JON GOROSPE, THE OBSERVERS
Instalação integrada na exposição “(0/1) o zero e o um”, patente no Museu Nacional de História Natural e da Ciência, em Lisboa, de 4 de Novembro de 2022 a 8 de Janeiro de 2023.
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Esta exposição dos artistas plásticos: Arturo Comas, João Motta Guedes, Jon Gorospe, Martim Brion, Susana Rocha e Teresa Murta, com curadoria de Sofia Marçal ocupa vários espaços do MUHNAC – Museu Nacional de História Natural e da Ciência, na Rua da Escola Politécnica, em Lisboa. Desculpem-me os outros autores, mas hoje vou apenas apresentar a obra de Jon Gorospe, The Observers.
Situada em pleno átrio de entrada, estes Observadores desafiam-nos: mais que observarem, Os Observadores observam-se a si próprios: todos eles registam-se em selfies, olham para si, eventualmente no mundo, mas são observam o mundo. Gorospe leva este olhar mais profundamente: regista Os Observadores integralmente, a corpo inteiro, a que acresce o smartphone, auto-fotografando-se, mas retira toda a envolvente, todo o contexto, todo o fundo é branco. A única imagem é a d’O Observador que se observa, qual Narciso contemporâneo debruçado sobre o Lago digital.
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Trago o texto da folha de sala, de Sofia Marçal (o enquadramento e sobre a obra de Gorospe):
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No princípio era o verbo, no princípio é a imaginação
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A exposição (0/1) o zero e o um, apresenta-se em vários locais do Museu Nacional de História Natural e da Ciência: no Átrio, no Anfiteatro do Laboratorio de Chimica, no Claustro, no Laboratório de Química Analítica e no Corredor da Geologia. O tema da exposição é baseado no livro, Atlas do corpo e da imaginação. Teoria, fragmentos e imagens de Gonçalo M. Tavares. “Digamos que, por mais possibilidades que a imaginação possa ter, o seu último lance é reduzir as infinitas possibilidades a duas e, de entre estas duas, por fim, escolher uma. Só assim a imaginação pode passar para o exterior, pois no exterior não há tempos duplos. Podemos fazer uma coisa e depois o seu oposto, mas não podemos ao mesmo tempo fazer uma coisa e o seu oposto.” [1] Aqui os artistas vão habitar o espaço com os seus trabalhos, trabalhos esses que contribuem para se ir fazendo um caminho como um percurso inacabado. “Marcar uma certa linha num certo instante não permita a previsão certeira do próximo passo.”[2]
Artistas com percursos e formação distintos, alguns trabalhos que se cruzam, outros que se completam e ainda outros que seguem caminhos paralelos, mas todos perseguem o conceito da materialização, da corporização. “Uma casa habitada deixa de ser um espaço para passar a ser aquilo que rodeia um corpo.”[3] Trabalhos artísticos que ocupam e se inscrevem-se neste espaço museológico e inexoravelmente apenas se concretizam quando a ideia, o conceito se materializa.
Citando a galerista Mercedes Cerón, promotora da exposição, “(0/1) o zero e o um, reflete sobre a imaginação e os conceitos de oposição, a arbitrariedade da interpretação e sobre a qual, a imaginação se foca através da representação da realidade ou dos objetos e não da coisa em si. A variedade de enunciados, reproduzindo metáforas multiplicando as possibilidades de verdade – uma espécie de ciência momentânea.”
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JON GOROSPE (Vitoria, 1986) Átrio
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A instalação The Observers, série da obra Polished Cities esteve exposta no Guggenheim de Bilbao em julho deste ano. É composta por impressões retro iluminadas e é ativada por sensores que detetam movimento e accionam os painéis de luz. “Hoje tornou-se banal evocar o conceito duma cultura da imagem, mas a verdade é que esta afirmação traduz a sensação que todos temos de viver num mundo onde as imagens estão não só a proliferar, mas a tornarem-se crescentemente variadas e intermutáveis.”[7]
Instalação fotográfica composta por selfies tiradas no mesmo local. Fotografias isoladas e descontextualizadas e sem escala, os seus gestos comuns e estranhos, são registados como se tivessem sido captados a partir de uma perspectiva simulada de câmaras de vigilância. “O amante da vida universal entra assim na multidão como num imenso reservatório de eletricidade. Pode-se também compará-lo, ele mesmo, a um espelho tão imenso quanto esta multidão; a um caleidoscópio dotado de consciência, que, em cada um dos seus movimentos, representa a vida múltipla e a graça móvel de todos os seus elementos. É um eu insaciável do não-eu que, a cada instante, o manifesta e o exprime em imagens mais vivas do que a própria vida, sempre instável e fugidia.” [8] Cada instante fotográfico, cada selfie, cada eu, são fictícios ou reais?
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Notas:
[1] Gonçalo M. Tavares, in: Atlas do corpo e da imaginação. Teoria, fragmentos e imagens de, p.395.
[2] Ob. cit, Gonçalo M. Tavares, p.31.
[3] Ob. cit, Gonçalo M. Tavares, p.414.
[7] Jacques Aumont, in: A Imagem.
[8] Charles Baudelaire, in: O pintor da vida moderna, p.20.
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António Bracons, aspetos da exposição, 2022
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“The Observers”, de Jon Gorospe, integra a exposição “(0/1) O Zero e o Um”, dos artistas plásticos: Arturo Comas, João Motta Guedes, Jon Gorospe, Martim Brion, Susana Rocha e Teresa Murta, com curadoria de Sofia Marçal, patente no Museu Nacional de História Natural e da Ciência, em Lisboa, de 4 de Novembro de 2022 a 8 de Janeiro de 2023 (inicialmente até 04.12).
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