EMÍLIO BIEL, VIAGEM A UM PAÍS DESCONHECIDO
Exposição na Biblioteca Nacional, em Lisboa, de 8 de março a 3 de maio de 2022.
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Paulo Ribeiro Baptista é um profundo conhecedor da obra de Emílio Biel, não fosse esse o objeto da sua tese de mestrado: “A Casa Biel e as suas edições fotográficas no Portugal de Oitocentos”, da qual já aqui falei. Esse é um dos motivos porque nos recorda este grande impressor, numa exposição que traz à Biblioteca Nacional, sobre Emílio Biel: “Viagem a um país desconhecido”. Parte da monumental obra que é A Arte e a Natureza em Portugal, da qual destaca algumas imagens – panorâmicas, monumentos, feiras – centrando-se depois em Coimbra e na Batalha, como dois momentos especiais da obra, pelo que mostra e pelo que escreve, para depois olhar para outras obras produzidas por Emílio Biel, centradas na paisagem e no património português.
Na exposição, algumas ampliações das fototipias das suas obras, permitem-nos ver o detalhe da paisagem e, nalguns casos, o ponto de captação da imagem, por exemplo, no topo plano da estrutura, como nas fotografias de detalhe das Capelas Imperfeitas, no Mosteiro da Batalha. Paralelamente, alguns exemplares dos livros citados, permitem-nos ver a qualidade das impressões em fototipia.
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Sobre a obra de Biel, escreve Paulo Ribeiro Baptista na folha de sala:
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Em meados de Oitocentos, Portugal era um país em grande medida desconhecido. O principal meio de transporte entre Lisboa e Porto era o barco. Uma das mais marcantes obras literárias do romantismo nacional – Viagens na Minha Terra, de Almeida Garrett – descreve um percurso entre Lisboa e Santarém de vapor. Os pintores românticos, que introduziram a paisagem como género, seguiram um programa estético em grande medida idealizado.
A «viagem a um país desconhecido», empreendida a partir de A arte e a natureza em Portugal foi possível porque o fontismo lançou um ambicioso programa de obras públicas, construindo linhas de caminho de ferro que cruzaram o país. A Casa Biel fotografou a construção de uma parte dessas linhas e essas imagens foram publicadas em fotogravuras e também em xilogravuras na mais importante publicação ilustrada portuguesa – O Occidente – em que também foi publicado um levantamento sistemático de paisagens e de monumentos de todo o país, a partir das fotografias da Casa Biel, e que serviu de base à publicação de A arte e a natureza em Portugal.
A geração de artistas do último quartel de Oitocentos, os naturalistas, inspirados pela observação direta da paisagem, foram contemporâneos das primeiras publicações em O Occidente de gravuras de paisagens e de monumentos feitas a partir de fotografias de Biel. Uma parte das paisagens de A arte e a natureza em Portugal sugere um gosto que não se encontra distante do da pintura de naturalistas como Marques de Oliveira ou Silva Porto, o que levanta a hipótese de terem recorrido ao auxílio de fotografias, como sucedeu com os naturalistas, realistas e impressionistas franceses seus contemporâneos.
Desde 1880 que a Casa Biel começou a publicar obras com fotogravuras pelo processo da fototipia e logo surgiu a proposta de publicar um grande álbum fotográfico de paisagens e monumentos portugueses. Contudo, as primeiras tentativas foram precocemente goradas. Face à falta de apoios, a publicação de A arte e a natureza em Portugal acabou por só se concretizar a partir de 1902. Provavelmente, o longo tempo de amadurecimento do projeto conferiu‑lhe maior solidez e permitiu angariar as contribuições de uma plêiade de intelectuais portugueses, de que se destacaram Joaquim e Carolina Michaelis de Vasconcelos.
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A arte e a natureza em Portugal
A viagem que A Arte e a Natureza em Portugal nos proporciona estende‑se ao longo de 340 fototipias, divididas em 8 volumes. Cada fascículo aborda uma zona geográfica ou um monumento. As monografias que acompanham cada fascículo são da autoria dos mais reputados intelectuais portugueses, o casal Vasconcelos, Ramalho Ortigão, Gabriel Pereira ou Manuel Monteiro. Em termos fotográficos deve salientar‑se que o repertório inicial, realizado nas décadas de 1870 e 1880, foi muito expandido na década seguinte graças ao concurso de um novo fotógrafo, José Augusto da Cunha Moraes, que se juntou a Biel e a Fernando Brütt, o principal operador da casa.
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Arredores de Coimbra
Em Arredores de Coimbra, Carolina Michäelis de Vasconcelos propõe‑nos uma visita guiada e uma leitura poética e estética numa espécie de flânerie daquele local de encantos a que chama torrão de jeito para searas de amor. Numa prosa quase poética, exalta a saudade romântica que inspirou criadores que celebraram a cidade, o Mondego e as suas ninfas. O percurso proposto, romântico, visual e estético, parte de Santa Clara, passa pelo Choupal e termina na Quinta das Lágrimas e na Fonte dos Amores, local dos amores de Pedro e Inês, exemplo mais pungente do amor à portuguesa, eternizado por Camões. Esteticamente, Carolina Michäelis encontra, no caráter dessas paisagens, paralelos com as obras do pintor simbolista suíço Arnold Böcklin (1827‑1901), situação que «contaminou» muitas das outras paisagens de A arte e a natureza em Portugal.
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Batalha
A monografia de Joaquim de Vasconcelos sobre o mosteiro da Batalha é um estudo erudito. Metodologicamente, Vasconcelos aborda o edifício de uma forma inovadora porque, pela primeira vez na historiografia da arte portuguesa, destaca a necessidade de olhar para as pedras do monumento, para os objetos e edifícios, numa análise a que Vasconcelos chama de «autópsia do edifício» e que podemos considerar aproximar‑se da leitura formal ou mesmo da «arqueologia» da arquitetura. Para isso, recomenda o uso de modernos dispositivos óticos, «binóculos técnicos», para uma análise meticulosa, por exemplo, dos detalhes da cimalha do edifício. Quanto às caraterísticas da publicação, Vasconcelos advogava uma dimensão pedagógica que é evidente nesta monografia.
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Outros temas
A presença do património em A arte e a natureza em Portugal tem forte peso, a escolha dos edifícios é criteriosa e o facto de abranger todo o país numa distribuição equilibrada, de Trás‑os‑Montes ao Algarve, mostra o cuidado colocado na organização da obra. A qualidade técnica das fotografias surpreende, mesmo dos espaços mais complexos, fazendo lembrar o rigor da obra do inglês Frederick H. Evans. A ponderação da etnologia no conjunto da obra deve‑se seguramente à influência de Joaquim de Vasconcelos que, desde muito cedo, revelou o seu interesse pelos costumes e pela produção tradicional de artesanato, como atesta a sua obra científica e o seu percurso enquanto docente do Instituto Industrial do Porto.
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Emílio Biel – Outras obras
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Álbuns dos Caminhos de Ferro
A construção de várias das linhas de caminho de ferro portuguesas foi acompanhada por fotógrafos da casa Biel. Os álbuns de fotogravuras que resultaram dessas empreitadas destinaram‑se, em primeiro lugar, a representar a associação dos engenheiros portugueses na Feira Mundial de Chicago de 1893. No entanto, mais do que a dimensão técnica dos álbuns, o que neles surpreendente é a estética da paisagem, muito particularmente da linha do Douro que nos revela imagens pungentes de vales profundos, cavados pela implacável força do rio, captadas nas fotogravuras com todo o seu esplendor. Esses percursos em direção ao interior permitiram também consolidar um repertório fotográfico de património e paisagens que esteve na base de A arte e a natureza em Portugal.
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A arte religiosa em Portugal
Joaquim de Vasconcelos e Emílio Biel colaboram desde 1882, na publicação do catálogo da Exposição Distrital de Aveiro, que pretendia ser um contraponto à Exposição de Arte Ornamental de 1881, no Museu das Janelas Verdes. Vasconcelos discordava dos critérios que tinham presidido à recolha de peças para essa exposição. A colaboração com Biel, que dura até 1915, concretiza‑se na produção de um conjunto de obras de teor pedagógico, apanágio da orientação de Vasconcelos, em que a fotografia desempenhava um papel fulcral, num movimento que se faz sentir por toda a Europa. A arte religiosa em Portugal é, de certo modo, um complemento de A arte e a natureza em Portugal, mas exclusivamente dedicada aos objetos religiosos.
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Douro e Minho
Tendo iniciado a edição de obras ilustradas com fotogravuras (fototípias) logo em 1880, a casa Biel produziu cerca de dezoito obras até 1916, altura em que encerrou as portas. Para além do significado nacionalista da publicação de Os Lusíadas, em 1880, e da grande importância para as questões do património e da história da arte que representou a Exposição Distrital de Aveiro em 1882, destacam‑se ainda duas outras obras marcantes. O Douro: principais quintas, navegação, culturas, paisagens e costumes (1911), de Manuel Monteiro, um guia exaustivo e ilustrado da atividade vinícola do Douro e O Minho e as suas culturas (1902), do Visconde Vilarinho de S. Romão. Essas duas obras representam, no fundo, um aprofundamento monográfico que é aflorado num ou dois fascículos de A arte e a natureza em Portugal.
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António Bracons, Aspetos da exposição, 2022.
Fotografias de: A Arte e a Natureza em Portugal – Álbuns dos Caminhos de Ferro – A arte religiosa em Portugal – O Douro: principais quintas, navegação, culturas, paisagens e costumes – O Minho e as suas culturas
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A exposição “Viagem a um país desconhecido. Emílio Biel – A Arte e a Natureza em Portugal”, com curadoria de Paulo Ribeiro Baptista, está patente na Biblioteca Nacional, em Lisboa, de 8 de março a 3 de maio de 2022.
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Emílio Biel nasceu em Annaberg, Saxónia, em 1838 e imigrou para Portugal com 19 anos para se dedicar à atividade comercial. Em Lisboa, Biel esteve ligado a círculos intelectuais luso germânicos. Depois de se estabelecer no Porto, por conta própria, adquire o atelier Fritz que se viria a tornar na Casa Emílio Biel & C.ª, a mais importante editora fotográfica portuguesa até 1915. As publicações sucederam‑se, mas Biel teve tempo para se dedicar a outros setores, como a eletricidade, tendo representado a antecessora da Siemens em Portugal. No Porto, destacou‑se nas comemorações camonianas de 1880, publicando uma nova edição de Os Lusíadas. O seu papel, na cidade do Porto e no país foi particularmente relevante e a sua casa fotográfica é mencionada no inquérito industrial de 1900, como a maior do país.
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No FF, sobre Emílio Biel, aqui, sobre A arte e a natureza em Portugal, aqui e aqui, a tese de Paulo Ribeiro Baptista sobre Emílio Biel, aqui; em geral no FF sobre Biel, aqui.
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