JOÃO MARIANO, TREZENTOS E SESSENTA E SEIS
Exposição no Arquivo Municipal de Lisboa – Fotográfico, até 30 de abril de 2022.
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O ciclo da vida. Dia após dia, ano após ano. No campo, com o ciclo das culturas, este ciclo assume um caráter especial. Semear, germinar, despontar, crescer, amadurecer, colher, pousio, semear… Inverno, primavera, verão, outono, inverno… O ritmo repete-se… Semeadura a semeadura, colheita a colheita… Ano a ano…
João Mariano escolheu um ano bissexto. E todos os dias, ao início da manhã, sai de casa, vai até aquele ponto, enquadra o olhar entre a árvore à direita e a sebe à esquerda em baixo – os dois pontos de referência…
A sequência de 366 imagens – de que nos mostra apenas algumas – mostra-nos este interminável ciclo da vida.
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António Bracons, João Mariano, 366, 23.02.2022
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Sobe a série, escreve o autor:
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No filme Smoke, realizado por Wayne Wang e Paul Auster (com argumento deste último), Augustus “Auggie” Wren (Harvey Keitel), trabalha na Brooklyn Cigar Store e todos os dias, às oito da manhã, fotografa a sua esquina de Brooklyn (a esquina da Third Street com a Seventh Avenue), Nova Iorque. Não vai de férias, não sai para lado nenhum devido ao seu hobby. Quando mostra as fotografias todos lhe dizem que são iguais… e ele fica altamente indignado, pois todas são, a seu ver, bastante diferentes. Este meu projecto tem nele a sua grande fonte de inspiração.
É um projecto que pretende reflectir sobre as mutações infinitas da paisagem. Um projecto sobre ciclos. Ciclos que tendem a parecer idênticos e que visualmente até se podem aproximar, ser semelhantes, mas… nunca iguais.
E também um exercício sobre a irrepetibilidade do acto de fotografar. Sobre a efemeridade. É um trabalho que apela, também ele, à reflexão sobre a passagem do tempo (o tempo físico, o tempo de observação, o nosso tempo, o tempo dos ciclos da natureza…), sobre a infinita diferenciação e o desencadear das mutações paisagísticas provocada pelos elementos.
Este trabalho foi desenvolvido entre um de Janeiro e trinta e um de Dezembro de um ano bissexto. As imagens foram captadas ao longo dos trezentos e sessenta e seis dias, sempre do mesmo ponto de vista, entre as oito e as nove horas da manhã.
É também ele um tributo a todos os “Auggies” dos nossos tempos.
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António Bracons, Aspetos da exposição, 2022
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A exposição “Trezentos e sessenta e seis”, de João Mariano, está patente no Arquivo Municipal de Lisboa – Fotográfico, na R. da Palma, 246, em Lisboa, de 23 de fevereiro a 30 de abril de 2022.
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Sobre si, diz João Mariano:
Fotógrafo, director de arte… soul rider de bicicleta de montanha… amante de música menos convencional (há relatos sussurrados de épicos sets passados pelo meu alter ego: o sobejamente desconhecido Evil Mariachi).
Vivo e desenvolvo os meus trabalhos entre Aljezur e Lisboa. Actualmente desempenho funções de CEO e director de arte na agência 1000olhos – Imagem e Comunicação (que fundei com a minha mulher, em Aljezur) – www.1000olhos.pt
Com o passar dos anos fui descobrindo que a minha real paixão profissional é fazer livros. Os meus e os decorrentes dos trabalhos de clientes da 1000olhos. Adoro criar conceitos, reunir equipas (com especialistas em cada uma das áreas temáticas de cada projecto), acompanhar e supervisionar a criação gráfica… Tenho um especial prazer na escolha dos papéis, das técnicas de impressão, dos materiais para o acabamento… Acompanhar a impressão na gráfica adaptando, noutro contexto, a frase de Robert Duvall no Apocalypse Now: “I love the smell of ink in the morning!”. E depois… ter o objecto físico na mão! Sentir o seu peso e afagar o papel, ouvir o folhear das páginas e olhá-lo de todos os ângulos para evidenciar relevos e texturas do acabamento, sentir a sua mescla de cheiros… e no final poder dizer que vale sempre a pena (eternamente Pessoa) quando de um livro se trata. É por isto, que na minha opinião, o livro, enquanto objecto físico, será sempre eterno.
Desde o final do século passado que tenho vindo a desenvolver uma série de projectos no sul de Portugal (praticamente todos materializados em livro), muito em especial na área abrangida pela Costa Vicentina. O meu primeiro livro foi o Guerreiros do Mar (1998). Seguiram-se o Lugares Pouco Comuns (2000), Trabalho_de_Fundo (2001), Alambiques & Alquimistas (2007)… Na mesma linha de trabalho foi editado em 2010 o livro “Mariscadores | Ria de Alvor: histórias de um lugar” e em 2014 teve a sua primeira apresentação a série “O Conhecido Desconhecido”, uma abordagem muito pessoal ao litoral do concelho de Lagoa.
No final de 2016 foi editado Costa do Mar, um volumoso álbum que é uma espécie de síntese dos meus primeiros projectos no extremo sudoeste.
Em 2018 apresentei o projecto “Trezentos e Sessenta e Seis”, um longo trabalho que se debruça, essencialmente, sobre “(…) a infinita diferenciação e o desencadear das mutações paisagísticas provocada pelos elementos. (…)”.
O meu mais recente livro chama-se ENTRE AS ÁGUAS e é um projecto artístico de fundo que tem a investigação, o reconhecimento da paisagem, o sondar dos detalhes e o sentir da subjectividade e unicidade do lugar como principal foco.
Para além dos projectos que referi acima tenho vindo a desenvolver vários outros estudos e trabalhos que foram expostos e editados em Portugal e no estrangeiro.
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Pode conhecer mais sobre o trabalho de João Mariano, aqui.
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