ANTÓNIO PASSAPORTE: UM FOTÓGRAFO EM CASCAIS, 1940-1960

Exposição em Cascais, no Arquivo Histórico Municipal, Casa Sommer, até 26 de junho de 2022.

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O Arquivo Histórico Municipal de Cascais, situado na Casa Sommer, em pleno Bairro dos Museus, junto ao Centro Cultural e à Cidadela apresenta uma exposição sobre a cidade dos anos 1940 a 1960, baseada na obra de António Passaporte. O fotógrafo “que a partir de 1939 percorreu todo o país” – e também Espanha – “na senda das melhores perspetivas para a produção de bilhetes-postais ilustrados de altíssima qualidade, não poderia deixar de dar representação a Cascais, que então coroava a Costa do Sol.”

A exposição integra diversas reproduções de fotografias em grande formato, mas também alguns postais originais e publicações, bem como “14 modelos de câmaras fotográficas contemporâneas de Passaporte. São máquinas que vão desde o início do século XX aos finais dos anos 50 e 60 que correspondem ao período de atividade de António Passaporte enquanto fotógrafo. Estas câmaras fotográficas são provenientes da coleção particular de Fernando Penim Redondo que reúne mais de 500 máquinas de rolo, intimamente ligadas com a história da fotografia.”
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No site do Arquivo lemos:

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A exposição, patente na Casa Sommer, retrata, de forma única, a Costa do Sol entre 1940-60.

O Arquivo Histórico Municipal, na Casa Sommer, assinala o seu quinto aniversário com chave de ouro. Trata-se da exposição “António Passaporte: Um fotógrafo em Cascais, 1940-1960” que retrata de uma forma ímpar a Costa do Sol num dos seus períodos áureos.

São imagens únicas do litoral de Cascais pela objetiva de um dos fotógrafos mais talentosos do seu tempo que pode agora disfrutar na versão impressa. Na mostra estão também representados alguns dos bilhetes-postais ilustrados de altíssima qualidade que o fotógrafo produziu sobre Cascais e que tanto contribuíram para a divulgação turística da Costa do Sol.

Em 1990, a Câmara Municipal de Cascais adquiriu aos herdeiros do fotógrafo a parte da sua coleção relativa ao concelho, composta por negativos em vidro e em película, mas também por muitos bilhetes-postais ilustrados que hoje se preservam no Arquivo Histórico Municipal e estão disponíveis para consulta no Arquivo Histórico Digital de Cascais.

Esta coleção integra centenas de sequências fotográficas de diferentes locais, captadas nas décadas de 1940 a 1960. Destinavam-se à seleção dos planos ideais para a edição dos bilhetes-postais de que a indústria turística cada vez mais carecia, razão pela qual incidiriam sobretudo nas praias e nos edifícios mais notáveis do litoral de Cascais.

António Passaporte concretizaria um levantamento metódico e exaustivo de todos os trechos do território que considerou relevantes para a composição de um apetecível quadro da realidade turística e património nacionais.

A Costa do Sol e a cidade de Lisboa afirmar-se-iam como locais de trabalho privilegiados, não obstante as campanhas fotográficas que permitiram a edição de uma das suas primeiras coleções de bilhetes-postais, nos anos de 1942-43, em plena II Guerra Mundial, terem chegado a ser interpretadas como trabalhos de espionagem… Na Ericeira, a população confundiria o seu tripé com uma arma automática!

Para além da Costa do Sol, António Passaporte fotografou quase todo o país, de Norte a Sul, a preto e branco e depois a cores. Tinha particular predileção por fotografias sem pessoas porque, como costumava dizer, «os monumentos nunca se queixam de ficar mal»!

Os primeiros bilhetes-postais ilustrados de António Passaporte foram impressos um a um, com recurso a clichés de vidro de 10 x 15 cm e papel brometo brilhante normal ou contrastado, de acordo com as necessidades do negativo.

A esmaltagem era efetuada a frio sobre vidro belga, tendo por base um processo que aprendera em Espanha e garantia aos bilhetes-postais um brilho invulgar, muito apreciado pelos compradores. Este método artesanal possibilitava também a edição de uma grande variedade de modelos. Começava, assim, por produzir 50 postais de cada uma das imagens, que passaram a contar com numeração própria, reeditando-as depois em função das encomendas.

António Passaporte procurou sempre enquadramentos que valorizassem a imagem, não se escusando a esforços para captar aspetos inéditos, mesmo que tivesse de percorrer grandes distâncias, galgar montes, subir aos telhados ou abeirar-se de precipícios.

As máquinas fotográficas que utilizou para as suas edições foram a Zeiss Ikon, que o acompanhou na Guerra Civil de Espanha, depois a Contessa-Nettel 10 x 15 e finalmente uma Linhoff. Utilizava muitas vezes as nuvens de forma a embelezar a fotografia. E não se importava de gastar uma manhã ou uma tarde para obter a imagem ideal. Certo dia teve de ser ajudado na subida da Boca do Inferno, pois tinha descido demasiado para fotografar a entrada da gruta.

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António Bracons, Aspetos da exposição, 2022

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“António Passaporte: Um fotógrafo em Cascais, 1940-1960”, está patente em Cascais, no Arquivo Histórico Municipal, Casa Sommer, na Av. da República, nº 132, de 10 de dezembro de 2021 a 26 de junho de 2022.

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Dois painéis apresentam-nos uma biografia do fotógrafo, acompanhada de algumas fotografias, dividida em 2 fases: de 1901 a 1939, início da Guerra Civil espanhola, no piso de entrada e, com o seu regresso a Portugal, de 1939 a 1983, no piso superior.

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1901

António Pedro Carreta Passaporte nasceu a 24 de fevereiro, em Évora. Foi o primeiro filho de Helena Maria Carreta e de José Pedro Braga Passaporte, amador de fotografia, a quem D. Carlos concederia, em 1903, a distinção de fotógrafo da Casa Real e que, no ano seguinte, abriria um ateliê comercial em Évora.

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1911

A implantação da República levou a família Passaporte a mudar-se para Angola, prosseguindo José Passaporte a sua atividade em Benguela e Moçâmedes. Regressaria, todavia, a Portugal no ano de 1917, para montar novo ateliê em Évora e depois em Lisboa.

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1923

Sob o nome artístico de Carret Passeport, António Passaporte participou no filme A Estrela de Brilhantes, realizado por Augusto Barroso Ramos. O sucesso da crítica conduzi-lo-ia ao estudo da expressão, da maquilhagem e da mímica. Todavia, como a sua baixa estatura condicionava quaisquer aspirações à condição de galã de cinema, decidiu partir para Madrid em busca de aventura, onde iniciou a carreira de fotógrafo, trabalhando nos laboratórios cinematográficos da Madrid-Filmes. Nesta cidade casaria, em 1927, com a irmã do patrão, Gregória Ascensión Calleja Blanco.

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1926

Ingressou na Charles Alberty & C.ia como vendedor de papéis fotográficos e heliográficos, viajando pela Argentina e por Espanha, que fotografou profusamente. As imagens de paisagens e monumentos que então produziu seriam adquiridas para propaganda pelo Ministério da Cultura e do Turismo espanhol, dirigido pelo general Primo de Rivera. O sucesso alcançado lançá-lo-ia, assim, na edição de bilhetes-postais ilustrados que assinou como Loty, designação que resultava da combinação das duas primeiras letras do nome Lopez e das duas últimas do nome Alberty, apelidos do casal para quem trabalhava.

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1936

Com o início da Guerra Civil de Espanha perderia o emprego, ingressando nas Brigadas Internacionais como repórter fotográfico, com a patente de sargento, no 5.º regimento das tropas espanholas, no seio do qual era conhecido por “pequeño portugués”. Acompanhou as operações de defesa de Madrid, servindo nas frentes de batalha da Serra de Guadarrama e na campanha de Brunete, em que se travaram grandes combates. Contudo, por razões de saúde, abandonaria esta atividade, inscrevendo-se na U.G.T. para integrar os «Comités de Abastos», organizados para a recolha e distribuição de víveres. Trabalhou depois como repórter fotográfico para o boletim do Serviço de Transmissões do Exército Popular Espanhol.

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1939-40

Temendo represálias do regime franquista, fixaria residência em Lisboa, onde iniciou atividade como fotógrafo, aceitando sobretudo encomendas publicitárias, para a Câmara Municipal de Lisboa, o Secretariado Nacional de Informação, a Philips e outras casas comerciais. Inicialmente instalado na Rua Padre Sena Freitas, transitaria para a Rua do Desterro, onde iniciou a produção de bilhetes-postais ilustrados, que não eram impressos em tipografia, mas produzidos em papel fotográfico, o que aumentava substancialmente a sua qualidade. Em 1940 recebeu a primeira grande encomenda, para a Exposição do Mundo Português, que não permitiria à família descansar durante dias.

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1942-43

Começaram a circular os seus primeiros bilhetes-postais com imagens da Costa do Sol. A neutralidade de Portugal durante a II Guerra Mundial traduzir-se-ia num extraordinário afluxo e circulação de estrangeiros por todo o território, que exigiu a produção de mais e melhores bilhetes-postais ilustrados. Neste contexto, António Passaporte fotografaria o país de norte a sul, cuja imagem divulgou nacional e internacionalmente.

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1945

Mudou-se para a Avenida António Augusto de Aguiar e no ano seguinte para a Rua Luciano Cordeiro, onde montou o estúdio que manteve até ao final da vida. Foi nestas instalações que se dedicou com cada vez maior rigor à produção de bilhetes-postais ilustrados, com recurso às melhores máquinas fotográficas, de impressão e de secagem então existentes, assim como à profissionalização dos seus empregados. A extrema exigência com a qualidade final dos bilhetes-postais cedo se traduziria num afluxo de encomendas, pelo que António Passaporte fotografava habitualmente ao fim de semana, percorrendo todo o país num carro, acompanhado da família.

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1961

A sua última reportagem completa de uma cidade teve lugar na Covilhã. Desde então concentrou-se na fotografia dos palácios nacionais, uma vez que a qualidade técnica da sua marca lhe garantira a autorização para fotografar os interiores destes edifícios, bem como o exclusivo da venda dos respetivos bilhetes-postais ilustrados.

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1965-83

Com o advento do postal impresso a cores, o processo de produção alterar-se-ia radicalmente. António Passaporte não conseguiu fazer frente à concorrência, quando Perpétuo Socorro, editor do Porto, liderou um movimento que conduziu à redução do preço de revenda por unidade de 1$50 para 1$20. Recusando-se a acompanhar a descida do preço, afastou-se progressivamente da edição, mantendo, ainda assim, atividade enquanto fotógrafo até 1975.

António Passaporte morreu em Lisboa, a 18 de fevereiro [de 1983], vindo os seus trabalhos relativos a Cascais a ser adquiridos pelo município no ano de 1990.

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Pode ver mais sobre a exposição, aqui; e também com entrevista a João Miguel Henriques, responsável pelo Arquivo Histórico Municipal de Cascais, aqui.

No FF, sobre Fernando Penim Redondo, aqui.

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