BRUNO SAAVEDRA, PARA NÃO DIZEREM QUE NÃO FALEI DAS FOLHAS, 2021

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Bruno Saavedra

Para não dizerem que não falei das folhas. Just so it can be said I haven’t mentioned the leaves

Fotografia: Bruno Saavedra / Texto: Nuno Verdial Soares / Curadoria: Pauliana Valente Pimentel / Desenho gráfico: Fernando Pina

Edição do Autor / 2021  

Português e inglês / 26 cm x 21 cm / 52 pp.

Cartonado / 100 ex.

ISBN: 9789895340200 

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Bruno Saavedra apresentou parte desta série de fotografias numa exposição solidária, “Esperança”. Com as receitas dessa exposição adquiriu sobretudo material escolar que levou para as crianças que conheceu, e para outras. Reúne agora um conjunto alargado dessas fotografias neste livro.

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Bruno Saavedra, Para não dizerem que não falei das folhas

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Sobre este projeto, escreve Bruno Saavedra:

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PARA NÃO DIZEREM QUE NÃO FALEI DAS FOLHAS

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Pausa para férias em janeiro de 2019, com destino ao equador.

São Tomé e Príncipe são duas ilhas africanas no Atlântico ainda distantes de Angola e bastante, muito mesmo, longe da costa brasileira. O destino é, pois, tropical, mas nada diz a um baiano do interior que vive há mais de 17 anos em Portugal. Este é apenas um momento tranquilo que se procura num país sem inverno nem bulício.

À chegada, nada chama particularmente a atenção. A natureza luxuriante lembra um Brasil distante do exílio europeu urbano. A sensação, quase instintiva, é de afastamento. Mas há os ilhéus, aquelas pessoas todas que ali estão nas ruas de terra e que moram em casas decadentes. Há um sorriso quente e um jeito leve de viver. Há crianças, muitas crianças, com olhos grandes e gestos doces e traquinas. E o olhar, aos poucos, tateia este ambiente. Encontra pontos de referência, aqueles pormenores descobertos sem querer, mas também sem precisão, como quando se distinguem vagas sombras na noite. Lentamente, a memória do que também ali é Brasil vai criando uma familiaridade não desejada, sentida apesar dele próprio. E as imagens vão começando a ser fixadas como estão ou como descrições encenadas do seu olhar. São pessoas com paisagens mais do que paisagens com pessoas. Este é um traço de estilo de uma arte própria. A arte de Bruno Saavedra.

A proximidade tornada carinho, uma atenção que deseja compreender, o reviver de projetos com crianças na sua estada em Macau inspiram-lhe “Esperança”, uma exposição solidária em Lisboa, inaugurada menos de um mês depois do seu regresso. O entusiasmo deu frutos traduzidos em variados objetos, cada um destinado a uma criança especial, a um sorriso curioso encontrado naquele tal janeiro. A ideia de regresso um ano mais tarde concretizaria a promessa, mas também alimentava aquela atração cada vez maior pela sensação de estranheza que não o tinha abandonado.

Em janeiro de 2020, o mar e o céu das ilhas já não foram só espreitados, foram pressentidos e tocados intencionalmente. Porém, de novo, não era a paisagem essencial, era antes a essência natural em que habitam todas aquelas pessoas que ele queria verdadeiramente ver. E em todo aquele verde no meio do mar há folhas de bananeira, a árvore divina que alimenta graciosamente aquela gente afável e divertida. E se eles e as folhas são um só, as suas cores são também omnipresentes nos tecidos postos a secar, nos cortinados-gelosias das casas, nos trajes, na luz dos seus rostos. Foram voluntários nas experiências de fotografia tão naturalmente encenadas e, nestas, sente-se e entende-se uma leitura do humano, um toque profundo de beleza. E o que é paisagem neste projeto também são mulheres e homens e crianças. Mas, acima de tudo, é um sentimento de procura do outro, de olhar interessado, perscrutador, atraído. E justo, como justos são aqueles que sinceramente buscam o próximo. As fotografias de Bruno Saavedra neste trabalho mantêm uma linha e uma perspetiva de continuidade com “Made in China” ou “Na terra de Jacó”. A imagem de cada pessoa, aparentemente estática, leva-nos à sua relação com cada objeto que a rodeia ou em que toca. É um momento de intimidade, uma metáfora plena da vida. Naquela terra no meio da Terra, entre a generosidade plena da Natureza, vive gente a quem, paradoxalmente, faltam horizontes para além das bananeiras. As tais que estão em todo o lado e enchem as imagens turísticas das ilhas. As tais árvores verdes com as suas folhas carnudas. (…)

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Bruno Saavedra, Para não dizerem que não falei das folhas, 2021

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Bruno Saavedra é um fotógrafo e artista luso-brasileiro.

Nasceu em 1987 na cidade de Itamaraju-Bahia no Brasil. Reside em Portugal desde 2004.

Aos oito anos, apaixonou-se pela fotografia, indiretamente influenciado pela sua avó materna, que passava os serões mostrando-lhe negativos, monóculos e fotografias antigas de família. 

Em 2005 começou a trabalhar como assistente do fotógrafo Alberto Silva nas Festas da cidade de Almeirim.

Viveu três anos em Macau, na China (2011/2014), onde trabalhou em diversas atividades artísticas de animação sociocultural na Casa de Portugal e iniciou o estudo da fotografia com o fotógrafo António Duarte Mil-Homens (2012).

De regresso a Portugal, concluiu o curso de maquilhagem da Lisboa Make-Up School (2014) e deu continuidade aos estudos fotográficos na Restart – Instituto de Criatividade, Artes e Novas Tecnologias (2015/2016).

Em Abril de 2015 desenvolveu a concepção do espetáculo de Fado: “Gosto da Parreirinha – Homenagem a Argentina Santos”, apresentado no Centro Cultural de Belém.

Fez o workshop Food Photography, com Jorge Simão (2016), e o 5º Workshop Narrativas Fotográficas do Intendente, com a fotógrafa Pauliana Valente Pimentel (2016/2017).

Foi assistente do fotógrafo Steve McCurry, durante uma tarde por Alfama, onde ele fotografou o elenco da casa de Fados Parreirinha de Alfama e o cantor Jorge Palma (2017).

Foi acompanhado pelo fotógrafo Válter Vinagre e pela fotógrafa Pauliana Valente Pimentel no desenvolvimento do projeto ANA (2017/2018).

Frequentou o curso da Escola Informal de Fotografia, com Susana Paiva (2018), e o Curso Avançado de Fotografia da Ar.Co (2018/2019).

Participou no Workshop de fotografia de rua, promovido pelo espaço Valsa e lecionado pelo fotógrafo brasileiro Gustavo Minas (2019).

Participou na residência artística: “Imersão na paisagem – caminhar, parar e reparar” na paisagem protegida de Cornos do Bico, promovida pela Ci.clo Bienal ́19 e lecionada por Virgílio Ferreira, Tiago Porteiro e Manuela Ferreira (2019).

Participou do 6º Workshop “Construindo um documentário” promovido pelo espaço Valsa e lecionado pelo realizador brasileiro Dewis Caldas (2020).

Trabalhou como fotógrafo de cena e fez pesquisas de conteúdo para a série documental “Puro Fado” (2020).

Desde 2014 trabalha como fotógrafo da Casa de Fados “Parreirinha de Alfama”.

Desde 2015, tem exposto os seus trabalhos com frequência por diversos locais do mundo como Portugal, Austrália, Brasil, Macau e África.

A fotografia de Bruno Saavedra vai além do documental, conceptual ou até mesmo autoral. É algo quase subliminar, com muita verdade, sentimento e respeito pelo que se fotografa.

Com o passar dos anos, nota-se a sua obsessão por documentar as coisas simples da vida. A identidade, a intimidade, as questões culturais, sociais e a memória coletiva são, por isso, os principais temas dos seus trabalhos.

Bruno Saavedra realizou várias exposições individuais e coletivas.

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No FF, pode ver sobre a exposição “Esperança”, aqui e conhecer outros projetos de Bruno Saavedra, aqui, ou no seu site, aqui.

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Cortesia do Autor.

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