OS AUTORRETRATOS DO ARQUIVO DE MARIA JOSÉ PALLA

Exposição na Appleton Square, em Lisboa, de 08 de abril a 12 de maio de 2022.

.

.

.

Por vezes acontece… Saber da exposição já nos últimos dias. Este artigo vai ser publicado ‘mais logo’, a exposição acabou de fechar, mas é o pretexto para falar da obra, única, de Maria José Palla (n. 1944).

.

É no quadrado (square) da galeria de exposições Appleton – na realidade um retângulo em planta, mas podemos pensá-la como um quadrado – que Maria José Palla apresenta estas quatro séries de autorretratos, que conjuntamente com os seus textos da folha de sala constituem um excelente ensaio sobre a fotografia e o autorretrato. Sobre a vontade de ver e de fotografar. Sobre o envelhecer e a memória.

Por isso estas imagens recorrem ao Arquivo.

E o Arquivo começa em Paris, onde durante muitos anos viveu exilada e fez o doutoramento na Universidade de Sorbonne, e estudou História da Arte pela École do Louvre. Ensina Literatura e Fotografia e Literatura e Cinema na Universidade Nova de Lisboa.

Maria José Palla não tem grandes máquinas fotográficas. Aliás, de início, não tem. Fotografa-se nas Photovision do metro de Paris, nas máquinas de retrato ‘à la minute’. Depois com uma câmara Polaroid. Continuam as imagens instantâneas, automáticas. Em que nada controla. Em que a câmara controla tudo. E depois, novos autorretratos com as suas câmaras de película (ao tempo o digital era ainda inexistente ou incipiente), só mais tarde o digital.

Se nas polaroids há uma grande proximidade, até pelo modo de disparo, no que hoje chamaríamos ‘selfie’, nas fotografias com câmara analógica, pelo modo de enquadrar, através do visor, permitem um enquadramento mais amplo, recolhe ao espelho, ao reflexo, fazendo por vezes a própria câmara parte da imagem.

Cada núcleo, cada parede, cada lado do ‘quadrado’ é um projeto que se desenvolveu, regra geral, em tempos sucessivos.

.

.

.

.

Na folha de sala, Maria José Palla escreve sobre estas séries:

.

Melancolia

.

A melancolia na arte é uma ficção. Malevitch não estava de luto quando pintou quadros pretos. Nos seculos XV e XVI a melancolia foi uma moda, um criador intelectual tinha de ser um melancólico. A auto representação sempre afligiu as pessoas, evoca loucura, narcisismo ou doença mental.

Mas é simplesmente um modo de representação. É um género como uma paisagem ou uma cena bíblica. Há uma clivagem entre o autor e a vida. Talvez eu faça autorretratos por ter respeito pelo retrato dos outros (que também fiz). Representam uma experiência pessoal, que executo completamente só depois de um tempo de preparação mental.

Na abordagem que executo com a máquina Polaroid não enceno o corpo, não calculo a pose, nem a maquilhagem, nem a distância. Não existe efeito de provocação.

A imagem de um rosto é sempre forte. Sempre desejei fotografar rostos. Assim do rosto dos outros passei ao meu próprio rosto. Estava à mão. Não necessitava de modelo: eu sou o meu objecto de representação, eu sou o meu próprio modelo, o meu rosto está colado a mim. O autorretrato representa uma metamorfose, é uma hiper imagem. Eu não desejo transformar-me noutro. Mas o outro inunda a película, alaga a superfície da chapa. Torno-me um objecto duplo, uma imagem de que já foi. Assim, quando me vejo, estou reduzida à categoria de natureza morta.

.

Anatomia de um rosto

.

Esta série de autorretratos foi tirada numa máquina Photovision nos metros de Paris com a inscrição do nome da estação, a data, ano, mês, dia e hora (1996-2005). Fiz uns 400 autorretratos em 8 anos para tornar evidente o meu envelhecimento. Comecei por desejar fotografar, mas, como não tinha máquina comigo, realizei o meu autorretrato na estação de metro mais próxima da minha casa de Montrouge, a estacão Porte d’Orléans, numa maquina Photovision. A máquina parisiense soava:

.

Bienvenu dans la cabine de Photovision.

Veuillez introduire Ia somme exacte.

Appuyez sur Ia fleche correspondante à votre choix.

Si vous voulez des mini-portraits supplémentaires appuyez sur la flèche du haut. Si non, appuyez sur le bouton vert.

Si Ia pose pous plait, appuyez sur le bouton vert. Sinon, sur Ia flèche du haut.

Vos Photos seront prétes dans trois minutes à l’extérieur de la cabine.

.

Três minutos depois tinha o meu rosto impresso no papel. Passei a repetir sempre que podia a minha imagem na mesma máquina. A pouco e pouco, comecei a procurar outras estações de metro com a mesma Photovision. Mas a fotografia que a máquina vomitava não coincidia com a imagem que eu tinha de mim. Todos os dias voltava ao «local do crime». Todos os dias o mesmo sentimento.

Pensei realizar este trabalho durante um longo tempo. Como se estudasse a anatomia do meu rosto. A complexa relação entre imagem e realidade levava-me cada dia a perguntar onde estava o original (eu) e a imagem.

Ao fazer o meu autorretrato na máquina Photovision, não me exibo como com a Polaroid ou outras máquinas. Sento-me frente ao espelho, sempre a mesma altura, sem pretender ficar melhor ou pior. Como se fosse uma fotografia para bilhete de identidade. Ou para arquivo da polícia.

Assim posso escolher a minha imagem no espelho, e ao fazê-lo, não olho para o meu rosto, mas para os botões que vão contribuir à feitura da imagem. A luz, o enquadramento e a distância não são realizados por mim, mas produzidos mecanicamente de igual forma para todos os fotografados no «meu» local do crime. Como se o anonimo se viesse insinuar entre mim e mim. O conjunto destas imagens tem um valor descritivo, narrativo de memória e de tempo. Constitui um longo plano sequência realizado durante 8 anos, em diversas Photovision, na mesma cidade.

.

Exercícios de Estilo

.

Do suporte das fotos a preto e branco passei à minha face coberta de plásticos coloridos. Neste trabalho interessam-me os jogos de luzes, de reflexos, de transparências, o rosto escondido, meio escondido, o rosto visível. De uma foto preto e branco ganham ou perdem espaço com uma folha de plástico colorida. Estas fotos foram realizadas na minha casa de Montrouge. Elas são atravessadas pelo amor de fazer «efeitos especiais» com poucos meios. Em todas eu sou o meu objeto de representação., ao mesmo tempo produto e produtora, num círculo fechado. Agrada-me o retrato, agrada-me marcar uma identidade na película, no papel, na parede. O retrato, lugar de verdades e mentiras, é uma paragem sobre o corpo, sobre o espaço e o tempo, que se prolongam e permanecem na magia da fotografia.

.

O rosto a desaparecer

.

A série a preto e branco lembra uma sequência cinematográfica executada em poucos minutos. Nela tento fazer desaparecer meu rosto, apagá-lo, deixá-lo derramar, elidir, derreter. Perder a paisagem da face. Agarrar e escolher momentos imperceptíveis, destacar farrapos, fragmentos que perdem o seu sentido medida que se afastam do todo. Ou melhor, ganham outro sentido tonando-se abstractos. (…) Estas fotos foram executadas na minha casa em Montrouge. Elas são atravessadas pelo amor de fazer «efeitos especiais» com poucos meios. Em todas eu sou o meu objecto de representação, ao mesmo tempo produto e produtora, num círculo fechado.

.

Março 2022

.

.

.

António Bracons, Aspetos da exposição, 2022

.

.

.

A exposição “Arquivo”, de Maria José Palla, com curadoria de Manuel Costa Cabral e Pedro Tropa, esteve patente na Appleton Square, na R. Acácio Paiva, 27 – R/C, em Lisboa, de 08 de abril a 12 de maio de 2022.

.

.

.

Pode saber mais sobre a obra de Maria José Palla aqui.

.

.

.