer, de usufruto da natureza, de estar.
Sandra Rocha parte de 17 séries, que conjuga como se de uma única se tratasse, no espaço da nave do MAAT, em que se apresenta a exposição como se uma ilha se tratasse.
.

.
Sandra Rocha faz-nos viver esta imensidão – quão imensa pode ser uma ilha – e o mar. E a juventude. E os sonhos, a esperança no futuro.
A entrar, uma fotografia a toda a altura, mostra-nos a água que cai em cachão. No interior, uma fotografia, também a toda a altura, de rocha, está presente, mas sem perturbar as outras imagens. Em caixas de madeira apoiadas no chão, animais e plantas; também nas paredes. Duas projeções apresentam em vídeo movimentos da água e os reflexos do sol. Uma queda de água parece espalhar-se pelo chão, e os pequenos lagos, no interior da ilha, onde apetece simplesmente estar, como estão aqueles jovens.
Da calma fez-se o vento… A calma de simplesmente estar, estar em comunhão, em plena natureza, numa vivência serena. O vento que por vezes vem, mais ou menos intenso, que faz parte da vivência das Ilhas e dos ilhéus. O vento que surge da calmaria…
O vento que pode ser de tempestade (não o vemos, nem à tempestade), mas com a certeza que depois da tempestade vem a bonança.
.
.
Sandra Rocha, Da calma fez-se o vento
.
.
Fui procurar Vinicius de Morais…
.
Soneto de Separação
.
De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto
.
De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama
.
De repente não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente
.
Fez-se do amigo próximo, distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente
.
.
.
António Bracons, Aspetos da exposição, 2023
.
.
.
A exposição “Da calma fez-se o vento”, de Sandra Rocha, com curadoria de João Pinharanda, está patente no MAAT – Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia, na Av. Brasília, em Lisboa, de 29 de março a 4 de setembro de 2023.
.
.
.
Sandra Rocha nasceu em Angra do Heroísmo, Açores, em 1974.
Após frequentar a licenciatura em Biologia na Universidade dos Açores (1994–1996) e estudar fotografia no Ar.Co – Centro de Arte & Comunicação Visual (1996–1998), licenciou-se em História da Arte pela UNL–FCSH (2008), tendo posteriormente frequentado o Programa Gulbenkian – Criatividade e Criação Artística (2008) e o atelier de prática de realização de filmes documentais dos Ateliers Varan (2016).
Depois de colaborar como fotojornalista no jornal diário A Capital (1999–2003), trabalhou como freelancer no mercado editorial europeu e foi cofundadora do coletivo de fotógrafos [kameraphoto] (2003–2011), onde concebeu inúmeros projetos, livros e exposições.
Mudou-se para Paris em 2013 e aí publicou “Anticyclone” (edição de autor, 2013), “Le Silence des sirènes” (Loco, 2016), a sua primeira monografia em França, com um texto assinado por Michel Poivert, “Dérive des baigneuses” (Filigranes, 2017). Participa na Commande photographique nationale Regards du Grand Paris, que culmina com a publicação de “La vie immédiate” (Éditions Loco, 2017), livro selecionado em 2018 para o Prix du livre d’auteur, Rencontres d’Arles.
Foi bolseira dos Ateliers Médicis (2017) e do Centre national des arts plastiques (Cnap), 2019. Nos anos mais recentes expôs no Arquipélago – Centro de Artes Contemporâneas (Ribeira Grande, Açores, 2018), no Centre Photographique d’Île-de-France (Paris, 2021), nos ateliers Les Capucins (Brest, 2022), e nos Les Rencontres d’Arles (Arles, 2022), aqui com a apresentação do projeto “Le saut”, desenvolvido em 2022, com o novo programa de mentoria artística da Pernod Ricard.
.
.
.
Cortesia: Sandra Rocha.
.
.
.



























