FILIPE CONDADO, NOS PASSOS DE ETTY HILLESUM, 2019, 2021
.
.
.
Filipe Condado
Nos passos de Etty Hillesum
Fotografias e selecção de textos de Etty Hillesum: Filipe Condado / Texto: José Tolentino Mendonça, Filipe Condado / Traduções do holandês: Maria Leonor Raven-Gomes (Diário), Ana Leonor Duarte e Patrícia Couto (Cartas)
Lisboa: Sistema Solar / Maio 2019 (1.ª ed.), Dezembro 2021 (2.ª ed.)
Português / 14,8 x 20,3cm / 168 pp (1.ª ed), 192 pp. (2.ª ed.)
Brochura
ISBN: 9789898902795 (1.ª ed.); 9789898833662 (2.ª ed.)
.
.

2.ª edição.
.
.
Este livro surge na sequência de uns exercícios espirituais que D. José Tolentino Mendonça orientou na Capela do Rato, em Lisboa, a que se seguiu uma peregrinação à Holanda, com base na vida e nos escritos – seguindo os passos – de Etty Hillesum.
Filipe Condado, fotógrafo, fez o retiro e a peregrinação. As fotografias que realizou deram origem a este livro.
O livro começa com um texto de D. José Tolentino Mendonça justificando a edição, a que se seguem ‘os pontos’ dos Exercícios Espirituais, começando por uma nota biográfica de Etty Hillesum. O texto merece uma leitura (completa) e reflexão. Pela profundidade, pela reflexão, pela história. Neste tempo de guerra na Ucrânia, tomar consciência que a destruição provocada pela guerra é muito superior à destruição aparente e quantificável.
Segue-se o portfólio: as fotografias, paralelamente a fragmentos dos escritos de Etty Hillesum, retirados do seu diário ou das cartas.
.
Permito-me transcrever parte do texto de José Tolentino Mendonça, que inicia a obra, bem como da nota biográfica de Etty Hillesum:
.
EXERCÍCIOS ESPIRITUAIS
.
Decidi-me a publicar estes apontamentos depois de ter visto as fotografias que o Filipe Condado realizou. As suas imagens têm certamente um enorme valor documental e correspondem a um trabalho pioneiro de revisitação biográfica dessa espantosa rapariga holandesa chamada Etty Hillesum. Filipe Condado é o primeiro autor a concretizar aquilo que está mais perto de ser um Projecto de fotobiografia dela. Mas não é só isso, O olhar de Condado tenta ver por dentro, obstina-se sobretudo em reconstruir o puzzle do movimento interior de uma vida. E desse modo, concedeu-me também o espaço para publicar as notas destes exercícios espirituais que eu havia orientado, em que a figura e os escritos de Etty Hillesum são, como ela diria, o coração pensante. (…)
.
Preparar o coração
.
Antes de tudo perguntemo-nos o que é, em que consiste a experiência dos exercícios espirituais. Penso que sejam sempre de preferir as respostas mais sucintas. A mim serve-me esta: é um tempo de exposição a Deus… Como as folhas de uma planta se expõem ao sol para que nelas se desencadeie uma função vital, assim também nos expomos a Deus e ao seu olhar, ao seu amor, para que se active em nós um trabalho interior e invisível, mas igualmente vital.
Por isso, é importante que aproveitemos o tempo o melhor possível, e o procuremos qualificar com decisão. (…) aquele verso de Adília Lopes: «o tempo é templo». Ser-nos-á seguramente útil. E há aquele dito de um Padre do deserto: «Se cada um no fundo do seu coração não disser: “Eu e Deus estamos sozinhos no mundo, esse nunca terá paz.» Tomemo-lo como proposta objectiva, também.
(…) Ainda uma última questão propedêutica. Na dinâmica dos exercícios espirituais as palavras podem ser importantes. Contudo, o mais importante é cada um deslocar o coração silenciosamente para Deus. E, mesmo que, no final, sintamos que não encontramos nada, o importante foi este exercício de abertura, este voltar-se para Deus com confiança.
Vamos procurar o silêncio, desejar o silêncio, esse hóspede por vezes difícil. (…)
.
Uma vida em contraciclo
.
Não raro, reduzimos a espiritualidade ao estatuto de grafia tipicamente religiosa, desligada do resto. Para Etty, a espiritualidade foi uma experiência unificante e inteira, em que a descoberta de Deus ou das práticas orantes eram indissociáveis do ardente encontro consigo mesma. Isso podemos verificar tanto no desenho da sua biografia, como nas atitudes fundamentais que foram germinando nela e constituíram, depois, a sua expressão religiosa, ética e poética. Cada vida é uma história sagrada. O que nos é pedido não é o rastreio moral daquela existência, mas um reconhecimento. E aceitando a vida de Etty Hillesum, talvez aprendamos alguma coisa sobre a arte de aceitar a nossa própria vida.
Esta rapariga, judia e holandesa, viveu até aos 29 anos de idade, quando a sua vida foi violentamente interrompida no Campo de Concentração de Auschwitz. Estes 29 anos foram recheados de acontecimentos. E, ao longe, olhando para a vida dela — como ao longe, olhando para a vida de cada um de nós — percebemos que há um caminho de que ela talvez não fosse imediatamente consciente, que há um itinerário onde Deus se vai tornando uma presença nítida. Etty nasceu numa cidade, Middelburg, e — com a idade de dez anos — transferiu-se com os pais e os irmãos para outra, Deventer. Em Deventer, o pai, formado em Línguas Clássicas e com uma estrutura psicológica frágil, foi, primeiro, vice-reitor e depois reitor do Liceu. Uma dor que todos trazemos e que não conseguimos facilmente curar é a dor da família a que pertencemos. Os vínculos de sangue são chamamentos inapagáveis, cumpridos ou frustrados, explícitos ou submersos. Os nossos familiares próximos não são como os idealizámos, mas nem nós próprios correspondemos às expectativas deles. E forma-se essa ferida, ancestral, geológica e incurável, que se sedimenta no tempo e é, muitas vezes, um dos grandes pontos de luta do resto da nossa vida. No caso de Etty Hillesum isso era muito claro: aqueles pais, aqueles irmãos, eram para ela um confuso nó de amor e sofrimento. (…)
Até aos 18 anos Etty viveu com a família, e o vírus da infelicidade contaminou toda a sua infância e adolescência, como um mal que parecia perpétuo. Aos 18 anos, com o pretexto dos estudos, parte para Amesterdão. Embora tivesse concluído a licenciatura em Direito [Julho 1939], interessa-se muito pelas línguas, nomeadamente pelo russo; torna-se uma leitora omnívora (…)
Um ponto de viragem na sua vida será claramente o encontro com Julius Spier; ele também judeu, (…) Etty começa, por exemplo, a escrever o Diário por sua sugestão e vai sendo progressivamente iniciada neste «entrar em SI mesma», que é uma coisa tão difícil! Parece uma tarefa óbvia, mas muitas vezes fica por concretizar isso de entrarmos na nossa morada e afrontar aquilo que somos. Essa é a viagem mais longa que poderemos realizar. O que é extraordinário na vida desta jovem mulher é que ela, de facto, se mete a fazer esse caminho, inicialmente com uma angústia avassaladora, e revelando passo a passo uma notável capacidade de renascer.
Porém, enquanto ela se debatia com a reconstrução da vida, o cerco da morte fazia-se vizinho. Em Maio de 1940, os nazis invadem também a Holanda, e começa a perseguição metódica aos judeus. As autoridades alemãs concretizavam-na de uma forma crudelíssima: não eram eles que escolhiam os que iam para o Campo de Concentração; eram judeus que, através do Conselho Judaico, mediavam a ida dos outros judeus, o que tornava tudo ainda mais perverso. Etty chegou a trabalhar por breve tempo no Conselho Judaico em Amesterdão, na secção «Ajuda aos que partem», desempenhando tarefas burocráticas. Depressa se apercebeu do que estava, na verdade, a acontecer e solicitou voluntariamente transferência para a extensão do Conselho Judaico em Westerbork, departamento de «Bem-estar social das pessoas em trânsito». Primeiramente ela ainda ia e vinha entre esse Campo de Trânsito (que funcionava como uma estação intermédia antes de Auschwitz) e Amesterdão, até por motivos de saúde (ela dizia que tomava um quilo de aspirinas por mês). Aos poucos, porém, acaba por ficar no Campo, e, a partir da dissolução da secção do Conselho Judaico em Westerbork [em 5 de Julho de 1943], será declarada prisioneira efectiva, dada a extinção das prerrogativas anteriormente reservadas aos colaboradores desta instituição. Em Westerbork ela escreve o seu Diário, mantém uma correspondência e, sobretudo, está ao lado dos que sofrem. Naquele mundo completamente inesperado, naquele lugar que diríamos o «antilugar do espírito», ela vive uma das aventuras espirituais mais incensas do século. Um dia é metida num dos vagões com destino a Auschwitz. A última carta que temos de Etty Hillesum é um postal que ela consegue lançar para fora da carruagem, onde diz: «Deixámos o Campo a cantar» [Carta 71. A Christine van Nooten, arredores de Climmen, terça-feira, 7 Setembro 1943, Etty Hillesum, Cartas 1941-1943. Trad. de Ana Leonor Duarte e Patrícia Couto, Assírio & Alvim, colecção Teofanias, Lisboa, 2009, 238]. Ela chegou a Auschwitz no dia 10 de Setembro de 1943 e a sua morte foi anunciada pela Cruz Vermelha a 30 de Novembro do mesmo ano.
.
José Tolentino Mendonça apresenta de seguida os pontos dos exercícios espirituais, tomando “Etty como mestra espiritual”.
A terminar o livro, Filipe Condado dá o seu “Testemunho”:
.
No princípio do ano 2017, fui desafiado por José Tolentino Mendonça a participar numa peregrinação à Holanda — Nos Passos de Etty Hillesum, organizada pela Capela do Rato em Lisboa. Propósito: não apenas conhecer a sua vida e os seus lugares, mas sobretudo entrar na sua espiritualidade e deixar-se transformar por ela.
Além de integrar o grupo como peregrino, tinha a missão de produzir um registo fotográfico que pudesse, mais tarde, com uma escolha de textos do seu Diário, vir a ser materializado num livro ou numa exposição.
No meio de grandes transformações que ocorriam na minha vida, achei que poderia ser bom e aceitei o desafio. Só não sabia que, mais tarde, me iria também ser pedido que escrevesse sobre esta experiência (…)
Quando acabei de ler o Diário de Etty Hillesum, lembrei-me de uma frase que alguém terá dito: «Certos livros deixam-nos o barco depois da viagem». Etty, com o seu Diário, tinha-me deixado não só o barco, mas também uma forte tempestade que precisava de ser domada.
Como foi possível que uma só pessoa provocasse em mim sentimentos tão contraditórios?
Tanto me irritava com o seu excesso de introspecção, como me apaziguava com as suas descobertas; tanto parecia tornar tudo mais complicado, como sabia tão bem dar nome às coisas; tanto me deixava perdido e emaranhado nos seus caminhos interiores, como me oferecia pistas tão claras, de uma imensa frescura; tanto me cansava da sua complexa personalidade, como provocava em mim o desejo de uma nova espiritualidade por ela inspirada.
Foi neste cenário que, em Julho de 2017, parti, em peregrinação, para a Holanda.
E depois veio a parte mais difícil, partilhar por escrito esta experiência. Na verdade não foi apenas difícil, foi mesmo muito difícil, de tal modo que passei um ano e meio sem conseguir escrever uma palavra! O que é que me faltava?
Olhei centenas de vezes para estas fotografias; voltei ao Diário vezes sem conta, mas nada saía de mim.
Um dia percebi o que me acontecera. Não tinha ido como verdadeiro peregrino, como quem tem a coragem de partir de bolsos vazios, com o desejo ardente de acolher o que possa acontecer; como quem se dispõe a estar vigilante para não deixar que a subtileza de Deus lhe passe ao lado; como quem lhe basta o desejo de encontro para arriscar partir.
Senti-me então chamado a voltar, desta vez como peregrino, sem medo da possibilidade de regressar de mão vazias.
Marquei a viagem e em três semanas estava de partida.
Em Amesterdão hospedei-me perto da casa da Etty, pois queria fazer daí o meu ponto de partida.
No primeiro dia, noite adentro, percorri inúmeras vezes o caminho entre a sua casa e a casa de Julius Spier («o parteiro da sua alma»). Esperava com isso encontrar inspiração, mas nada acontecia. Ao frio e debaixo de chuva, senti-me como um mendigo perdido pelas ruas de Amesterdão. Numa das voltas, sentei-me naquelas escadas do n.º 27 da Courbetstraat, onde Etty também se terá sentado a absorver os progressos que o seu coração ia fazendo. Mas nem aí me saía nada. Senti que era tudo demais para mim.
Voltei ao caminho e, a dada altura, percebi que a chuva intensa me conduzia o olhar para o chão, impedindo-me de ver o que se passava à minha volta.
Levantei a cabeça como quem deixa de olhar para dentro e comecei a fixar-me no interior das casas. O escuro da rua e o enquadramento das próprias janelas criavam a ilusão de estar no cinema a ver filmes de vidas reais: amigos volta de uma mesa; casais aconchegados no sofá; crianças de pantufas aos saltos na cama. Cenas familiares de um quotidiano feliz e tranquilo.
Quando cheguei de novo a casa da Etty, também olhei para dentro, mas estava tudo apagado.
Então, senti que tinha diante de mim o seu legado.
A sua entrega de vida e a sua dádiva de amor estavam agora espalhadas pela paz que testemunhei no interior das outras casas, como se
de um efeito colateral se tratasse. Tão discreto, tão simples; aparentemente tão Insignificante, mas tão nobre e grandioso!
Voltei a Westerbork, e aí percebi que foi também por ela que aquele campo, outrora lamacento e lugar de um enorme sofrimento, se tinha podido transformar num belo, sereno e até leve jardim verdejante.
Ela, como ninguém, mostrou-me o que é guardar e defender até às
últimas consequências o lugar que Deus habita em nós.
Ela, como ninguém, ensinou-me a importância de exercitar a gratidão.
Ela, como ninguém, mostrou-me que é o facto de esperarmos um destino comum que nos faz cúmplices e irmãos na aventura do caminho.
.
.
.
Filipe Condado, Nos passos de Etty Hillesum, 2021
.
.
.
David Condado. Nasceu em Lisboa, 1973.
Curso de História da Fotografia, AR.CO, Maio de 2005.
Curso de Tratamento Digital de Fotografia, I.P.F., Março de 2005.
Licenciatura em Marketing, IADE, 1997.
Curso de Fotografia, AR.CO, 1991/3.
EXPOSIÇÕES INDIVIDUAIS:
– Destruir – Galeria Diferença, Lisboa, Março de 2018.
– Casas Vazias – Sala do Veado, Museu Nacional de História Natural, Lisboa, Janeiro de 2013.
– Women – Galeria de São Mamede, Lisboa, Setembro de 2010.
– Kungokhala – Árvore, Cooperativa de Actividades Artísticas CRL, Porto, Setembro de 2007.
– Interiores – Ed. da Alfândega – Centro de Congressos e Exposições, Porto, Outubro de 2006.
– Interiores – Centro de Congressos, Tivoli Marinotel, Vilamoura, Maio de 2006.
– Uma Paragem Por Aquilo Que Nos Passa – Galeria de São Mamede, Lisboa, Janeiro de 2006.
– Kungokhala – Centro Cultural de Cascais, Cascais, Agosto de 2004.
EXPOSIÇÕES COLECTIVAS (selecção):
– 13ª Bienal de Fotografia de Vila Franca de Xira, Novembro 2014.
– World Photo Organization – Somerset House, Londres, Maio 2014.
– Shrinking-Cities / Expanding Landscapes – Edinburgh College of Art, Novembro 2013.
– Artistas Solidários com Alzheimer Portugal – Centro Cultural de Cascais, Outubro 2011.
– Arte Lisboa – Feira de Arte Contemporânea – FIL, Novembro de 2010.
– XI Bienal de Fotografia de Vila Franca de Xira, Celeiro da Patriarcal, VFX, Novembro 2010.
– O Lugar – Centro de Arte Contemporânea – Casa da Galeria, Santo Tirso, Setembro 2010.
– I Bienal Internacional do Montijo – IX Prémio Vespeira, Câmara Municipal do Montijo, Agosto 2008.
– Arte Lisboa – Feira de Arte Contemporânea – FIL Parque das Nações, Novembro de 2005.
– XIV Galeria Aberta – Museu Jorge Vieira, Beja, Novembro de 2005.
– II Bienal de Coruche – Salão de Artes Plásticas – Outubro de 2005.
– Prémio Vespeira – VIII Bienal de Artes Plásticas Cidade de Montijo, Câmara Municipal de Montijo, Galeria Municipal, Junho de 2005.
– II Bienal de Artes de Mafra – Câmara Municipal de Mafra, Galeria da Casa de Cultura Jaime Lobo e Silva, Ericeira, Maio de 2005.
– III Feira de Arte Contemporânea do Estoril, Centro de Congressos do Estoril, Abril de 2005.
– PAV Arte 92 – Escola Sec. Padre António Vieira, 1992.
– Uma (Lis)boa Ideia – C.M.L. – Padrão dos Descobrimentos, Lisboa, 1989.
TRABALHOS PUBLICADOS (selecção):
– “Nos passos de Etty Hillesum”, Sistema Solar, Maio 2019.
– “Sanctuary”, Renova, Agosto 2018.
– “Um olhar pelo melhor de cada um”, Ed. Tecnifar, Dezembro 2006.
– “Kungokhala – Fotografias de Moçambique”, Ed. Autor, Novembro 2005.
– “Guia e Roteiro do Oceanário de Lisboa”, 1998
– “Pavilhão dos Oceanos – Expo 98″, Catálogo Oficial, 1998.
– “Álbum de Recordações”, Casa da Praia – Centro de Pedagogia Experimental, 1993.
REPRESENTAÇÕES:
– Baptista, Monteverde & Associados; Barrocas Sarmento Neves, Advogados; Casa das Penhas Douradas; Centro Cultural de Cascais, Fundação D. Luís I; Hotel Britânia, Lisboa; Mckinsey International; Ministério dos Negócios Estrangeiros – Embaixadas de Portugal; Colecções particulares em Portugal, Brasil, China, Suíça e Espanha.
.
.
.
Pode conhecer mais sobre a obra de Filipe Condado, aqui.
.
.
.













