INÊS D’OREY, BEOGRAD CONCRETE, 2022
Exposição na Galeria das Salgadeiras, em Lisboa, de 7 de junho a 8 de outubro de 2022.
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Inês d’Orey
Beograd Concrete
Fotografia: Inês d’Orey / Texto: Andreia Garcia / Conversa entre: Jelena Gacic, Marko Krsmanovic-Simic e Sinisa Vlajkovic
Lisboa: Galeria das Salgadeiras / Janeiro . 2022
Português e inglês / 17,5 x 23,2 cm / 80 pp.
Cartonado / 300 ex.
ISBN: 97789899703957
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A Galeria das Salgadeiras editou, entre dezembro de 2021 e janeiro de 2022, quatro livros correspondentes a outras tantas exposições que apresentou no seu espaço: “Sol”, com base em trabalhos de génese fotografica de Rui Horta Pereira; “Rising”, na obra escultórica de Rui Soares Costa, “Sarkis”, fotografia de Cláudio Garrudo e o presente, “Beograd Concrete”, cuja exposição apresenta-se na Galeria.
A arquitetura modernista representada nas fotografais é reforçada na exposição pela apresentação: Inês d’Orey utiliza gavetas de roupeiro de um dos edifícios modernistas em remodelação como caixilho para as suas imagens.
Este livro integra o trabalho fotográfico de Inês d’Orey, conjuntamente com o ensaio de Andreia Garcia, “Uma atitude de descoberta sobre a arquitectura de Belgrado. Imagens transcendentais.”, e “Uma conversa à lareira com Jelena Gacic, Marko Krsmanovic-Simic e Sinisa Vlajkovic” [desculpem a falta de acentuação dos ‘c’], “todos eles de Belgrado e entusiastas da Arquitetura Moderna”, sob o título “A crónica do Modernismo vivo de Belgrado”.
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Na folha de sala, escreve Ana Matos:
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Há lugares que, antes ainda que o saibamos, já são nossos e não me refiro à pertença material, mas a essa afinidade etérea, pouco concreta que, quando sucede, o que pode levar uma vida ou nunca vir a manifestar-se, nos traz esse reconhecimento epifânico: aqui estou/sou. É esse sentimento de pertença que transparece da série «Beograd concrete» na qual Inês d’Orey torna seus os lugares que, serenamente, pareciam aguardar este resgate. O título induz, convoca, desvenda essa apropriação, essa concretização, jogo semântico e sintático sugerido entre um adjetivo, um nome ou uma acção — talvez, na idiossincrasia da sua prática artística, esteja um pouco de tudo isso.
Quando, em 2021, surgiu a possibilidade de uma residência artística em Belgrado, Inês d’Orey, como é habitual no seu processo artístico, começou por investigar a arquitectura e história locais, focando o seu objecto de estudo na estética modernista e brutalista das décadas de 50 a 70, como o icónico Palácio da Sérvia ou o entretanto remodelado Centro Sava. Muitas ruas percorridas e portas que se foram abrindo depois, nesse deambular pela cidade, emergem outras realidades que a transportam para memórias ainda mais longínquas, recuando aos anos 30 do século passado, sendo o ponto de viragem essa “crónica do modernismo vivo de Belgrado” que é o no 22 de Obilicev Venac. No caso de Belgrado, a Inês d’Orey interessou-lhe particularmente esta mestiçagem de estilos e de referências arquitectónicas, onde se cruzam os edifícios públicos construídos entre 1946 e 1980, outros de habitação ou escritórios datados da Primeira Guerra Mundial, quando foi formada a Jugoslávia, reforçando essa relação entre a arquitectura e a identidade que esta confere ao território onde se insere.
A fotografia de Inês d’Orey como linguagem, repleta dos seus próprios signos e símbolos, deriva do espaço enquanto objecto arquitectónico e a ele vem a regressar um pouco mais adiante. Há como que uma suspensão do tempo de um lugar mutante, repositório de uma “patine” que parece cristalizar esse momento de ausência temporária da presença humana. Antevemos, pois, que são lugares habitados, ou melhor vividos, calcorreados, num tempo que se retoma, pondo em marcha a história. Cimento, betão, estrutura sólida e inabalável que conserva memórias recentes, primitivas, relevantes, mundanas. Voltamos ao espaço, já não em Belgrado mas no Porto, especificamente à Casa Richard Wall, projectada em 1958 pelo arquitecto João Andresen. Antes da sua demolição, que veio a ocorrer no início deste ano, Inês d’Orey ainda consegue recuperar algum do mobiliário da Casa que, sendo contemporâneo do tempo de «Beograd concrete», passa a acolher memórias de quem olha, lê e reconhece a História como um conceito vivo, fluído, talvez com uma ligeira tonalidade branca. Ou não fosse o branco, de acordo com alguns sistemas, a cor que agrega todas as restantes do espectro. Branco, início, fim, serenidade, luz, estar/ser. Cidade branca — Beograd.
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Junho de 2022
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António Bracons, Aspetos da exposição, 2022
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O ensaio do livro é da arquitecta Andreia Garcia:
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Uma atitude de descoberta sobre a arquitectura de Belgrado. Imagens transcendentais.
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Escrever sobre as imagens de Belgrado de Inês d’0rey, captadas em maio de 2021, é pôr em causa o conceito de tempo, ou libertarmo-nos de uma única ideia sobre a sua definição. As suas coordenadas extrapolam o conceito, no sentido de o aliar à sua cristalização, porque os tempos do seu olhar são sempre de mudança, mesmo fazendo parte de um mundo que compreende as suas relações com a história e as ocasiões da sua existência. Certamente.
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Há, por um lado, qualquer coisa de estranhamente temporal na ideia da sua inacessibilidade, para lá da observação. De facto, uma imagem produzida num tempo, de espaços concebidos num outro tempo, visualizada num enquadramento transitivo de tempos, transporta um universo denso. Ou a fotografia é afinal o mediador entre o tempo onde tudo acontece.
Admitamos que apreendem o tempo na medida da análise ou do processo do volume de produção arquitectónica de uma Belgrado feita de assombros e de traumas. Nesse mundo beligerante vemos a reprodutividade da cultura arquitectónica jugoslava que, desde a ruptura com o estalinismo em 1948 até à morte de Tito, o líder autoritário deste país, em 1980, assumia um compromisso de interpretação das correntes. Esta tónica, transferida para o período histórico seguinte, marcado pelo início da crise político-económica, não deixa de ser o momento que marca a emergência do conceito de pós-modernismo no discurso arquitectónico jugoslavo.
Entendamo-nos, nesta viagem pelas imagens, como sujeitos passivos, tal como os arquitectos deste passado, sem perder o sentido do olhar, mas reforçando-o sobre o olhar da fotografa que retira o ponto de vista actual e factual sobre a definição de tempo, aquele que não parte da tábula rasa, que não volta ao zero para entender ou escrever o que acontece, mas que antes anuncia as mudanças que permitem o avanço.
Estas fotografias acrescentam pormenores inquietantes, códigos que na verdade sempre estiveram nestes corpos, mas que não se apresentavam decifráveis. São imagens desejantes para a elaboração mental da relação entre visibilidade e invisibilidade de extremos temporais e viragens históricas. Entendemos, com elas, que os arquitectos jugoslavos produziram massivamente e projectavam a sua identificação amplamente modernista, paradoxalmente inovadora se analisarmos os tempos sucumbidos.
(…)
No final, numa espécie de regresso a qualquer uma das pausas presentes em cada fotografia, tudo se torna mais inquietante. E, uma vez mais, tudo começa de novo quando se percebe a oportunidade que cada imagem enceta em si na rememoração do que sempre lá esteve, mas que nunca tivemos a oportunidade da leitura exploratória de Inês d’Orey que nos renova o espanto pela arquitectura modernista de Belgrado. O tempo, a pausa e o silêncio voltam-nos para o universo da forma, da massa, do vazio, do corpo, da proporção, da textura, do ritmo, da cor, da consistência. Metáforas de uma memória atemporal. É sempre o tempo. Singularidade sem suspensão, devolução do início.
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Inês d’Orey, Beograd Concrete, 2022
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A exposição de Inês d’Orey, “Beograd Concrete”, está patente na Galeria das Salgadeiras, na R. da Atalaia 12 a 16, em Lisboa, de 7 de junho a 8 de outubro de 2022 (prolongada de 10 de setembro).
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Inês d’Orey
Porto, 1977, Porto.
Grande parte do seu trabalho artístico incide na transformação da identidade patrimonial da cidade contemporânea, onde o objecto arquitectónico se apresenta como sujeito de memória, mutante de significados ao longo do tempo. A arquitectura, a polis, a fronteira ente espaço público e privado, a investigação sobre os lugares e seus contextos são alguns dos elementos que constituem o seu corpo de trabalho, cujo principal meio é a fotografia, ainda que com fusões com a instalação e o vídeo. Expõe, publica e faz residências artísticas com regularidade em Portugal e no estrangeiro (Dinamarca, França, Alemanha, Itália, Bélgica, Espanha, Reino Unido, Eslovénia, Lituânia, Brasil, Rússia, Japão, EUA, Sérvia).
Tem sido premiada pelo seu trabalho, nomeadamente com o prémio Novo Talento Fotografia FNAC 2007. É representada pela Galeria das Salgadeiras (Lisboa) e pela Galeria Presença (Porto).
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Formação
2002. Fotografia. London College of Printing. Londres. Reino Unido.
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Exposições individuais
2021. “Udgang”. Galeria Presença. Porto. “Antecâmara”. Belgrade Photo Month. Belgrado. Sérvia.
2020. “Futuro Contínuo”. Mira Forum Online.
2019. “Antecâmara”. Galeria das Salgadeiras. Lisboa.
2018. Do Not Sit Down, Galeria Presença, Porto. 3/4, Museu do Vinho, São João da Pesqueira
2016. Peso Morto, Galeria Presença, Porto
2014. Caixa Negra, Galeria Presença, Porto
2012/2013. Sala de Espera, Museu da Imagem, Braga
2012. Limbo, Galeria Presença, Porto. Douro Industrial, Amarante
2011. Douro Industrial, Mirandela. Na Casa Maria Borges, Porto. Porto Interior, Centro Português de Fotografia, Porto
2010. Porto Interior, Fnac Chiado, Lisboa e Cascais
2009. Porto Interior – Galleri Image, Aarhus, Dinamarca. Porto Interior – Novo Talento Fnac Fotografia 2007, Fnac, Antuérpia. Quinta das Lágrimas, Hotel Quinta das Lágrimas, Coimbra
2008. Porto Interior – Novo Talento Fnac Fotografia 2007, Fnac, Torino, Génova e Lovain-La-Neuve. Volver – Escola de Arquitectura da Universidade do Minho, Guimarães. Porto Interior – Novo Talento Fnac Fotografia 2007, Fnac, Braga, Coimbra e Milão
2007. Os Últimos Lugares – Sala Poste-Ite, Edifício Artes em Partes, Porto. Porto Interior – Novo Talento Fnac Fotografia 2007, Fnac Norteshopping, Matosinhos
2004. Soundtrack – Galeria Alvarez SalaUm, Porto
2003. Pagãos, Fadas e Cristãos – Edifício Artes em Partes, Porto
2002. Mulheres Portuguesas em Londres – Edifício Artes em Partes, Porto
2001. Women and Objects – Window 42, Londres
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Participou num número significativo de exposições coletivas.
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Prémios e residências
2021. Residência Belgrado. Sérvia.
2020. Residência na Embaixada de Portugal. Copenhaga. Dinamarca.
2019. Tokyo International Foto Awards (Prata). Tóquio. Japão. Moscow International Foto Awards (Segundo Lugar) . Moscovo. Rússia.
2017. Carpe Diem Arte & Pesquisa. Lisboa.
2007. Descubrimentos PhotoEspaña (Finalista). Madrid. Espanha. Fundação Inês de Castro/Quinta das Lágrimas. Coimbra. Novo Talento Fnac Fotografia 2007.
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Livros
2011. “porto interior”. Editora Fernando Machado.
2010. “Mecanismo da troca”. Edição de autor.
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Colecções
Fundação EDP. Colecção da Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian. Câmara Municipal do Porto. Câmara Municipal de Lisboa. Oliva Arauna Coleción, Espanha. Galleri Image, Dinamarca.
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Pode conhecer mais sobre a obra de Inês d’Orey aqui (site).
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