JORGE LIMA ALVES, O CADERNO MEXICANO, 2020

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Jorge Lima Alves

O caderno mexicano

Fotografia e texto: Jorge Lima Alves

Edição do Autor / 2020

Português / 13,4 x 19,6 cm / 52 pp., não numeradas

Agrafado / 50 ex.

ISBN: nd

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O trajecto está preparado para nós, quer viajemos depressa ou devagar.

D. H. Thoreau

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Jorge Lima Alves auto-edita mais um livro sobre as suas viagens. A fotografia e a escrita, dois modos de comunicação essenciais para o autor, funcionam independentemente, ao mesmo tempo que se complementam num discurso de diferentes leituras.

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Jorge Lima Alves mostra e escreve sobre o México que o fascina:

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No México, há quem adore a “Santa Muerte” como se fosse uma entidade divina. Porém, a tradição manda celebrar os mortos e não a morte.

Quando visitei aquele país, em 2008, a guerra dos “carteles”, só naquele ano já tinha provocado mais de 3.800 vítimas mortais, o que levou um universitário a afirmar num jornal diário: ” No México, rimos da morte mas, na realidade, é por medo”.

0 culto da morte existe ali há mais de três mil anos, lembram os que a adoram. Uns chamam- lhe “La Flaca”, outros ” La Comadre”, “La Bonita”, ” La Señora” ou “La Niña”. Mas também há quem a designe por “Aurora”, ” Niña Branca” ou “Dama de Negro”.

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Sobre a viagem, escreve:

Oaxaca, Puebla, Querétaro, San Miguel de Allende, Guanajuato… A ideia de ir ao México começou a germinar na minha cabeça em meados dos anos 70, quando li Antonin Artaud, Pedro Páramo e Octavio Paz. Mais tarde, a música dos Los Lobos, de Chave Ia Vargas e de Lila Downs reforçaram o meu desejo de um dia atravessar o Atlântico para ir ouvir ao vivo os “mariachis” a tocar “rancheiras”. Com uma condição, imposta a mim mesmo: estar em Oaxaca no Dia dos Mortos.

No voo que nos levou, de Madrid para a cidade do México (12 horas), tive tempo para mergulhar na (re)leitura das “Mensagens Revolucionárias” de Artaud que foi ao país dos Tarahumaras, nos anos  39, para procurar uma forma de vida mais harmoniosa entre o homem e a  natureza. (…)

Enquanto (re)lia Artaud, no meio das nuvens, pensava: e eu? que vou procurar? Para logo concluir: não vou para procurar nada mas para encontrar tudo: outro mundo e novos mistérios.

Já no hotel, numa bela manhã de 208, escrevi as primeiras linhas deste caderno:

“Não quero esquecer os vendedores de CD no Metro (música aos berros a sair de um altifalante às costas do vendedor, como uma mochila) e o pregão: ‘10 pesos! 10 pesos!’ pena que eu tenho de não ter fotografado os cais do Metro a abarrotar de gente, com polícias de dez em dez metros em cima de uma espécie de pedestais a vigiar o pessoal, de metralhadora em punho”.

(…)

Em Oaxaca, tal como esperava, o ambiente era de festa rija. Música, bailes, foguetes, por todo o lado. As ruas estavam apinhadas de gente e havia altares aos mortos em cada esquina, cada um mais bonito do que o outro. Os pregões dos vendedores de balões e guloseimas misturavam-se com as músicas dos mariachis e os risos das crianças que estavam por todo o lado. Na catedral, tivemos a grata surpresa de deparar com uma orquestra e um coro interpretando a «Missa Solene» de Beethoven, a que assistimos religiosamente.

(…)

Como não podia deixar de ser, visitámos o bairro de Coyoacán, onde está a famosa Casa Azul de Frida Kahlo, que não é possível percorrer sem um estremecimento. Foi aqui que ela nasceu e morreu e tudo ali permanece tal e qual como ela deixou, em meados dos anos 50, a tal ponto que esperamos vê-la entrar por ali adentro a qualquer momento. No fim da visita, dei por mim a pensar: “A diferença entre olhar e ver? Olhamos com os olhos, vemos com o coração’

(…) Depois, fomos passear por Polanco, um dos bairros chiques, onde descobrimos que um restaurante português era o mais concorrido do bairro.

(…)

Até que ponto um viajante como eu pode entender a realidade do lugar no qual se encontra de passagem? Já houve quem o dissesse antes de mim: toda a viagem é, em grande parte, uma história que contamos a nós próprios. Por isso, o relato de uma viagem não é mais do que o ponto de partida para uma nova viagem.

(…)

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Jorge Lima Alves, O caderno mexicano, 2020

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Jorge Lima Alves

Comprou a sua primeira câmara, uma Nikon FM preta com uma objetiva de 50 mm f1:4, em França, onde estava exilado há cinco anos, quando soube da Revolução de 1974, para vir de férias a Lisboa. Regressou definitivamente em 1976.

Foi jornalista na área da cultura (escrevendo sobre literatura, teatro, música) e durante 20 anos pertenceu aos quadros do semanário Expresso, onde foi editor da Cultura. Actualmente está reformado e, de vez em quando — cada vez mais raramente —, faz traduções literárias e escreve prefácios para livros.

A primeira grande viagem que fiz foi no ano 2000. Passei um mês inesquecível na Índia e desde aí, todos os anos, a minha mulher e eu, temos viajado imenso: China, Japão, Tailândia, Estados Unidos, Canadá, etc. Não sendo ricos, longe disso, poupamos no dia-a-dia para fazer estas viagens que se tornaram absolutamente essenciais para nós. Quando não podemos ir tão longe, por alguma razão, vamos mais perto: Roma, Veneza, Sevilha, Marselha, Munique, sei lá. Desde sempre, quando volto da viagem, imprimo as fotos que considero mais significativas e faço um álbum. Tenho duas caixas cheias deles: exemplares únicos que nunca mostro a ninguém, mas que vou folhear de vez em quando para meu prazer exclusivo. 

Quando veio a pandemia, veio-me a ideia de fazer versões digitais desses álbuns para ocupar o tempo. Depois comecei a pensar que talvez os pudesse partilhar e mandei imprimir um livro para experimentar. Com o tempo, tornou-se um vício: passo horas a rever as fotos e as notas que tirei nas viagens e a dar-lhes, no computador, a forma de um livro. Aprendi sozinho a paginar e a fazer as capas e hoje dá-me muito gozo fazê-lo. O propósito, como já percebeu, não é de todo ganhar dinheiro com isto, pelo contrário: gasto aqui o dinheiro que não posso gastar nas viagens por causa do Covid.

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Pode conhecer algum trabalho fotográfico e poético de Jorge Lima Alves, no FF, aqui e no seu blog, aqui.

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