GONÇALO FONSECA, NEW LISBON

Exposição na Galeria de Santa Maria Maior, em Lisboa, de 2 de fevereiro a 4 de março de 2023.

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Gonçalo Fonseca

New Lisbon

Fotografia: Gonçalo Fonseca / Texto: Gonçalo Fonseca, Maria João Costa

Lisboa: Autor / [Janeiro . 2023]

Português e inglês /  / 44 pp.

Agrafado / 250 ex. numerados manualmente e assinados

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Nesta série que vem desenvolvendo desde o ano de 2019, Gonçalo Fonseca vem mostrando a problemática da habitação na cidade de Lisboa e arredores.

Por ocasião da exposição na Galeria de Santa Maria Maior, em Lisboa, Gonçalo Fonseca editou uma fanzine sobre o projeto, catálogo da exposição, onde reproduz uma parte das fotografias da exposição, bem como um seu texto sobre o projeto e um de Maria João Costa, da Habita. Integra ainda o catálogo as legendas descritivas das histórias por detrás das imagens reproduzidas.

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Sobre o projeto, escreve o autor:

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NEW LISBON

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Antes da Pandemia começar, mais de 10.000 famílias já tinham perdido as suas casas na cidade de Lisboa.

O investimento desregulado de capitais estrangeiros e a indústria dos Airbnb, que aumentou 30 vezes nos últimos anos, a par com os baixos salários, criaram uma crise habitacional profunda na capital Portuguesa. Iniciado em 2019, New Lisbon narra o impacto que a incerteza habitacional tem na vida das pessoas mais vulneráveis na cidade. Desde o centro de Lisboa, onde idosos são vítimas de bullying imobiliário e ameaçados com despejo, até aos bairros periféricos, onde mães solteiras ocupam apartamentos vazios, este projecto de três anos é uma crónica exaustiva do falhanço de décadas de políticas habitacionais na capital. Segundo um estudo do Deutsche Bank, Lisboa é a cidade na Europa e a quinta no mundo onde os seus habitantes têm mais dificuldade em pagar a renda. Só em 2022, o preço médio do arrendamento subiu para 2200 euros.

New Lisbon recebeu o prémio Leica Oskar Barnak Award — Newcomer (2020), o Estação Imagem — Vida Quotidiana (2020), a Yunghi Grant (2020) e foi finalista no Pictures of the Year (2021). Esteve exposto em Portugal, Espanha, Alemanha, Bélgica, Austrália, Coreia.

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Maria João Costa, da Habita, regista:

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A Habita – Associação pelo Direito à Habitação e à Cidade foi criada formalmente em 2014 mas tem actividade no terreno desde 2005. Tendo começado pelo problema das demolições brutais em bairros autoconstruídos, a Habita foi assumindo a luta contra os despejos em geral, por casas que as famílias possam pagar, por condições dignas de habitação para todas nós sem discriminação, pelo direito a escolher onde vivemos e o modo como os nossos bairros e cidades são governados.

Combinando o estudo e a reflexão das causas profundas que agridem o direito à habitação e à cidade com a acção directa, a denúncia pública e a pressão política para combater a especulação imobiliária, mudando a legislação e as políticas. Defende para a habitação e o urbanismo uma política pública verdadeiramente participada, que combata todas os formas de discriminação social e garanta verdadeiramente o direito à habitação. Em solidariedade com pessoas e comunidades com o seu direito à habitação ameaçado e que estejam dispostas a lutar pelos seus direitos, o Habita desenvolve a sua prática através de princípios de auto-organização e apoio mútuo e apoia a resistência aos despejos procurando transformar as vítimas em protagonistas da sua própria luta. É um trabalho de convivência diário com a tragédia maior que resulta de ficar sem casa ou ainda antes de isso acontecer, com o horror da sua antevisão: ansiedade extrema, sentimentos de abandono e de culpabilização, enfrentamento da perda real de bens de toda uma vida, que para estas pessoas, como para todos nós, se organiza tendo por base o lugar onde vivemos a nossa intimidade, onde construímos laços e memórias e onde podemos regressar em segurança no fim do dia. Há pessoas especialmente vulneráveis — idosos, doentes, crianças que dificilmente ultrapassarão a vivência de um despejo e cujas vidas ficarão marcadas de forma indelével.

A desumanização atinge-nos a todos: a quem sofre um despejo, mas também a quem o acompanha. (E a quem o executa, mas a isso não me vou dedicar, por agora.)

É neste contexto que o trabalho do Gonçalo Fonseca entra com um valor inestimável: em primeiro lugar a sua presença delicada solidária junto das pessoas representa o reconhecimento e o respeito por essa dor quase sempre acompanhada do sentimento de abandono por toda uma sociedade indiferente. (E quantas pessoas nos referem a ternura dos momentos passados com o Gonçalo nas sessões fotográficas!) Depois, o papel óbvio de dar visibilidade a um drama que, sendo pessoal e único, é um problema estrutural da sociedade em que vivemos e que prefere não o conhecer. Mas o que é verdadeiramente único no trabalho do Gonçalo, o que constitui a meu ver o coração da sua arte, é o talento que tem de nos dar a ver, sem a exposição invasiva que por vezes acompanha as foto reportagens, a dignidade e a beleza presentes nos ambientes criados por essas pessoas no seu quotidiano e que de outro modo entram nas notícias como mais um caso na contabilidade da desgraça.

A nós, que convivemos com esta realidade dura e tememos ser dessensibilizados, tanto pela sua repetição constante como pela necessidade de as enquadrar em análises que vão além dos problemas individuais, as fotografias do Gonçalo ajudam-nos a devolver a dimensão única a cada pessoa, a cada família, a cada circunstância. Restituindo-lhes, e também a nós, a humanidade por inteiro.

Obrigada, Gonçalo!

Seguimos juntos!

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Gonçalo Fonseca, New Lisbon

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António Bracons, Aspetos da exposição, 2023

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A exposição NEW LISBON de Gonçalo Fonseca, mostra-se na Galeria de Santa Maria Maior, na R. da Madalena, 147, na baixa de Lisboa, de 2 de fevereiro a 4 de março de 2023.

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António Bracons, Gonçalo Fonseca, 02.02.2023

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Gonçalo Fonseca (1993) é um fotógrafo documental sediado em Lisboa que se especianza em trabalhos de longo prazo. Os seus trabalhos têm sido publicados pela TIME, Washington Post, The Guardian, Der Spiegel, El País, Expresso, entre outros. 

Desde 2017 tem vindo o realizar projectos em países como Portugal, Espanha, China e Índia sobre temas como Tráfico de Órgãos, Migrações e Crise Habitacional. 

Foi galardoado com o prémio Leica Oskar Barnak Award Newcomer 2020 (Alemanha), foi finalista no Pictures of The Year 2021 (EUA), e venceu prémios como o Estação Imagem – Vida Quotidiana e o Prémio Allard for International Integrity (Canadá, 2019). As suas fotografias foram expostas em exposições individuais no Porto, Copenhaga e Seul, e em exposições de grupo em Espanha, Canadá, Eslovánia, Alemanha, Reino Unido, Emirados Árabes Unidos, Austrália e China. 

E um embaixador da Leica. Nomeador do premio LOBA e educador de fotografia no projecto “Pelos Teus Olhos” em Chelas, Lisboa. 

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Sobre esta série no FF (exposição na Leica Gallery Porto), aqui.

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