CINDY SHERMAN, METAMORFOSES
Exposição no Museu de Arte Contemporânea de Serralves, no Porto, de 4 de outubro de 2022 a 16 de abril de 2023.
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A obra única de Cindy Sherman pode ainda ser vista em Serralves. Na publicação anterior, deixei um ensaio que escrevi há alguns anos sobre a sua obra. Agora, trago aqui o texto do folheto que acompanha a exposição, bem como apresento o catálogo que acompanha a exposição (os títulos das séries em inglês, entre parêntesis retos, foram inseridos por mim).
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Sobretudo conhecida por imagens em que se retrata como modelo da sua própria obra, encarnando o papel de estereótipos femininos convencionados pelos média num vasto leque de personagens e ambientes, Cindy Sherman fotografa sozinha no seu estúdio, atuando como diretora artística, fotógrafa, maquilhadora, cabeleireira e intérprete do papel a desempenhar. A prática do retrato que iniciou há décadas é responsável por algumas das mais marcantes e influentes imagens da arte contemporânea.
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CINDY SHERMAN
METAMORFOSES
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Cindy Sherman: Metamorfoses reúne um conjunto de obras que abrange toda a carreira da artista, desde os seus primeiros projetos até ao trabalho mais recente. A exposição foi concebida em estreito diálogo com a artista e em parceria com The Broad Art Foundation, Los Angeles, a instituição que possui a mais abrangente coleção do trabalho de Sherman.
Embora se apresentem trabalhos de praticamente todas as séries da artista, incluindo os seus projetos a preto e branco dos anos 1970, a abordagem escolhida não foi a cronológica. A exposição está estruturada como um conjunto de cenários baseados nas narrativas implícitas nos trabalhos de Sherman e o seu título, aberto a uma multiplicidade de interpretações, inspira-se numa citação de Agustina Bessa-Luís:
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As pessoas estão continuamente sujeitas a metamorfoses que chamaremos de ficção, mas que é o próprio instrumento da realidade… O indivíduo não contém apenas seu duplo, mas muitos outros que reivindicam sua identidade do fundo do ser.
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Esta metamorfose descrita por Agustina reflete o processo de trabalho de Sherman: a transformação física da artista, simultaneamente autora e modelo das suas imagens, representando vários papéis. As mutações que provoca em si própria através das alterações físicas a que se submete para cada uma das suas produções são sistemáticas, detalhadas, pormenorizadas, metódicas e transformativas. Os seus trabalhos não se limitam apenas a destacar um sentido de ‘metamorfose’ – através da sua particular encenação, intuímos a ficção e os mundos ficcionados nas encenações pessoais de Sherman, o multiverso e a duplicidade de personagens que não são duplos da artista. Esta forma de trabalho exige distanciamento e concentração para alcançar o resultado desejado. Diz-nos a artista que o facto de trabalhar digitalmente ajuda a concretizar a magia; o processo analógico, único, exige mais assertividade.
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RETRATOS: DA HISTÓRIA DA ARTE AOS FOTOGRAMAS DE FILMES
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Na primeira sala do museu somos confrontados com um conjunto de obras que a artista realizou no final da década
de 1980 e inícios de 1990, habitualmente referidos como Retratos Históricos [History Portraits]. Nestas obras, em que a artista usa a cor e impressões de grande escala, reconhecemos quase de imediato algumas das pinturas mais famosas realizadas entre o século XVI e o início do século XIX. Geralmente retratos, a artista representasse a si própria à imagem dessas pinturas, usando para tal acessórios, roupas e toda uma parafernália de objetos que remetem para as pinturas originais. Por exemplo, em Sem título nº 205, 1989, Sherman posa como La Fornarina (o retrato de uma jovem mulher pintado por Rafael entre 1518 e 1519); mas apesar da similitude com a obra original, conseguimos detetar quase de imediato a mascarada e os acessórios de que se serve: os seios e a barriga falsa de grávida, feitos num material plástico.
Nas obras dispostas nesta sala, em que Sherman se retrata na pele de personagens bem conhecidas da pintura clássica, reconhecemos não só obras de Rafael, mas também de Jean Fouquet, Oscar Gustave Rejlander, Caravaggio ou Bernardino Luini. Algumas vezes, Sherman inspira-se diretamente nas obras destes pintores, outras vezes cria composições cuja origem pode ser a colagem de imagens de revistas que depois pinta e copia. A artista iniciou
esta série enquanto vivia em Roma; mas apesar de ter fácil acesso às obras dos Velhos Mestres preferiu trabalhar com imagens recolhidas em livros em vez de observar as pinturas originais. O seu trabalho é pois uma reflexão sobre literacia visual e a relevância dos média na nossa cultura. Através de um largo espectro de retratos e autorretratos, cujos estilos incluem a Renascença, o Barroco, o Rococó ou o Neoclassicismo, Sherman transforma-se em figuras femininas ou masculinas, diluindo as fronteiras de género.
Analisando o estatuto histórico do retrato, estes trabalhos mostram-nos imagens de poder, ambição, posição social, vaidade e questionam a representação nas obras dos Velhos Mestres.
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PASSAGEIROS DE AUTOCARRO, PALHAÇOS E ESTRELAS DE FILMES
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FOTOGRAMAS SEM TÍTULO, 1977-80 [UNTITLED FILM STILLS, 1977-80]
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Criados em finais dos anos 1970, os Fotogramas sem título [Untitled Film Stills] foram inspirados por filmes de série B dos anos 1950 e 60, que geralmente apresentavam as mulheres como donas de casa solitárias, raparigas ingénuas e trabalhadoras, ou negligenciadas e abandonadas pelos seus amantes. Controlando totalmente a câmara, Sherman fotografa usando como cenário exteriores que por vezes dão à imagem um aspeto bucólico e nostálgico.
A partir dos anos 1990, Sherman começa a subtrair a sua presença da imagem. Inicialmente posiciona-se fora do centro e mais tarde desaparece totalmente, passando a construir cenários apocalípticos ou grotescos ou cenas de acidentes. Nesta sala encontramos a série Máscaras [Masks], criada em 1996, em que vemos rostos em primeiro plano que foram totalmente desfigurados pelo excesso de maquilhagem. Os rostos são enigmáticos, artificiais e inescrutáveis, provocando no espectador uma sensação de repulsa, estranheza ou aversão.
Desta época são também as obras expostas no segundo piso do Museu (sala 2): as Imagens Sexuais [Sex Pictures] (1992-1996) e as Imagens Surrealistas [Surrealist Images] (1993-1994). Trata-se de imagens irreais, habitadas por personagens sobrenaturais e terríficas, encarnando medos irracionais e pesadelos do passado, no limite do abjeto. Aos poucos, o corpo da artista é substituído por seios falsos, excrescências humanas, fluídos corporais, detritos sexuais e próteses médicas.
A série Palhaços [Clowns] explora o sentimento de ansiedade e opressão que esta personagem circense provoca. Para estas obras, a artista realizou uma minuciosa pesquisa em sites de palhaços na internet e atribuiu-lhes uma grande carga psicológica; as fotografias são mais perturbantes do que divertidas e a pesada maquilhagem esconde mais do que o que revela.
As obras apresentadas na sala adjacente datam de 1983, quando Sherman foi contratada para as campanhas publicitárias de algumas casas de moda (Jean-Paul Gaultier, Comme des Garçons). A resposta da artista foi criar
imagens que parodiam o universo da moda – contrariando visceralmente os padrões convencionados da perfeição absoluta – e em que volta a retratar-se como personagem. Na verdade, o seu interesse pelo mundo da moda datava
já de 1976, da série Modelo de capa [The Cover Girls], constituída por fotografias em que a artista reproduz a imagem da modelo na capa de revistas como a Vogue, a Cosmopolitan ou Mademoiselle.
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PRIMEIROS PLANOS E RETRATOS FEMININOS DA SOCIEDADE
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No segundo piso da exposição encontramos uma série precursora dos Fotogramas sem título. Para Mistério e Assassinato [Murder Mystery], 1976, a artista inspirou-se no film noir, um género que na altura consumia avidamente.
Neste mistério policial, a artista constrói uma peça fictícia, na qual interpreta todos os papéis, numa trama de mistério que se adensa a cada imagem.
Nos anos 2000 a artista regressa ao enquadramento central da câmara e transforma-se na atriz que posa para a série Primeiros Planos [Head Shots], uma quase taxonomia do retrato de sociedade.
Em 2008, nos Retratos de Sociedade [Society Portraits], a artista fotografa-se encarnado figuras distintas e realçando nas imagens os sinais de envelhecimento. Vemos mulheres maduras, poderosas e influentes, de um determinado estatuto social, usando maquilhagem, desafiando, como Dorian Gray, os efeitos da passagem do tempo.
Recorrendo à tecnologia digital, Sherman instala as suas personagens em cenários idílicos e dá-lhes assim uma história de vida.
O recurso a ferramentas emprestadas do teatro para produzir retratos de tão diversificadas personagens garante-lhes a necessária autenticidade, que é no entanto perturbada por elementos dissonantes que a artista inclui conscientemente na composição, sem qualquer esforço para os ocultar: perucas desalinhadas, próteses ou implantes a cair, maquilhagem esborratada. Estas fotografias parecem encomendas para revistas de moda de mulheres cheias de glamour e intensidade que assumem tranquilamente a sua idade.
Para a série Flappers, de 2016-2018, a artista inspirou-se na geração de mulheres dinâmicas saída da Primeira Guerra Mundial, que pareciam atrizes da era dos filmes mudos. Através de maquilhagem, perucas e um estilo específico de guarda-roupa, a artista replica na perfeição o estereótipo daquelas mulheres que conquistaram uma certa liberdade, fumavam em público e se destacavam pelo seu comportamento e aparência liberal, em contraste com as normas de conduta dominantes de uma sociedade fechada e intransigente. Finalmente, é importante realçar o mural que Sherman concebeu e adaptou para o Museu de Serralves. Esta série de trabalhos criada em 2010 é para ela um campo de experimentação. Somos de imediato confrontados com uma personagem não maquilhada. A artista vê estes trabalhos como estudos em que altera digitalmente o seu rosto. Inicialmente, as modificações eram quase impercetíveis, mas progressivamente começaram a ter mais expressão. A maquilhagem passou a ser feita em Photoshop. Alterações da posição dos olhos, um rubor mais expressivo nas maçãs do rosto, perucas diferentes e a estranheza do vestuário, tudo é usado para construir figuras que se posicionam numa paisagem estranha e assumem uma escala monumental, impressas em tecido autocolante e instaladas diretamente na parede.
Embora teóricos e críticos de arte associem geralmente o trabalho de Sherman ao feminismo e a temas como a violência e o voyeurismo, a artista prefere evitar essa classificação e instrumentalização teórica.
Quando constrói uma personagem, não tem em mente uma pessoa específica, mas antes um género. A complexidade da narrativa é determinada pela especificidade da relação entre o cenário e a figura que o ocupa. O trabalho de Cindy Sherman deve ser visto como uma dramaturgia para uma peça em que a artista é simultaneamente sujeito e objeto da sua obra, com a qual constrói uma constelação inteiramente sua.
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António Bracons, Aspetos da exposição (parte II), 2022
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Por ocasião da exposição foi editado um catálogo que reproduz todas as obras da exposição:
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Cindy Sherman
Cindy Sherman: Metamorphosis
Fotografia: Cindy Sherman / Texto: Philippe Vergne, Joanne Heyler, Maria Filomena Molder, Sérgio Mah e Sofia Coppola (conversa com Cindy Sherman)
Porto: Fundação de Serralves / 2022
Português e inglês / 21 x 31 cm /
Cartonado
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Cindy Sherman: Metamorfoses, 2022
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A exposição Cindy Sherman: Metamorfoses, produzida pelo Museu de Arte Contemporânea de Serralves, Porto, em parceria com The Broad Art Foundation, Los Angeles, foi possível com a colaboração de The Broad, Los Angeles, Califórnia, The Broad Art Foundation e à Coleção Eli and Edythe L. Broad, tem curadoria de Philippe Vergne e está patente no Museu de Arte Contemporânea de Serralves, R. D. João de Castro, 210, no Porto, de 4 de outubro de 2022 a 16 de abril de 2023.
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Sobre a exposição no site da Fundação de Serralves, aqui, onde pode ver também alguns vídeos com visita guiada à exposição.
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