A PRIMEIRA TRAVESSIA AÉREA DO ATLÂNTICO SUL . 1

1.º Centenário do início da Primeira Travessia Aérea do Atlântico Sul (30.03.1922 – 2022)

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Cartaz “Raid Aerio Portugal-Brazil”,1922

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Foi uma verdadeira aventura a Primeira Travessia Aérea do Atlântico Sul, só possível devido à vontade dois aviadores: Gago Coutinho e Sacadura Cabral. A grande viagem, era carregada de simbolismo: uma nova união entre os dois países irmãos, no ano em que se comemoraram os 100 anos da Independência do Brasil, foi de mais de 62 horas de voo, a cerca de 130 Km/h, e concretizou-se em 79 dias, com 3 aviões! Os seus protagonistas foram consagrados heróis pelo povo de Portugal e do Brasil!

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Sacadura Cabral (esq.) e Gago Coutinho (dir.), 1922

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A ideia de uma Primeira Travessia Aérea do Atlântico Sul é de Sacadura Cabral, que expôs o projeto a Gago Coutinho. O primeiro viria a ser o piloto, o segundo o navegador.

Gago Coutinho desenvolveu um sextante, com um horizonte artificial adaptado, a fim de medir a altura dos astros. Inicialmente chamado “Plaqué de Abatimento”, ficou conhecido por “Corrector de Rumos Coutinho-Sacadura”, invenção que revolucionou então a navegação aérea. Em 1921 fizeram uma viagem Lisboa – Madeira em hidroavião que serviu de teste para a grande aventura, o “Raid Aério Portugal-Brazil”, realizado no ano seguinte.

O ano de 1922 foi um ano especial, pois comemorava-se o centenário da Independência do Brasil: foi em 7 de setembro de 1822 que nas margens do rio Ipiranga, na atual cidade de São Paulo, ocorreu o que ficou conhecido como o “Grito do Ipiranga” – «Independência ou morte», proclamado pelo príncipe D. Pedro que, em 12 de outubro de 1822 foi aclamado Imperador do Brasil, D. Pedro I, sendo coroado e consagrado no primeiro de dezembro imediato.

Um evento como este era um triunfo para a aviação portuguesa e uma forma de assinalar aquela data. Salvaguardar que à data, era a Marinha que coordenava a Aviação Naval, ao passo que o Exército respondia pela Aeronáutica Militar.

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O Fairey F III-D MkII no Centro de Aviação Naval, 1922

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A aventura não era pequena: o hidroavião escolhido, um monomotor Fairey F III-D MkII, foi especialmente concebido para a viagem: modificado, por forma a ficar mais leve, e poder levar mais combustível, garantindo maior autonomia. Entre outras opções, não levam nenhum aparelho de TSF, o que lhes permitiria comunicar, mas levam “uma edição de “Os Lusíadas” de 1670, destinada ao Gabinete Português de Leitura no Rio de Janeiro”. Batizado “Lusitânia”, era de madeira revestida a tela, media 10,92 m de comprimento, 14,05 m de envergadura e 3,70 m de altura. O seu peso em vazio era de 1.800 Kg e equipado, 2.500 Kg. O motor Rolls-Royce escolhido permitia uma velocidade de cruzeiro de 115 Km/hora, mas a velocidade média foi superior: mais de 130 Km/h! A altura de voo situava-se entre os 300 e os 400 m!

O percurso, superior a 8.000 Km, obrigava a diversas paragens, não só para reabastecer, mas também para descansar e verificar as condições do aparelho. A preparação foi efetuada com o máximo cuidado.

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De referir que os ecos na imprensa foram enormes.

A viagem pioneira foi registada por alguns fotógrafos: em Portugal, os preparativos e a partida, o que era possível. A viagem não era acompanhada por barco – era impossível acompanhar a velocidade do avião – nem, naturalmente por outros aviões, embora houvesse navios da Marinha nos portos de chegada.

Em terras brasileiras, o acolhimento aos heróis foi registado por diversos fotógrafos, bem como algumas cerimónias e almoços de homenagem.

A revista Ilustração Portuguesa, suplemento do jornal diário O Século, que saía aos sábados, dedicou em vários números espaço a noticiar – e mostrar – aspetos do Raid. Trarei aqui essas páginas. Tal como esta revista, toda a imprensa destacou o feito.

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Arnaldo Garcez, Sacadura Cabral (recuado) e Gago Coutinho (frente) no “Lusitânia”, 1922

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Carlos Viegas Gago Coutinho (Lisboa, 17.02.1869 – Lisboa, 18.02.1959) e Artur de Sacadura Freire Cabral (São Pedro, Celorico da Beira, 23.05.1881 – Mar do Norte, 15.11.1924) partem de Lisboa, junto da Torre de Belém, a 30 de março de 1922, às 7:00h.

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Arnaldo Garcez, A partida, junto à Torre de Belém, 30.03.1922.

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A partida, junto à Torre de Belém, 30.03.1922.

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Nota de 20$00 do Banco de Portugal, reproduzindo a figura de Gago Coutinho e a partida do hidroavião junto da Torre de Belém: “1922 – Gago Coutinho inicia a navegação aérea astronómica” (base: a fotografia de Arnaldo Garcez).

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Seguindo “Por ares nunca dantes navegados”, slogan de então, parafraseando Luís de Camões (Lusíadas, canto I, 1), nesse dia fazem 703 NM (milhas náuticas) aterrando em Las Palmas, nas Ilhas Canárias, às 15:37h, a uma velocidade de 82 NM/h, tendo notado um consumo de combustível excessivo.

A 2 de abril vão de Las Palmas a Gando, entre as 11:13h e as 11:34h, voam as 15 NM.

A 5 de abril, partem para a Ilha de São Vicente, no Arquipélago de Cabo Verde, percorreram as 849 NM entre as 08:35h e as 19:18 h, no que foi um dos troços mais longos.

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A 8 de abril, no n.º 842, a Ilustração Portuguesa dava a primeira notícia do Raid aéreo, com fotografias de Dinis Salgado (repare-se na semelhança com as fotografias de Garcez, acima):

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Após algumas reparações, a 17 de abril partem de São Vicente, às 17:35h, para a Praia: fazem 170 NM, em 2:15h.

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A 13 de maio de 1922, no n.º 847, a Ilustração Portuguesa mostra imagens desta viagem:

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No dia seguinte, partem do porto da Praia, na Ilha de Santiago, às 07:55h e voam em direção ao Arquipélago de São Pedro e São Paulo, em águas brasileiras, onde chegam às 19:16h: 11 horas e 21 minutos para vencer as 908 NM. Chegam já com os depósitos vazios. Ao amarar, o mar revolto provoca danos, perdendo-se um dos flutuadores e o avião perde-se. São recolhidos por um cruzador da Marinha Portuguesa, que os conduz a Fernando de Noronha – o governo destacara navios para prestar assistência no ponto de partida e no ponto de chegada, em mar aberto, os aviadores estavam por sua conta. Estão felizes apesar de exaustos: encontraram os pequenos rochedos em pleno Oceano Atlântico com o sistema de navegação de Coutinho.

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O Lusitânia sobrevoando junto aos Penedos de São Pedro e São Paulo, 18.04.1922.

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O afundamento do Lusitânia, 18.04.1922.

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A notícia do afundamento em França, no Le Petit Journal Illustré, 30.04.1922.

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A opinião pública, quer portuguesa, quer brasileira mantinha-se atenta, com um entusiasmo contagiante. O Governo Português decide dar continuidade à epopeia e envia outro hidroavião, o Fairey n.º 16, comprado conjuntamente com o Lusitânia e batizado “Pátria”. Chegou a Fernando de Noronha no dia 6 de maio, a bordo do vapor “Bagé”, acompanhado de cinco jornalistas, um fotógrafo e um operador de cinema.

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A 29 de abril, no n.º 845, a Ilustração Portuguesa mostra Gago Coutinho, bem como os preparativos do novo avião e noticia:

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E no n.º 846, de 6 de maio, mostra a partida do Pátria a bordo do vapor “Bagé”:

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Recebido o novo Fairey e após uma revisão, a 11 de maio, às 11:01h, Gago Coutinho e Sacadura Cabral voam rumo a São Pedro e São Paulo, para reiniciar o troço no ponto interrompido, mas uma avaria do motor, obriga-os a amarar de emergência, pelas 17:35h, percorridas 480 NM, a 1º 09’ de latitude Sul e 31º10’ de longitude Oeste. Só ao fim de nove horas, a flutuar no mar a 170 milhas de Fernando de Noronha, são resgatados por um cargueiro inglês, o “Paris-City”. Gago Coutinho ficaria para sempre grato ao seu comandante, Albert Tamlyn, escrevendo-lhe sempre a cada 11 de maio. Regressam a Fernando de Noronhano navio “República”, que entretanto chegara ao local.

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Portugal irá enviar um novo avião, Fairey F III-D, n.º 17, com o qual concluirão o fantástico raid aéreo!

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Diário de Notícias, O novo Fairey F III-D, n.º 17, maio.1922.

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Pode ver a segunda parte deste artigo, aqui.

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Pode saber mais sobre a Primeira Travessia Aérea do Atlântico Sul aqui (Wikipédia), aqui e aqui (National Geographic).

Pode ver a Ilustração Portuguesa na Hemeroteca Municipal de Lisboa, aqui.

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