ADRIANO MIRANDA, DA UCRÂNIA COM AMOR . 3
Exposição na Biblioteca da Universidade de Aveiro, de 15 de junho a 15 de julho de 2022.
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“As fotografias que nunca quis fazer.”
Adriano Miranda
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Adriano Miranda foi um dos fotojornalistas portugueses que esteve na Ucrânia desde os primeiros dias da guerra.
Fotografou para o jornal “Público”, cujo quadro integra. De 1 a 10 de março, escreveu 10 crónicas, que foram publicadas pelo jornal, sob o título “Da Ucrânia com Amor”, como refere, “um diário de um fotógrafo na Ucrânia”. Uma 11.ª crónica leu o autor na inauguração da exposição.
Trago aqui essas crónicas, ao longo de três publicações, a par com algumas das suas fotografias.
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8 de março de 2022
Crónica VIII
O pianista
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Não há frio que o derrube. Num piano de cauda, o pianista espalha música pelas árvores, pelo fumo, pelos deslocados e refugiados, pelos sem-abrigo, pelas panelas, pela sopa e pelas lágrimas. É a sua forma de ser solidário. A música sempre foi uma arma. Arma poderosa. Ele esforça-se. Ninguém o aplaude. Ele também não quer. Ali, o palco é dos que sofrem. A tragédia saiu à rua. Não sei que acordes, o pianista magro e de chapéu, oferece a quem desespera. Só sei que sabe bem. No piano, a tinta branca, sem grandes cuidados estéticos, um pincel pintou o símbolo dos pacifistas. Único até agora. Por toda a cidade não se deslumbra simbologia à paz. Apelos. Bem pelo contrário. A raiva está em cada esquina. A guerra é para ganhar.
Vendem-se tulipas. De todas as cores. E malmequeres brancos. Homenageiam os mortos. Enfeitam os parapeitos das janelas. As pombas sobrevoam baixinho. Partilham as migalhas. O céu está estranhamente silencioso. O que estão os invasores a preparar? Ninguém sabe. A guerra é um jogo. Um jogo feio e malcheiroso. O pianista não deixa que o frio lhe prenda os dedos. Pela razão não há frio que vença.
Uma máquina estranha. Alimentada a lenha e fogo. Parece de outra guerra bem penosa. A guerra dos nossos bisas e avós. Homens sujos aquecem água. Muito chá quente é necessário. Fazem sopa. Bolachas também há. Tendas azuis são agora pequenos hospitais. Outras, salões aquecidos. O ar é abafado. Mulheres, crianças e homens velhos procuram aconchego. As filas são enormes. Uns querem partir. Outros acabam de chegar. São milhares de seres humanos. Organizados. Serenos. Sempre com as lágrimas nos olhos. Depois, existem os outros. Os sem-abrigo. Aquecem as mãos e os pés em bidons com lenha a arder e fumo benzido. Matam a fome. E depois os outros. Os ciganos. Fugitivos. Mal agasalhados. Tentam matar a fome. Quando deixam. Poderão cair bombas. Dificilmente serão contabilizados.
O pianista bem se esforça. Mas a sua música não amolece todos os corações. Uma rapariga grita babushka, babushka e a neve começa a cair forte. Quanto tempo durará esta viagem?
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9 de março de 2022
Crónica IX
Os irmãos
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O autocarro com militares está estacionado numa rua perto da igreja. Alguns comem. Imagino que o pequeno-almoço no quartel tenha sido madrugador. Uma bandeira da Ucrânia está enrolada num pau grosso e castanho. Fazem um compasso de espera. Chegará em breve o camarada. Ou dois camaradas. Ou três camaradas. Morto, ou mortos, na linha da frente. Será a hora da despedida. De homenagear com flores e lágrimas. São os novos heróis do país. Anónimos com bravura ou sem bravura.
Alinhados, os jovens militares comungam da oração. O que será uma bala? O que será um estilhaço? Como será a dor da pele a estalar e da carne a abrir? Qual o sentido desta guerra? Mas que guerra faz sentido? Fixo um jovem fardado e hirto. Tem consigo a bandeira que jurou defender. É parecido com o meu filho mais velho. Recordo o rosto do João. Recuso-me a imaginá-lo de arma em punho. Vestido de farda e colete à prova de bala. A matar para não morrer. O soldado do outro lado da trincheira também mata para não morrer. Afinal, são ambos soldados e juraram defender uma bandeira. Mas antes do juramento, são filhos do ventre de mães felizes na hora do primeiro choro e na alegria do primeiro banho. Depois virão os vermes. Sentados em luxuosas cadeiras, com dedos grossos e cachuchos reluzentes. As mães terão que dar os seus filhos. Será o juramento da hipocrisia e da vergonha. Os vermes riem de prazer. Terão carne para se defender.
Militares mortos entrarão pela cidade com grande frequência. A cidade ganhará nova rotina. Haverá muitos pais sem filhos e muitos filhos sem pais. Nervos contidos. Impotência devastadora. A guerra continua. As vidas estão suspensas ou desfeitas. A dor tomou conta de tudo e de todos. É a luta de irmãos contra irmãos. De mães contra mães. No horizonte, não se vislumbra o mastro da bandeira branca. Ninguém tem imaginação suficiente para adivinhar o fim. A guerra não é um conto de fadas.
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10 de março de 2022
Crónica X
Até sempre
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Caro leitor, cara leitora
A jornada chegou ao fim. Seria bom ter corrido para entrar num comboio azul. Apanhar uma boleia que alegrasse o caminho com a sua buzina. Seria bom, ter fotografado abraços e choros de gente feliz. Ter visto os namorados a beijarem-se sem vergonha. Os reencontros apertados das mulheres com os seus amados. As crianças a fazerem dos tijolos derrubados os seus castelos. As túlipas a forrarem o céu. A música, triste e alegre. E no altifalante da praça, o comunicado da esperança – os homens selaram o acordo com as mãos apertadas. Queria tudo isto. Queremos todos isto. Mas nada acontece. A guerra continua.
Atravessei a fronteira sempre com a sensação que devia inverter a marcha. Esta minha missão não me cansou nem um minuto. Que me perdoem os mais valentões, mas não sei a arte de manejar uma arma. Talvez saiba manejar uma máquina fotográfica. Talvez. O coração aperta quando olho pelo pequeno visor. A realidade fica ali, colada ao meu rosto. Tão presente. Tão triste. Mas é preciso relatar. Noticiar. Ser jornalista é das mais belas profissões. A beleza por vezes perseguida e dorida. Não queiram ler a almofada de um jornalista. Sonhos e pesadelos.
Peço desculpa por ter tantas vezes conjugado o verbo chorar. Não foi lapso linguístico. Foi pelas vidas ucranianas que passaram pelo meu teclado. Tudo o que vi não é passado. É presente. E futuro, que é o mais importante. Na pele, na roupa, na mochila, no cartão de memória. Ao passar a linha vermelha para a Polónia olhei para trás. Disse baixinho – até já! O homem que se queria aquecer, encontrou um lenço palestiniano no monte de roupa depositado no passeio. Enrolou-o no seu pescoço. Ficou protegido. Naquele pescoço fatigado vai outra guerra. É bom que não nos esqueçamos. O mundo tem muitas guerras. Nenhuma é boa. Nenhuma é justa. Nenhuma tem cor de pele. Todas terão que ter o seu altifalante na praça.
Obrigado a todos vós, seres humanos de paz. E quando os meus filhos tiverem filhos terei eu netos. Para esta parte da história não necessitarão de compêndios. Terão a perna do avô e a sua voz embargada. Memória crua e dura é necessária. Auschwitz é aqui tão perto e está tão perto.
Até sempre!
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15.06.2022
(Lida na inauguração da exposição)
Crónica XI
Voltarei
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Não estou lá, mas não deixo de sentir os meus cinco sentidos. As pernas palmilham a terra portuguesa. A cabeça, essa, vagueia em cada centímetro de terra desventrada. Bem sei que é aqui que tenho amor. Abrigo. Amigos. Escola e hospital. Comboio e estrada. Praia e serra. Aqui não há barulhos estranhos vindos do céu. Só foguetes em pólvora de festa.
Mas é lá, num país chamado Ucrânia, que o amor se está a desfazer. Que os amigos se estão a zangar. Que o abrigo deixa de o ser. Que a escola perde os desenhos matinais e o hospital se transforma em morgue. O comboio não tem passageiros felizes. A estrada está ocupada com ferros, sacos de areia e veículos medonhos. A praia? Talvez local de esperança de um horizonte longínquo. A serra? Local de esconderijo e alerta. Do céu, só vento, nuvens e pó. Novos pássaros metálicos com zumbidos arrepiantes destroem os ninhos de todos nós. O céu deixou de ser o lugar sagrado.
É lá, no chão que já brotou tantas lutas, tantas esperanças, tanto homem novo, tanto saber, que milhares de botas e finos sapatos da resistência derrotaram a maior besta do século XX, é lá, no país das mulheres bonitas e dos meninos e das meninas serenas que eu devia estar. É lá, que toda a humanidade deve estar. Para voltar a salvar a humanidade.
Tenho esperança. Voltar. Abraçar quem possa abraçar. Chorar quando os olhos o exigirem. Sorrir quando uma vida se levantar. Como jornalista tenho um dever acrescido. Jornalismo é missão. Levar a Ucrânia ao mundo, de Kiev aos traços mágicos do mestre Álvaro Siza Vieira. Levar o povo ao mundo. Levar a mãe que perde o filho. O filho que perde o pai. Ucranianos e russos. No sofrimento e na angústia não existem fronteiras.
Os senhores medievais poderão desejar metralhadoras, bombas, decretos, proibições, inflações e mercados. Terra, mar, petróleo, gás, braços e pernas. Suor e sangue. Mas é o povo, são os povos deste mundo, de tantas outras guerras, passadas e presentes, que fogem com os filhos espalmados no peito, que abrem a camisa às balas assassinas, que fintam o medo e se agarram à força da esperança. No meio do negro e do caos, há sempre quem continue a regar flores de todas as cores.
Estas fotografias, paridas na maior das angústias e estas crónicas de guerra escritas na solidão profunda que o recolher obrigatório impunha, são para vocês. São a minha homenagem e o meu manifesto. Ao povo, que é sempre o alvo, esteja onde estiver.
Curioso, ver o meu trabalho na casa do mestre e da sabedoria. Entre jovens amantes da vida. Da vida colectiva. Suspensas como a guerra. Mas não haverá cabo de aço que resista. As bestas, venham elas de onde vierem, são para abater. Só assim, cada jovem que sairá desta magnifica biblioteca saberá que a vida é uma dádiva da Liberdade. Que chegue depressa o tear que irá tecer a bandeira branca. A paz, construída sempre pela exigência do povo.
Viva quem ama a Liberdade.
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Adriano Miranda, Da Ucrânia com Amor, 2022
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A exposição de Adriano Miranda “Da Ucrânia com Amor” é apresentada pelo Centro de Línguas, Literaturas e Culturas da UA, numa iniciativa do Projeto Globalização e Identidades, está patente na Biblioteca da Universidade de Aveiro, de 15 de junho a 15 de julho de 2022.
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Adriano Miranda. Aveiro – 1966.
Estudou na Cooperativa Árvore – Porto e AR.CO – Lisboa.
Fotógrafo do jornal Público desde 1996, editor de fotografia de 2001 a 2005. Professor de Fotografia, no AR.CO, CENJOR e ESMAE. Atualmente leciona no IPCI-Porto e na Escola Superior de Jornalismo – Porto.
Participou em várias exposições na América Latina e na Europa. Está representado em colecções em Portugal e no estrangeiro. Vencedor do Prémio na categoria de Retrato da Estação Imagem 2011, Prémio Gazeta 2017, Prémio de jornalismo da Rede Europeia Anti-pobreza 2019, 2020 e Menção Honrosa em 2021.
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Pode ver as restantes crónicas no FF, aqui e aqui.
Pode conhecer mais sobre o trabalho de Adriano Miranda no FF, aqui.
Pode também ver no site da Universidade de Aveiro, em português, inglês e ucraniano, aqui.
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Cortesia: Adriano Miranda.
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