A PRIMEIRA TRAVESSIA AÉREA DO ATLÂNTICO SUL . 2
1.º Centenário da Primeira Travessia Aérea do Atlântico Sul (30.03.1922 – 17.06.1922 – 2022)
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Partindo de Lisboa a 30 de março (1.ª parte deste artigo, aqui), a 11 de maio, após a perca do segundo hidroavião, são salvos pelo cargueiro inglês “Paris-City”, transitando para o navio República que, entretanto, também chegara ao local e regressam a Fernando Noronha. Portugal decide enviar um novo hidroavião.
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Diário de Notícias, O novo Fairey F III-D, n.º 17, maio.1922
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A 5 de junho recebem o novo hidroavião, transportado de Portugal pelo navio Carvalho Araújo. O novo Fairey F III-D, o n.° 17, é batizado de “Santa Cruz” pela esposa do então Presidente do Brasil, Epitácio Pessoa (1919-1922).
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Guilherme de António Santos (Rio de Janeiro, 1871-1966), O Avião Santa Cruz na Popa do Carvalho Araújo, [05.06.1922 (?)].
Estereoscopia de um conjunto de 270, “oferecidas ao Chefe do Estado Português, no âmbito da sua visita ao Brasil para participar nas comemorações do Centenário da Independência daquele país, em 1922. / São representações — impressas em placa de vidro — numeradas, legendadas e assinadas pelo fotógrafo amador G. A. Santos.”, integra o espólio António José de Almeida, do Museu da Presidência da República. 1
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Posto na água do Arquipélago de São Pedro e São Paulo, voam rumo ao Recife, onde chegam às 15:20h, percorrendo 300 milhas em 4 horas e 32 minutos. Dia 8 às 11:05h seguem para Salvador (Baía): um voo de 5 horas e meia para 380 milhas, seguindo para Porto Seguro (Baía) a 13 de junho: 212 milhas voadas entre as 10:30h e as 14:33h. No dia 15, após 3 horas e 40 minutos de voo e 260 milhas percorridas, amaram às 14:35h em Vitória (Espírito Santo). Finalmente, dia 17 de junho partem daqui às 12:42h, percorrendo 250 milhas e chegando às 17:32h frente à Ilha das Enxadas, onde se situa a Escola de Aviação Naval, na baía de Guanabara, Rio de Janeiro, então a Capital Federal.
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Gago Coutinho e Sacadura Cabral no Santa Cruz, Rio de Janeiro, 17.06.1922
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Chegada ao Rio de Janeiro, 17.06.1922.
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Embora entre a partida e a chegada tenham decorrido setenta e nove dias, percorreram 4.527 milhas náuticas, 8 383 Km, em sessenta e duas horas e vinte e seis minutos.
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Mapa da travessia aérea do Atlântico Sul
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Concluíram com êxito a primeira travessia do Atlântico Sul; a “viagem aérea constituiu um marco importante na aviação mundial, pois veio comprovar a eficácia do sextante aperfeiçoado por Gago Coutinho, com a ajuda de Sacadura Cabral, que permitia a navegação aérea astronómica [a partir do hidroavião] com uma precisão nunca antes conseguida”.
A viagem serviu de inspiração para os raides de Sarmento de Beires, João Ribeiro de Barros e de Charles Lindbergh, todas em 1927.
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Em cada cidade brasileira onde amararam foram entusiasticamente acolhidos como heróis.
No Rio de Janeiro, “A população da cidadefez a apoteose magnífica do heroísmo, aclamando Gago Coutinho e Sacadura Cabral na mais espontânea, na mais eloquente, na mais grandiosa manifestação popular em que há memória no Brasil”, escreve-se n’ “O Paiz”, de 18 de junho de 1922. 2
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Autor Desconhecido, Acolhimento aos aviadores, Praça Maua, Rio de Janeiro, 06.1922
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A Ilustração Portuguesa, no n.º 853, de 24 de junho de 1922, além de homenagear os heróis na capa, apresentava parte da viagem e o acolhimento caloroso:
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No Rio de Janeiro visitaram vários pontos de interesse, encontraram-se com o grande aviador Santos Dumont, e foram alvo de diversas receções.
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Gago Coutinho e Sacadura Cabral, Pão de Açucar, Rio de Janeiro, 1922 – Os aviadores com Santos Dumont, 1922 – Augusto Malta (1864 – 1957), Gago Coutinho e Sacadura Cabral, 30 de junho de 1922. Rio de Janeiro, RJ / Acervo DPHDM
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Das receções, talvez uma das mais interessantes para os dois aviadores, foi a visita à Escola de Aviação Naval, na Ilha das Enxadas, em 26 de junho de 1922, que incluiu um almoço de homenagem.
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Jorge Kfuri. Gago Coutinho e o Tenente Mário da Cunha Godinho, ao fundo, um hidroavião, na Escola de Aviação Naval – Grupo de Oficiais junto ao aviador Gago Coutinho à frente de um hidroavião na Escola de Aviação Naval – Visita de Gago Coutinho e Sacadura Cabral à Escola de Aviação Naval – Almoço na Escola de Aviação Naval em homenagem a Gago Coutinho e Sacadura Cabral, [todas] 26 de junho de 1922. Rio de Janeiro, RJ – Acervo DPHDM – Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha. 3
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A chegada ao Brasil também foi largamente festejada em Portugal, e o regresso dos heróis mereceu caloroso acolhimento.
Refere Isabel Roma de Oliveira, no blogue “Memória das Gavetas”, partilhando a memória do seu avô, Carlos Gomes Oliveira (1913-2005), sobre o acolhimento no Porto e em Gaia 4:
Logo que houve conhecimento da chegada ao Brasil, o povo português veio para as ruas manifestar exuberantemente a sua alegria e entusiasmo por tão grandioso feito. Por todos os lados subiam ao ar inúmeros foguetes, os sinos das igrejas repicavam festivamente, as fábricas apitavam e os numerosos vapores ancorados no rio Douro e no porto de Leixões associavam-se às manifestações de júbilo, fazendo ouvir, alegre e prolongadamente, as sereias de bordo. Quem isto escreve, e a despeito de ter apenas nove anos, também angariou dinheiro para foguetes!
Aquando da visita oficial dos aviadores ao Porto, foram aguardados na estação de S. Bento por uma numerosa multidão, tendo à frente as mais representativas entidades civis e militares da cidade, que depois os acompanharam ao hotel. A recepção por parte do povo foi verdadeiramente apoteótica, em que a multidão, entusiasmada ao rubro, os seguiu até ao Grande Hotel do Porto, o melhor que então existia na cidade, e onde ficaram hospedados. Durante o trajecto, os aviadores foram conduzidos num coche Landau aberto e puxado a cavalos (então os automóveis ainda se contavam pelos dedos…), tendo-se formado um cortejo que subiu a Rua de Santo António e Santa Catarina, até ao hotel. A certa altura do trajecto, os estudantes universitários desatrelaram os cavalos, puxando eles mesmos o Landau. Durante todo o percurso o entusiasmo foi transbordante, eufórico e indescritível, sendo os aviadores constantemente ovacionados, ao mesmo tempo que das janelas engalanadas com vistosas colgaduras, eram lançadas, com profusão, inúmeras pétalas de flores. Tive o gosto de os ver entrar no hotel, de uma janela em frente. Voltei a vê-los no Porto, no dia em que foram descerrar uma lápide comemorativa da travessia, colocada no lado esquerdo da base do monumento ao Infante D. Henrique.
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A Ilustração Portuguesa, no n.º 855, de 1 de julho de 1922, registava o acolhimento no Brasil – e a receção com o Presidente da República – e depois, em Portugal:
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No número seguinte, de 8 de julho, apresenta a receção do Presidente da República portuguesa e o acolhimento em diversas cidades:
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Finalmente, no n.º 857, de 15 de julho de 1922, recorda alguns momentos da viagem e as celebrações em diversas cidades:
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Diversos postais foram publicados comemorando a travessia aérea, os correios de Portugal emitiram um selo comemorativo, de 1 Escudo.
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Postais, selo de correio (1922).
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Gago Coutinho veio a falecer em 1924, no Mar do Norte: deslocara-se a Amesterdão com cinco colegas da Marinha, para trazerem três dos cinco hidroaviões Fokker 4146 comprados por Portugal, na sequência de subscrição pública, para proporcionar uma volta ao mundo aos dois heróis. Coutinho e o cabo artilheiro mecânico José Pinto Correia levantaram voo de Amesterdão no sábado, dia 15 de novembro, despenharam-se no mar, nunca foram encontrados.
Santos Dumont (1873 – 1932), que havia estado com os aviadores no Rio de Janeiro, enviou uma pequena carta de pesar a Gago Coutinho (“O Jornal” (RJ), de 18 de junho de 1969). 5
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Carta de pesar de Santos Dumont a Sacadura Cabral, Biarritz, 23.11.1924.
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O hidroavião “Santa Cruz” encontra-se no Museu da Marinha, em Lisboa e uma réplica em espaço público, junto à Torre de Belém, também em Lisboa.
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O documento “Relatório da Viagem Aérea Lisboa – Rio de Janeiro” foi inscrito pela UNESCO no Registo da Memória do Mundo, a 27 de julho de 2011, e desde então é considerado Património da Humanidade. 6
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Notas:
Pode ler a primeira parte deste artigo aqui.
1 Sobre esta coleção de estereotipias, que integram a coleção do Museu da Presidência, pode ver aqui.
2 O acolhimento no Rio de Janeiro, em “O Paiz”, de 18 de junho de 1922, aqui.
3 Localizei estas fotografias na Brasiliana Fotográfica, aqui.
4 Pode ler o testemunho integral de Isabel Roma de Oliveira, no blogue “Memória das Gavetas”, sobre o acolhimento aos aviadores no Porto e em Gaia, aqui.
5 Pode ler o artigo onde a carta se insere e ver a carta em “O Jornal (RJ)”, de 18 de junho de 1969, aqui.
6 Pode ver e ler o “Relatório da Viagem Aérea Lisboa – Rio de Janeiro”, no Arquivo Histórico da Marinha, aqui.
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Pode saber mais sobre a Primeira Travessia Aérea do Atlântico Sul aqui (Wikipédia), aqui e aqui (National Geographic).
Pode ver a Ilustração Portuguesa na Hemeroteca Municipal de Lisboa, aqui.
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