JORGE MOLDER, GRANDES PLANOS
Exposição na Galeria Miguel Nabinho, em Lisboa, de 14 de abril a 13 de maio de 2023.
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As imagens foram-me explicando que a sua dimensão, a sua relação comigo, é uma relação de Grandes Planos.
Jorge Molder em conversa com Miguel Nabinho
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Ao ver estes “grandes planos” e reencontrar aqui Jorge Molder, há diversas emoções que me assaltam. Por um lado, o olhar – sempre o olhar – com que nos olha nas fotografias em que se representa, mesmo que não nos olhe de frente. Mas nestas – em quase todas – os seus olhos olham-nos (apenas em 3 não vemos os olhos), procuram-nos, centram-se em nós, como que a olhar-nos, a desafiar-nos. Até a imagem única do olho, grande grande plano, que nos procura olhar. E a diferença de amplitude ao longo das várias imagens, das diferentes expressões, dos desfoques, dos enquadramentos… com uma maior liberdade, de ‘não coerência’, se me é permitida a expressão.
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Jorge Molder iniciou a sua atividade fotográfica em 1977, desenvolveu a sua obra desde 1990 centrada na auto-representação, complementada, por vezes, com grandes planos de outros objetos. A auto-representação iniciou-se com imagens de meio corpo e, ao longo de cada série foi-se aproximando, fechando, em planos sucessivamente mais próximos, desde Conrad (1990), e entre outras, por The Portuguese Dutchman (1990), The Secret Agent (1991), Insomnia (1992), The sense of the sleight-of-hand man (1993-94), INOX (1995), Anatomia e Boxe (1996), Nox (1999), até TV (Troppo Vero, 1999), onde a proximidade leva à impossibilidade da focagem e o rosto (parte dele) transforma-se numa mancha… Depois os planos recomeçam a abrir, em La reine vous salue… (2000), Circunstâncias atenuantes (2003) e nas outras séries posteriores, variando a amplitude.
Auto-representações, auto-retratos… A diferença é cada vez mais ténue, refere Jorge Molder em conversa com Miguel Nabinho, a propósito desta exposição.
Em Grandes Planos (2023), é o rosto ou parte dele que vemos. E que nos vê. Diferentes expressões, diferentes olhares, sentimentos, memórias… Fotografada ao longo do reduzido tempo de quatro meses, os diferentes aspetos e expressões são densificados por mais ou menos luz, mais ou menos nitidez, a barba feita, por fazer ou mais crescida, mais branca ou mais escura, a forma como nos olha, como se posiciona. Nalgumas, parece-me mais novo, noutras, mais velho. As imagens são digitais, fotografas pelo próprio retratado, sem recorrer a assistentes, jogando com a iluminação e com tratamento digital. A dimensão da imagem leva a um ponteado na definição de alguns traços e manchas.
Estes “Grandes Planos” são, pois, um ensaio sobre a passagem do tempo, sobre o envelhecimento. E fica a questão: os ‘grandes planos‘ são: das imagens do seu rosto ou… para o futuro.
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António Bracons, Aspetos da exposição, 2023
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Miguel Nabinho escreve a propósito da exposição:
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O auto-retrato, embora esteja presente desde tão cedo quanto 1981, só mais tarde virá a assumir o seu actual carácter. Ao ser trabalhado em séries, o auto-retrato assume um estatuto de auto-representação, no qual o eu se revela e oculta através da assunção de um outro enquanto protagonista da representação.
Entre o filme “noir” e o romance vitoriano, entre o agente secreto e Mister Hyde, o outro é aquele que se libertou do corpo para abraçar plenamente a sua condição espectral, sendo que esta é a condição da fotografia ela própria. Como testemunho último dessa condição veja-se uma série como Nox (Bienal de Veneza 1999) na qual a densidade do negro ameaça subsumir, por fim, as suas personagens.
Em 1999 representa Portugal na Bienal de Veneza com a série Nox. Desde então tem exposto nas maiores instituições nacionais e internacionais e tem sido alvo de estudo pelos maiores críticos de fotografia contemporânea.
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Jorge Molder, série Grandes Planos, 2023.
151 x 101 cm, 167 x 117 cm (framed), Digital pigmented print on Arches cotton 600 gr paper
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A exposição de Jorge Molder, “Grandes Planos”, esteve patente na Galeria Miguel Nabinho, na Rua Tenente Ferreira Durão 18-B, em Lisboa, de 14 de abril a 13 de maio de 2023.
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Jorge Molder começou a sua carreira de fotógrafo com uma exposição individual em 1977 dedicada a Vilarinho das Furnas, na qual já estava patente o pendor nostálgico que irá orientar a sua obra, sublinhado pelo uso do preto e branco e pelo ligeiro sfumatto que raramente abandonará.
Em 1980 realiza uma exposição em colaboração com os poetas João Miguel Fernandes Jorge e Joaquim Manuel Magalhães na qual se começa a esboçar o seu interesse pela insinuação narrativa e o pendor cinematográfico da sua fotografia. O “film-noir”, mais precisamente pela mão de Dashiell Hammett, marca esteticamente os locais abandonados que Molder selecciona como cenários nestes primeiros trabalhos.
A adopção da série como categoria estruturante acentua esse carácter cinematográfico. Aliada ao interesse quase obsessivo pela prática do auto-retrato, a série irá funcionar como o dispositivo de produção de sentido mais omnipresente no desenrolar do seu percurso fotográfico.
Em Joseph Conrad (1990) ou The Secret Agent (1991) encontramos um conjunto de cenários e adereços que evocam uma narrativa suspensa, como pistas numa novela policial ou num conto fantástico cujo desenrolar permanece obscuro.
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Pode saber mais sobre esta série, ver as restantes fotografias e ver/ouvir uma conversa de Jorge Molder com Miguel Nabinho, aqui.
Sobre Jorge Molder no FF, aqui.
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