ADRIANO MIRANDA, DA UCRÂNIA COM AMOR . 1

Exposição na Biblioteca da Universidade de Aveiro, de 15 de junho a 15 de julho de 2022.

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“As fotografias que nunca quis fazer”.

Adriano Miranda

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Adriano Miranda foi um dos fotojornalistas portugueses que esteve na Ucrânia desde os primeiros dias da guerra.

Fotografou para o jornal “Público”, cujo quadro integra. De 1 a 10 de março, escreveu 10 crónicas, que foram publicadas pelo jornal, sob o título “Da Ucrânia com Amor”, como refere, “um diário de um fotógrafo na Ucrânia”. Uma 11.ª crónica leu na inauguração da exposição.

Trago aqui essas crónicas, ao longo de três publicações, a par com algumas das suas fotografias.

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1 de março de 2022

Crónica I

As fotografias que não fiz

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Do céu frio da Polónia, a neve enche as ruas de branco. A cor da paz. O taxista avança até à fronteira com a Ucrânia. Um homem calmo. Deseja felicidades. A mala rola pelo meio de gelo, pernas, pedras e lixo. Os refugiados vêem na Polónia a terra dos suplícios e dos abraços.

O corredor entre o gradeamento e uma espécie de terra de ninguém é longo. Por fim, uma roleta de metal. Lá dentro uma mulher limpa o chão com brio. O passaporte é validado pelo polícia mudo. Homens ucranianos regressam ao seu país. Querem só combater.

As pernas começam a fraquejar. As mãos que puxam a mala azul escura e agarram a mochila com as minhas armas – as máquinas que gostam de fotografar gente feliz – ficam transpiradas. Polícias armados da cabeça aos pés. Civis com cassetetes e tacos de beisebol. Do meu lado esquerdo, milhares de seres humanos de pele escura. Sonham sentir os flocos de neve do outro lado. Encurralados. Empilhados. Uns desmaiam. Outros têm fome. Frio. Fixam o olhar em mim. Sinto vergonha. Fraquejo. O lixo não deixa ver o chão. Quero gritar. Fotografar para denunciar. Os homens das armas são corpulentos. Sou um cobarde. Os olhos estão turvos. A mulher loira, bonita, carimba o passaporte com força – bem-vindo à Ucrânia.

O peito apertou. Como é possível. Os autocarros com peles brancas vão chegando. Não vão ver o desespero dos seus semelhantes. Um ucraniano vai para Lviv na sua carrinha. Saboreio o conforto do banco traseiro e encosto a cabeça ao vidro. Durante vinte e cinco quilómetros, do outro lado da estrada, só vejo automóveis em fila parada. Querem atravessar a linha que lhes dará segurança. Os de pele escura caminham a pé com a mala na cabeça. Adormeci. Acordei com homens corpulentos de coletes verdes. Pneus, sacos de areia e ferros torcidos estreitam a estrada. Press. Passaporte. A estrada continuou para o furacão. Deixou de nevar.

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2 de março de 2022

Crónica II

A raiva

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No eléctrico soviético, a corrosão está quase a dominar a cor amarela. Sem brio nem grande técnica, os pintores ucranianos não foram exímios nas linhas paralelas nem nos pingos de tinta na plataforma. As guarda-freio, são mulheres já de idade. Tradição de outros tempos. Entre homem e mulher não havia diferenças. Não existe um único vestígio da era soviética. A existir deve estar bem escondido. Não consigo adivinhar qual a praça onde estava Lenin, nem o jardim de Marx, os obreiros da revolução ou os mártires da Grande Guerra. Só os eléctricos perduram. Dão jeito. E os automóveis Lada e Moscovitch. Fazem as delícias de quem não se afoga em dinheiro.

Pelo vidro riscado vou apreciando as ruas. Militares, polícias, sirenes, ambulâncias, namorados, crianças, tios, avós, pais e irmãos. Jornalistas também. Uma calma falsa. Aparente. Há milhares de vidas numa cidade contida. As escolas estão fechadas. Muito comércio também. Há tábuas de madeira a proteger vitrais. As igrejas estão abertas. O silêncio sabe bem. Rezar. Acender uma vela. Abrir o pensamento. Há quem prefira o banco de jardim.

A confusão começa a adensar-se. No fim dos carris um edifício majestoso. Tendas de lona azul dão apoio a um formigueiro agitado. Um casal com dois filhos, empurra em esforço, dois carros de supermercado. Malas e mais sacos. E rolos compridos. Parecem tapetes. Uma vida resumida a dois carros de supermercado. Inclinam-se para ganhar impulso. A estação ferroviária é já ali.

O charme não condiz com o presente. Em cada parede, em cada plataforma, em cada ferro forjado, adivinho histórias de amor, de despedidas e chegadas ansiosas, de soldados risonhos e operários cansados. Adivinho as malas do emigrante. Os abraços aos filhos. E as chegadas triunfais. Do presidente, do general ou simplesmente da mulher enamorada. Mas o presente é outro. A fuga. O desespero. O deixar o homem que vai dar o peito às balas. É lei. O levantar as crianças com braços de grua por cima da multidão. O pisar. O empurrar. O gritar. O chorar. A raiva.

O comboio azul arranca devagar, rumo a não sei onde. O que importa. É a liberdade. Eu volto ao meu eléctrico amarelo.

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3 de março de 2022

Crónica III

Solidão

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O pior de tudo é quando os candeeiros vomitam uma luz fraca. Sinal que a solidão está a chegar. Jantar não há. Hoje foi um kebab com uma quantidade de gordura suficiente para revoltar o estômago. O ar fresco da praça ajudou a conter a revolução. O 404 está à minha espera. Tiro as pesadas botas. As calças. A t-shirt que ironicamente tem estampado a letras pretas “estou de férias”. Mergulhado no computador, num quarto de paredes cinzentas e mobília escura, a adrenalina sobe à medida que cada fotografia se deixa mostrar. Todas têm uma história. E são essas histórias que me fazem permanecer aqui.

O recolher obrigatório deixa as ruas vazias. Um automóvel da polícia. Soldados. Qualquer vulto pode conhecer a dor que uma bala pode provocar. A solidão toma conta de tudo. Até a música se transforma em ruído meu querido Antony and the Johnsons. Comunicar com a família alivia. Sossegar a mãe é uma obrigação. Mas nunca falamos do mar, do sol, da chuva, das plantas, da escola ou da conta da luz. Falamos sempre da guerra. Para mim está perto. Para eles está ainda mais perto. A guerra. A guerra. O sufoco que nos provoca. As previsões que procuram sempre o nosso desejo – a paz e só a paz.

Na mistura de um beijo maior com um abraço demorado, um papelinho com o Santo António foi depositado na palma da minha mão direita. Sei que não acreditas, mas anda sempre com ele, disse com a voz embargada. Quem tem mãe tem tudo. Ri. Um riso nervoso. Desde esse dia, o dia da partida, o Santo de Lisboa ganhou aconchego no bolso do casaco bem junto ao peito. Aconchegado fico eu também.

Na praça com um cavaleiro triunfante uma velha veio ter comigo. Falou imenso. Não falei nada. Só abanava a cabeça e sorria. As nossas letras não são iguais. Tirou um papelinho da mala e na minha mão direita o depositou. A imagem de Jesus Cristo olhou para mim. A velha riu com os seus dentes de ouro. Gesticulou o adeus e gritou a única palavra que percebi – América! O Santo António ganhou companhia.

No táxi que me entregou à solidão, confessei ser português. O homem levanta o punho e grita – o povo unido já mais será vencido! Ché Guevara. O mundo é de muitas cores. Que bom. Aqui só falta o arco-íris.

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4 de março de 2022

Crónica IV

Os segundos eternos

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As cadeiras da plateia desapareceram. Uma mesa comprida com muita comida e bebida. À volta, camas individuais, numeradas e alinhadas. Uma televisão com jogos e filmes infantis. No palco, mais camas alinhadas e numeradas. Num canto, brinquedos e livros. São 12 horas. Há quem durma. Há quem leia. Há quem converse. Há quem coma. Há quem chore. E há quem corra no jogo da apanhada. Falam baixo. Por vezes, a boa acústica da sala de teatro, amplifica gritos de aflição. Um vídeo de Kiev está a rodar num qualquer telemóvel.

Pelas escadas e pelos corredores amontoam-se caixas e sacos. São agora os roupeiros, os armários, as cómodas e as gavetas de um colectivo unido. Entro com receio. Não quero ser invasor da privacidade. Inclino a cabeça para a frente com o pé direito já na soleira. Olho para a direita e para a esquerda. Livre. Entro. São os camarins. Retratos de mulheres e homens bonitos. Estão felizes. Mas à volta, um esqueleto pendurado numa parede faz-me arrepiar. Uma planta procura a luz da janela. Luz de Inverno.

Um homem entra. Peço desculpa. Só me pede para continuar. Fixo o olhar de espanto com a testa franzida. O vosso trabalho é a nossa salvação. Agradeço. Volto para a plateia e para o palco. Só tenho que denunciar.

Matvei está sentado. Curvado com a mão no queixo. Passivo. Nada próprio da sua adolescência. O Ruela, companheiro desta loucura, entrevista Svetlava. Ela chora. Leva as mãos aos olhos constantemente. Matvei, o que queres ser quando fores grande? Fotógrafo! Num gesto rápido, retiro a máquina fotográfica do peito. O olho direito de Matvei custa a encontrar a mira. O seu dedo indicador direito não acerta com o gatilho. Assim Matvei. E num ápice, Matvei acerta na mãe Svetlava. Ouve-se os disparos contínuos. A mãe sorri para Matvei com o V da vitória empunhado na sua mão direita. Por segundos Svetlava esquece a guerra. Ficou desfocada. Ainda bem. É no desfoque que perdemos a nitidez. Para Matvei e para Svetlava bastante crua e dura. Há excelentes fotografias desfocadas e péssimas fotografias focadas. Matvei é um grande fotógrafo.

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Adriano Miranda, Da Ucrânia com Amor, 2022

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A exposição de Adriano Miranda “Da Ucrânia com Amor” é apresentada pelo Centro de Línguas, Literaturas e Culturas da UA, numa iniciativa do Projeto Globalização e Identidades, está patente na Biblioteca da Universidade de Aveiro, de 15 de junho a 15 de julho de 2022.

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Adriano Miranda. Aveiro, 1966.

Estudou na Cooperativa Árvore – Porto e AR.CO – Lisboa.

Fotógrafo do jornal Público desde 1996, editor de fotografia de 2001 a 2005. Professor de Fotografia, no AR.CO, CENJOR e ESMAE. Atualmente leciona no IPCI-Porto e na Escola Superior de Jornalismo – Porto.

Participou em várias exposições na América Latina e na Europa. Está representado em colecções em Portugal e no estrangeiro. Vencedor do Prémio na categoria de Retrato da Estação Imagem 2011, Prémio Gazeta 2017, Prémio de jornalismo da Rede Europeia Anti-pobreza 2019, 2020 e Menção Honrosa em 2021.

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Pode ver as restantes crónicas no FF, aqui e aqui.

Pode conhecer mais sobre o trabalho de Adriano Miranda no FF, aqui.

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Cortesia: Adriano Miranda.

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