JOSÉ LOPES DA SILVA, SINGULARIDADES   OU   A PASSAGEM DO TEMPO

Exposição integrada na 10.ª edição do iNstantes – Festival Internacional de Fotografia de Avintes, patente no Restaurante Assim & Assado, em Avintes, de 22 de abril a 31 de maio de 2023.

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Sobre “Singularidades   ou   A Passagem do Tempo” escreve o autor:

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Os trabalhos desta série não se confundem com um olhar banalizado sobre a paisagem urbana que rodeia o fotógrafo. Durante as minhas deambulações pelas cidades, sempre me atraiu a atenção a desestruturação dos variados cartazes que compõem a avalancha de informação visual presente nas paredes, muros ou fachadas, com uma vincada marca de desgaste do tempo e do homem. Num exercício de observação e reflexão sobre esse material afixado, vi e capturei novos formulários gráficos que documentam essa passagem do tempo. É o desafio da sua poesia, das suas texturas afloradas, das suas cores e geometrias inesperadas. Procuro, assim, revelar uma nova beleza estética em sua decomposição e provocatórios rasgados, reenquadrando-a, com uma marca pessoal, numa nova interpretação. 

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José Lopes da Silva, Singularidades   ou   A Passagem do Tempo     

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No desdobrável, lemos o ensaio de Jorge Velhote:

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JOSÉ LOPES DA SILVA, TATUADOR DE RUÍNAS

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O que se observa neste conjunto de fotografias de José Lopes da Silva que acolhe em vertigem o tempo e as suas ruínas, atesta também que as imagens precipitam o nosso olhar para o lugar do esquecimento.

Mas, retratam também um observador irónico e melancólico, e na sua exuberância, uma poética actualizada do conhecimento de uma linguagem íntima e que em eco com o mundo retrata a experiência da magnitude da observação como inspiração do real – o que observamos é o que não foi visto, ou seja, descobrimos a enorme quantidade de camadas e de fragmentos de que a nossa memória é devedora, infinitamente, e, em permanência não soubemos acolher em doação.

Estas imagens tendem a perpetuar e a transfigurar a memória como eclipse da realidade. São um conjunto de sombras e penumbras que vêm ocupar o vazio e instrumentalizar o pensamento não como ameaça, mas tão somente desvelando e disseminando o futuro como consciência invisível ou percepção da morte como incapacidade de na linguagem se alojar, fazendo assim sobreviver a imagem e os seus mistérios como instrumento cénico ou sussurro de uma perfeição rebelde ou fluxo que o fotógrafo desvela para que autentiquemos a nossa inquietação perante o lugar onde inscrevemos a nossa cegueira.

Estas imagens, no rigor da sua materialidade, na sua topologia sofisticada e aparente gramática desalinhada, inventariam com sensibilidade e subtil cuidado e legitimam uma interpretação sobre a morte da pintura que a fotografia parece querer revindicar desde os seus primórdios. Estamos assim perante imagens que operam ou realizam espantosos enunciados sobre o que é olhar, ver e observar, e ler. E sobre a condição da linguagem como lugar poético onde a fotografia encontra também o seu devir como transformação do olhar. E, nesta exposição, estas imagens são, com maioria de razão, retratos com legendas explícitas ou subliminares, em que o fotógrafo molda, expressivamente, essa procura da intermitência que ocupa o vazio sem piedade e onde o observador é convidado a invadir, em simultâneo, e com estatuto, a evidente impossibilidade de retomar o tempo do fotógrafo e o seu próprio tempo como registo do que julga poder rever, pois ambos se encontram diante de imagens em absoluta e indomável transformação das texturas do real.

Estamos assim perante o murmúrio do tempo e na sua mais expressiva visibilidade como se cada fotografia revelasse um fio de desenvolta simetria ou mesmo permanente simultaneidade em que o fotógrafo na sua perversidade estimulante, e, produtor de eternidades, propõem ao observador descobrir o seu próprio olhar em exclusivo como sentimento e memória, daí a acuidade irónica destas fotografias em que o observador assume papel de testemunha insuspeita e de inesperado leitor e cúmplice de imagens em ruínas tatuando o tempo num mosaico em que a mensagem procura a beleza não a isolando dos seus mistérios nem da realidade.

José Lopes da Silva desloca, ilumina e justapõe ao seu olhar, na verdade, reclama e valoriza a capacidade imaginativa e a aura de ingenuidade que o tempo destas imagens nos faz redescobrir como percepção ou fervor incondicional da experiência e compartilha de olhares e lugar de partida de um mundo em flagrante e dramática derrocada – estamos, assim, perante uma citação, aquela que a fotografia permite e nos seduz como ironia.

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Abril de 2023

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Desdobrável (frente e verso)

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António Bracons, Aspetos da exposição, 04.2023

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A exposição de José Lopes da Silva “Singularidades   ou   A Passagem do Tempo“, integra a 10.ª edição do iNstantes – Festival Internacional de Fotografia de Avintes, está patente no Restaurante Assim & Assado, R. 5 de Outubro, 2200, em Avintes, de 22 de abril a 31 de maio de 2023.

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António Bracons, José Lopes da Silva, 04.2023

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José Lopes da Silva. Faz fotografia desde 1976. Expôs colectivamente em Aveiro, Espinho, Guimarães, Montalegre, Montijo e Porto. Foi premiado em vários concursos. Participou na II Exposição Nacional de Pequeno Formato – Cooperativa Artística Árvore, Porto (1989) e na II Bienal de Fotografia de Vila Franca de Xira (Out.1991). Está publicado no Anuário Português de Fotografia, 1985 e na revista “Photo”, Jan. 1991. Fez a curadoria das exposições de Amarílis Lopes: “Yémen”, no Teatro Rivoli, Porto (2005) e “Cinco Continentes – memórias fotográficas”, em Leça do Balio, Matosinhos (2006). Expôs “Olhar e Ver”, Proposta Fotográfica #41, Casa da Cultura de Avintes, em Outubro 2022.

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Cortesia: Festival iNstantes e José Lopes da Silva.

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