O PODER NA INTIMIDADE
Fotografia de Alfredo Cunha, Pete Souza, Ricardo Stuckert e Roberto Stuckert.
A exposição esteve patente no Palácio da Cidadela, em Cascais, de 19 de fevereiro a 24 de abril de 2022.
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Foi apenas há escassos dias que visitei esta exposição, e embora já terminada, não quero deixar de a ter aqui presente.
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O fotojornalismo é uma das áreas da fotografia mais importantes e significativas. Iniciada ainda no séc. XIX, sendo a base da imagem para ser aberta a gravura para ser impressa, é sobretudo, desde o início do séc. XX, quando a fotografia começou a ser diretamente impressa, que se desenvolve, tendo adquirido uma importância cada vez maior.
A fotografia transmite uma emoção, sendo fundamental para criar – ou desfazer – a imagem de uma pessoa, o que é fundamental numa figura política.
O caso particular do Presidente da República – um dos símbolos do país – é um caso particular. Cada Presidente tem o seu fotógrafo oficial, o que por si só, muito diz da sua importância.
O fotógrafo oficial é a sombra do Presidente: acompanha-o não só na sua vida política, mas também, muitas vezes, na vida pessoal.
Esta exposição apresenta-nos o olhar de 4 fotógrafos sobre 6 presidentes, sobretudo em momentos pessoais das suas vidas.
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Carlos Carreiras, Presidente da Câmara Municipal de Cascais, regista:
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Presidente da República é um cargo em que importa bastante ter em conta o poder da imagem: quantos de nós não questionamos o que existe atrás do público exercício do cargo? Que vida tem o homem, ou a mulher, que encabeça os destinos de um país para além da sua presença institucional?
Na exposição O Poder na Intimidade mostramos, a partir de uma ideia do jornalista José Paulo Fafe, essa outra faceta, aquilo que está de outro lado das portas que se fecham aos olhares mediáticos. São momentos, por vezes apenas minutos, de descontração ou de proximidade com familiares, amigos ou pessoas encontradas fortuitamente. Até onde pode ir a captação de imagens, mesmo que seja feita pelo fotógrafo oficial do Presidente? Só os grandes profissionais o sabem. Conhecem cada expressão do homem ou mulher que acompanham para todo o lado. Sabem se está feliz ou infeliz, se está cansado, tranquilo… E também são capazes de definir sabiamente a linha entre a imagem pública e a imagem íntima.
São estes fotógrafos que, por diversas vezes, desconstroem a imagem institucional e politicamente correta daquela pessoa séria, focada em soluções para todos nós, de fato e gravata, todos os dias e a qualquer hora. Os fotógrafos oficiais dos Presidentes são “invisíveis”. Estão, porque assim querem e sabem ser obrigação sua, longe dos holofotes. Mas são eles que nos apresentam quem é e como vive o fotografado, o Chefe de Estado. Só está ao alcance dos melhores, daqueles que registam a expressão exata no “instante decisivo”, sem invadir o trabalho e a privacidade de quem precisa, mais do que ninguém, de tempo e de estar tantas vezes sozinho.
Na Galeria de Exposições do Palácio da Cidadela de Cascais encontramos Mário Soares e Marcelo Rebelo de Sousa, fotografados pelo português Alfredo Cunha; Ronald Reagan e Barack Obama, fotografados pelo luso-americano Pete Souza, Lula da Silva, fotografado pelo brasileiro Ricardo Stuckert, e o General João Figueiredo, fotografado pelo pai de Ricardo, Roberto Stuckert. Estes quatro nomes maiores da fotografia internacional trazem-nos «pedaços de tempo» únicos, como lhes chamou o grande ator James Stewart, vividos por quem minutos antes ou depois teve de falar ao país, nem sempre para dar boas notícias, ou de estar entre multidões, ao serviço de agendas sobrecarregadas. São Presidentes vistos ao toque do obturador, comprovando que, afinal, o principal poder é a natureza humana.
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Alfredo Cunha, Mário Soares – Ricardo Stuckert, Lula da Silva – Pete Souza, Barack Obama, Ronald Reagan
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O curador, o jornalista José Paulo Fernandes Fafe, escreve:
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É OBRA
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Convenhamos que não é todos os dias que existe a oportunidade de juntar três nomes como os de Alfredo Cunha, Pete Souza e Ricardo Stuckert numa mesma exposição. Três fotógrafos sobre cuja obra pouco mais há a dizer: “apenas” que são, sem ponta de favor, do melhor que existe a nível mundial.
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Mas não é só na qualidade do seu trabalho que existem similitudes, basta-nos observar a biografia de cada um para perceber-se que, ainda que vivendo em distintos pontos do globo, a convergência dos seus percursos está à vista. Para começar, são os três oriundos do fotojornalismo, notável ‘escola’ no que à fotografia diz respeito, ainda por cima em tempos em que fotografar era muito mais do que fazer disparar o obturador da máquina. Depois, rapidamente qualquer um deles, expondo e publicando, se afirmou como fotógrafo ‘tout court’, com nome e obra reconhecida. A seguir, cada um a seu tempo desempenhou as funções de ‘fotógrafo oficial’ dos respetivos chefes de Estado – Cunha de Ramalho Eanes e Mário Soares, Souza de Ronald Reagan e Barack Obama, e Stuckert de Lula da Silva. Acresce a tudo isto que, sendo um deles um português de nascença e nacionalidade, Souza e Stuckert, apesar de norte-americano e brasileiro, têm nas suas raízes uma forte componente portuguesa.
Esta mostra permite-nos olhar para o que é a intimidade no poder. Por outras palavras, revela-nos o que é o quotidiano de figuras públicas que, desligadas as luzes dos holofotes e abandonadas as alcatifas dos salões, possuem uma vida própria e por vezes tão semelhante à de qualquer um de nós. Qualquer um deles brinca com o seu cão, nada, namora, faz exercício físico, age como o mais comum dos mortais.
Mas, por outro lado, algumas das fotografias expostas nesta mostra traduzem claramente momentos que são de intimidade, mas simultaneamente de solidão. A tal ‘solidão do poder’ que faz parte integrante do exercício desse mesmo poder, e que muitas vezes antecede a tomada de decisões pouco fáceis. É isso, essa intimidade, mas também essa solidão, que podemos observar nos notáveis trabalhos dos três fotógrafos oficiais que compõem esta exposição.
Refira-se também que, curiosamente, os quatro protagonistas desta exposição – Barack Obama, Lula da Silva, Mário Soares e Ronald Reagan – alicerçaram os seus mandatos presidenciais num forte carisma pessoal. Cada um ao seu jeito conseguiu construir, ou consolidar, uma imagem simultaneamente forte e afável, em muitos casos de aclamação quase transversal nas sociedades a que pertenciam.
E todos eles, sem exceção, diga-se em abono da verdade, marcaram de forma significativa e determinada a história dos seus países, quando não mesmo condicionaram o Mundo e as últimas décadas.
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Uma breve nota final: esta exposição possui um ‘prefácio’ e um ‘post scriptum’. O primeiro constituído por seis belas fotografias, parte integrante de uma sessão que Alfredo Cunha fez com o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, na prática ‘anfitrião’ desta mostra, não tenha ela lugar no Palácio da Cidadela, em Cascais; a nota final, por outras seis fotografias, estas da autoria de Roberto Stuckert, pai de Ricardo, falecido há poucos meses, e que foi, também ele, fotógrafo oficial de um outro presidente brasileiro, o general João Figueiredo. O mundo (e a fotografia…) tem destas coisas!
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António Bracons, Aspetos da exposição, 2022
(Alfredo Cunha, Marcelo Rebelo de Sousa, Mário Soares – Ricardo Stuckert, Lula da Silva – Pete Souza, Barack Obama, Ronald Reagan – Roberto Stuckert, General João Figueiredo)
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A exposição “O Poder na Intimidade”, com fotografia de Alfredo Cunha, Pete Souza, Ricardo Stuckert e Roberto Stuckert, esteve patente na Cidadela de Cascais, de 19 de fevereiro a 24 de abril de 2022.
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Alfredo Cunha (1953-)
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Iniciou em 1970 a carreira profissional em fotografia publicitária e comercial, tendo-se estreado (1971) como fotojornalista no Notícias da Amadora. Colaborou com O Século e O Século Ilustrado, Vida Mundial, a Agência Noticiosa Portuguesa – ANOP e as agências Notícias de Portugal e Lusa. Foi fotógrafo oficial dos presidentes da República Ramalho Eanes e Mário Soares. E Comendador da Ordem do Infante D. Henrique. Foi editor fotográfico do Público (1989-1997) e fotógrafo e editor da Edipresse. Colaborou (2002) com Ana Sousa Dias em Por Outro Lado (RTP2). Foi fotógrafo e editor do Jornal de Notícias (2003-2009). Foi director fotográfico da Agência Global Imagens (2010-2012). Trabalha agora como freelancer e desenvolve vários projectos editoriais. Do seu percurso. destacam-se as séries de fotografias dedicadas ao 25 de Abril (1974), à descolonização portuguesa, ao PREC (1974-1975) à queda de Nicolae Ceausescu (1989) e à Guerra do Iraque (2003). Publicou diversos livros de fotografia, entre os quais: Raízes da Nossa Força (1972), Vidas Alheias (1975) Disparos (1976). Porto de Mar (1998), O Grande Incêndio do Chiado (2013), Fátima, enquanto Houver Portugueses (2017), Mário Soares (2017), Retratos 1970-2018 (2018), O Tempo das Mulheres (2019), Dedicatória (2021), A Bênção dos Animais (2021), O Livro da Maia (2021).
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Pete Souza (1954)
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É um fotógrafo, autor e conferencista residente em Madison, Wisconsin, EUA. E também Professor Emeritus de Comunicação Visual na Universidade de Ohio. Durante os oito anos da administração Obama, Souza foi fotógrafo principal e diretor do gabinete de fotografia da Casa Branca.
O seu livro “Obama: An Intimate Portrait” foi publicado por Little, Brown & Company em 2017 e chegou imediatamente ao topo da lista de bestsellers do New York Times. É um dos livros de fotografia mais vendidos de todos os tempos. Souza nasceu em South Dartmouth, Mass. Formou-se em Comunicação Pública pela Universidade de Boston e fez o mestrado em Jornalismo e Comunicação de Massas na Universidade Estatal do Kansas. Além da política nacional americana, Souza também tem coberto histórias por todo o mundo. Depois do 11 de setembro, foi um dos primeiros jornalistas a registar a queda de Cabul, no Afeganistão. Em 1992, produziu e publicou o livro “Unguarded Moments: Behind-The-Scenes. Photographs of President Reagan”, baseado em mais de cinco anos na Casa Branca durante os mandatos do presidente Reagan.
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Ricardo Stuckert (1970 -)
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Ricardo Stuckert tem 33 anos de profissão. Foi fotógrafo oficial da Presidência da República do Brasil entre 2003 e 2011, durante a gestão do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Neste período, ‘”Stuckinha’ , como é chamado por Lula, acompanhou o ex-presidente nas suas mais de 50 viagens mundo afora. Depois do governo, continuaram juntos. Stuckert trabalha com Lula há quase 20 anos e tem um dos maiores acervos da história do país. Os Stuckerts já contam quatro gerações de fotógrafos. Entre vivos e mortos, são mais de 33 na família. Ao todo, três foram fotógrafos de chefes de Estado: o pai Roberto Stuckert acompanhava o general João Batista Figueiredo, que governou entre 1979 e 1985; o irmão mais velho, Roberto Stuckert Filho, Dilma Rousseff, e Ricardo que acompanha Lula até hoje. Na área de cinema, trabalhou como diretor de fotografia do documentário indicado ao Óscar 2020 “Democracia em vertigem”.
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Roberto Stuckert (1943 – 2021)
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Roberto Stuckert foi fotógrafo oficial de João Batista Figueiredo, o último presidente do período militar do Brasil. Stukão, como era conhecido, nasceu na Paraíba e vivia em Brasília desde a Inauguração da capital federal. O fotógrafo trabalhou em 32 veículos de comunicação. Passou pelas revistas brasileiras Cruzeiro e Manchete e pelos jornais Folha de São Paulo e o Globo, além da Agência France-Press. Foi o gigante das lentes, Stuckão faleceu (…) 23 [de agosto de 2021], aos 78 anos. “Foi com ele que aprendi a fotografar. Um dos primeiros presentes que ganhei dele, ainda criança, foi uma máquina fotográfica. Ele me entregou e disse: ‘Rico, aqui tem a minha vida e você vai aprender a olhar o mundo por este visor. Depois, com a máquina na mão, ele falou que iria me levar ao laboratório de fotografia para aprender a revelar filmes. Quando entrei naquela sala toda escura e vi a imagem surgindo do filme, perguntei pra ele: “Pai, isso é mágica?” Ele sorriu e disse “Sim, é como se fosse”. Eu cresci acreditando nisso. “Que a fotografia é mágica, que mostra um mundo que as pessoas não conhecem. Que revela sentimentos, que traz histórias. A fotografia é a memória, é a lembrança”, Ricardo Stuckert.
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